Caixa de Pandora

Frente a todos os males do mundo que foram libertados quando Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, abriu seu jarro, ela reservou aprisionado apenas a esperança. Esperança que aqui no MVG costumo tratar sempre como expectativa.

Condizente ou não com o mito da “Caixa de Pandora”, expectativa e ansiedade são dois males do mundo moderno e, nós, acima de tudo humanos – sejamos gays, heterossexuais ou variantes – estamos sempre “brigando” com essas emoções nos mais diversos sentidos da vida, na profissão, nos estudos e, claro, quando o assunto é relacionamento.

São quase duas semanas que estou novamente solteiro, embora a sensação de “estar uno” viesse a mais tempo devida a distância física que existia na ocasião. Se tenho expectativas para algo? Curiosamente, não. Muitos dos modelos “namorando VS. solteiro” são bastante conhecidos a mim, tanto de cá e de lá, e, até onde posso imaginar, amplos ou profundos. Mas e quando se tem pela primeira vez na mão (pelo menos no campo de expectativas para um relacionamento) uma sensação de não saber o que esperar? Porque verdade seja dita: uma grande maioria das pessoas de Hornet, Grindr ou Scruff lançam ao ar um discurso “sem expectativas”. As mesmas que a galera da balada pronuncia ao vento ou até mesmo das saunas da vida. Mas deixa pintar um cara fisicamente atraente, esclarecido e de vida estável para ver se essa conversa não muda? Muda sim, com a mesma facilidade que Jesus transformou a água em vinho.

Mas não é o meu caso, quando o “cara ideal” a mim parece não existir. Resolvi logar de novo nos “cardápios virtuais” e, impressionantemente (não sei se pela qualidade das câmeras de celular e dos aplicativos de tratamento de fotos), os exemplares estão cada vez mais bonitos. Falo agora exclusivamente das questões puramente estéticas. Jovens com “cara boa”, deixando barba por fazer para parecerem de mais idade, e mais velhos com corpos muito em ordem, dignos desse apelo estético cultural e atual. O ponto é que, bem ou mal, além de me sentir conscientemente no páreo para “disputar” o frenesi dentro dos apps, o mais interessante é que tais fisionomias belas, de rostos bonitos e/ou corpos torneados já não são mais suficientes para eu entrar naquela paranoia ou fixação em “conseguir alguém” ou, tão psicológico quanto, me sentir um “peixe fora d’ água” diante tanta cobrança pela beleza.

Não quero dizer com tudo isso que as pessoas não sejam interessantes; cada um lá está usando de máximo esforço, dote (ou resmungo) para se enquadrar no “modelão”. Mas, finalmente e felizmente, a atraência de um homem ou menino mantém minhas emoções e expectativas em níveis saudáveis, o que me dá muita autonomia para – inclusive – atuar nos aplicativos.

Só de pequenas experiências online que tive, daria para narrar pelo MVG umas 10 crônicas, selecionadas em três dias de experiências. Vale pinçar uma delas, para começar, desse jarro de Pandora: um mestiço, certamente atraente, chegou assim depois que sugeriu pular para o Whatsapp:

(…)

Mestiço: Cara, você é muito lindo, ahahaha.

Eu: Ahahahahah… de novo! Vou ficar envergonhado assim :P

Mestiço: Desculpa. Mas é que é verdade. Te achei MUITO bonito.

Eu: Obrigado, de novo :)

Ele: Acho que você não me curtiu muito. Hahahahaha.

Eu: Acho que pessoalmente eu poderia tirar a teima :)

Ele: Quando a gente se encontrar vou me sentir em avaliação :( :( :(

Eu: Bem, nesses encontros a gente está sempre em avaliação, não é? :P

Ele: De certa forma sim. Mas não conscientemente.

Eu: Ahahahah… deixa voltar para o inconsciente então. :D

Ele: Fiquei até inseguro, ahahahaha.

Eu: Não fique… não sou tudo isso. Sério mesmo.

Ele: Hahahah… tudo é muito relativo. Enfim…

Eu: Não encane. Me tira desse lugar que você já me colocou…

(Silêncio)

O fato é que a gente sempre vai achar alguém mais bonito que a gente e, ao mesmo tempo, sempre haverão aqueles que acharemos mais feios. A grande verdade é que o homem gay tem uma natureza visual, de julgar a beleza em praticamente tudo o que vê. Outra grande verdade é que a grande maioria dos gays tem sim um forte apego estético, por mais que o discurso seja outro ou – por nos sentirmos fora de determinados standards de beleza, evitamos ou negamos tais assuntos. A beleza alheia por vezes assusta e, quando assusta, tememos ficar submissos ou rendidos a tal poder concedido (porque é, sim, concedido). Por vezes a beleza vira objeto de desejo e, da mesma maneira, a fixação pode nos tornar igualmente cegos.

A ideia de beleza que projetamos acaba desumanizando o outro. É aquele que vê a beleza, com tanta intensidade, que acaba esquecendo que o outro, é sim, de carne e osso. A mídia pode ter criado os pilares, mas somos nós mesmos que os sustentamos.

 

 

6 comentários Adicione o seu

  1. Liori disse:

    Tudo isso pra dizer pra gente que vc “é bonito” e está de volta ao purgatório dos Apps!?

    Na boa bicha quem procura algo sério jamais encontra nesses aplicativos ! Não existe pessoas de verdade lá. A verdade está lá fora !!!

    Desse jeito vai morrer solteira !

    1. minhavidagay disse:

      Defina “algo sério”, Liori… pode dizer o que você entende com “algo sério”?

      As demais provocações pessoais vou desconsiderar.

  2. Adônis disse:

    O seu texto encaixa perfeitamente no meu atual momento, MVG. Eu tive uma conversa pelo Tinder praticamente igual a que você transcreveu aqui para o blog, e estou conhecendo essa pessoa, nesse domingo teremos nosso terceiro encontro. O mais incrível de tudo é que esse rapaz que conheci foi o primeiro com quem conversei no app. Deu tão certo que eu estou controlando minha mente sonhadora para não idealiza-lo demais. Foi o meu primeiro beijo gay, eu estava bastante tenso, e ele foi super atencioso e então a química entre nós foi ótima, depois de muitos amassos ainda conversamos por horas.

    O que pude concluir dessa minha ainda incipiente experiência é de que,claro, todo mundo quer encontrar o seu ‘deus-grego’, mas a satisfação de “tomar posse” de um ideal de beleza que idealizamos nem sempre basta, acho que na equação do desejo outros fatores são tão essenciais quanto a estética.

    1. minhavidagay disse:

      Não só na equação do desejo, Adônis, mas na equação de um relacionamento íntimo, que me parece o que vc idealiza no momento.

      Parabéns e, com toda certeza, desejo muito sucesso e prosperidade nessa relação. Que as idealizações se transformem em realidade, mutuamente! :)

  3. Hasten disse:

    A pouco mais de um ano atrás, fiquei solteiro por força do destino, esse mesmo destino que apresentou meu ex.
    Nunca acreditei muito nesses apps, sempre usei como uma distração (e quem não?).
    Pois bem, foi numa dessas distrações que encontrei meu amor!
    Avaliações existiram, com certeza. Beleza física foi posto em prova, óbvio. Mas sempre procuramos alguém para nos completar, e nesse caso a beleza interior sempre falará mais alto.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Hasten por quebrar com o mito dos apps com seu relato! :)

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