Bem com o que se é, bem com o que se tem

Já pensou em ser feliz apenas com o que se é ou se tem hoje independentemente do outro?

A “bipolaridade” está em alta hoje em dia: conflitos na Síria, reviravolta da “direita em relação a esquerda” no cenário mundial, crise de representação no âmbito nacional, aumento do terrorismo, entre outros. Embora alguns acreditem que o mundo esteja a caminho de um fluxo ladeira abaixo ou retrocesso, entendo que a crise serve mesmo para revisões e – sempre à duras penas – transformações de postura como indivíduo e como parte de uma sociedade. A neurose de uma “certeza superior” que um grupo tem em relação ao outro e vice-versa, só define o quanto as pessoas andam cegas pois, na prática, certeza absoluta não há. O que há é uma agressiva tendência a nos agarrar em nossas crenças (sejam políticas, filosóficas e/ou religiosas) em épocas de instabilidade, sejam diante ao cenário ou perante as próprias crises individuais. Queremos provar ao outro que temos razão justamente porque, no fundo, nossas insatisfações são o que nos assombra. Estar perto daqueles que acreditam em nosso ponto de vista é também um consolo para tentar amortizar o medo da verdade dos outros, que nos parece “assustadora”, ou do “inimigo”, fruto legítimo de um posicionamento maniqueísta.

Uma das maiores inquietações da vida de um gay é a relação com a sua própria sexualidade. Hora se contém demais, fugidios perante a retaliação social, devido a própria insatisfação ou incertezas consigo, pelo temor da rejeição de pais e amigos; hora se autoafirma demais, como “ser gay” fosse algo acima ou abaixo do ordinário, positivamente ou negativamente.

Por sorte, diante a essa bipolaridade, existem matizes entre um polo e outro (o que materializa a diversidade) e fato raro é encontrar indivíduos que buscam se encontrar ao centro. O centro sugere não somente o equilíbrio, mas a libertação dos vícios, estereótipos, rótulos e manias encontrados nos polos. Ou pelo menos, e talvez de maneira mais assertiva, o lugar para aqueles que batalham para se livrar das próprias neuroses.

Como seres humanos, vivemos a todo momento cercados de questões, dúvidas e inquietações. O que cada um faz com suas questões, dúvidas e inquietações é determinante para a qualidade de vida. Sofrer por ser gay ou por não ter certeza sobre a própria sexualidade, não deixa de ser, algumas vezes, uma força motriz para mover o indivíduo a algum lugar diferente da posição que se encontra hoje. Mas, ao mesmo tempo, viver de ansiedades e aflições todas as semanas por isso, temendo o que o mundo de fora de si pode fazer com tal fato, é algo que deve ser ressignificado com certa força de vontade. Sair dessa neurose (prisão) é necessário.

Como propósito, a verdade que vem de dentro deve ser justificada e fazer sentido apenas a si e deve ser maior e mais fortalecida do que as verdades que vem de fora. Quando estamos legitimamente convictos disso, deixamos de fugir. Quando estamos certos dessa crença, não precisamos necessariamente super positivar nossa sexualidade para o exterior, tampouco se ressentir ou cair nas “armadilhas discursivas” da super negativação comum a parte do exterior que vira e mexe quer nos fazer lembrar que “ser gay” é menos.

Neste contexto, de aceitação ou rejeição, saber perdoar para ter a liberdade de seguir em frente, desprendido de qualquer peso ou bloqueio é importante. Vira e mexe vemos textos enunciando o poder do perdão e sou um dos primeiros a reforçar o quanto essa força nos liberta. Mas se deslocar de um posicionamento perante a vida que nos deixa em função de ter que perdoar ou não, me parece o próximo passo.

Para que perdoar ou não se a maioria dos gestos que vem do outro não me provoca tal sentido? Que lugar é esse, dentro de mim, que me isentaria de gestos e atitudes que vem do outro, livres de uma possibilidade de ter que perdoar ou não? Por onde começar a me expandir para chegar nesse lugar?

Em épocas de crise, sejam as contextuais ou as particulares, afirmar a si – de preferência em silêncio – o quanto se pode ser feliz com o que se é e o que se tem hoje, é um bom começo, certos de que não podemos tirar do radar aquilo que nos fará mais feliz amanhã, independentemente das verdades alheias.

3 comentários Adicione o seu

  1. Andre disse:

    “Mas se deslocar de um posicionamento perante a vida que nos deixa em função de ter que perdoar ou não, me parece o próximo passo”

    Oi Flávio, tudo bem? Acho que não entendi o que você quis dizer com a frase acima. Seria algo como se desvencilhar da ‘obrigatoriedade’ do ato de perdoar a si próprio ou a outra pessoa? Nesse sentido, apesar do perdão ter sua importância como um instrumento de libertação, ele também poderia nos aprisionar por medo do sentimento de culpa (por não ter perdoado alguém?). Posso estar delirando, mas ultimamente tenho pensado que há situações que acontecem por que simplesmente acontecem. Ou seja, ninguém é culpado de nada, não há mocinhos ou vilões, portanto não há o que perdoar.

    1. minhavidagay disse:

      Pois então você traduziu a afirmação, Andre. Encontrou um posicionamento onde, de repente, não há mocinhos nem vilões… em que lugar se estabelecer perante as pessoas, de modo que nossa visão sobre o mundo seja tal qual abrangente que, por intermédio de uma compreensão maior sobre a falibilidade humana, nos tornemos tão e tão tolerantes, e tão e tão compreensíveis sobre a própria falibilidade, que o perdão não faça sentido porque antes de perdoar já compreendemos?

      Seria possível?

  2. Andre disse:

    Que pergunta difícil de responder. Mesmo assim, vou dar uma resposta que talvez não faça nenhum sentido, mas é o que me veio à mente agora. Sabe aquela sensação de que tudo faz sentido? Sua existência, seus erros, acertos, dificuldades, enfim, tudo naquele instante faz o maior sentido pra você, mesmo que ninguém tenha lhe dito uma única palavra. Como num ápice de lucidez, você pudesse ter a sensação de compreender essa dimensão toda (a vida). De modo ilustrativo: você dentro de um quadro, dentro de um outro quadro, que por sua vez está dentro de um outro quadro maior ainda, e assim sucessivamente. Já tive uma única vez essa sensação maravilhosa, após a leitura de um livro, mas acredito que não foi por conta do livro (embora ele tenha contribuído), e sim devido ao contexto que eu estava vivenciando naquele momento. Bom, e o que quero dizer com isso? Naquele pequeno instante as questões humanas eram simplesmente questões humanas. Eu não tinha o viés da minha cultura, da minha religiosidade, das minhas vivências. Eu não estava numa posição de julgamento prévio pra questões que me afligiam; e o perdão é ‘apenas’ uma delas, dentre várias outras. Sim, porque quando eu ‘me proponho’ a perdoar alguém, automaticamente eu já me coloco numa posição confortável em relação àquela situação ou pessoa. Obviamente, não levo em consideração aqui questões mais sérias, nas quais a ética e a justiça têm sua importância. Falo de possibilidades mais subjetivas. Ali, naquele instante eu me tornei tão e tão tolerante, tão e tão complacente, que nada mais me afligia. Então, eu não tinha o quê perdoar, eu não tinha que ser perdoado. Mas como disse, foi um pequeno instante. Não sei se seria possível manter essa compreensão da nossa falibilidade ao longo da vida.

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