Choque cultural

É inevitável retomar as atividades no Brasil, depois de oito dias em NYC, sem me dar conta das diferenças culturais do meu povo brasileiro e do “povo do mundo” que reside em Manhattan. A começar com diferenças claras e reconfortantes para nós, gays brasileiros, como essa ilustrada abaixo, a qual registrei no High Line Park, ponte férrea antiga que virou parque e inspira o Haddad com o Minhocão em SP.

gays-em-nyc-highline

Imagine uma cidade grande como São Paulo, na qual pequenas expressões de homoafetividade declaradas na foto acima, são comuns e corriqueiras em qualquer canto? Pois bem, em NYC é assim e tal autonomia não se restringe a apenas um quadrilátero limitado como a região da Paulista. A High Line é bastante distante do “gueto gay” conhecido e na qual me estabeleci com minha mama e meu amigo hétero: o bairro de Hell’s Kitchen.

Tal diferença fica nítida e atende devaneios e expectativas de muitos gays que passam pelo MVG. Mesmo aqueles que não acham necessárias as expressões afetivas em público, sabem que tal autonomia, para quem gosta, revê bastante nossa ideia de liberdade.

Mas as diferenças, as vezes, são mais sutis ou menos perceptíveis para nós. Em NYC, por exemplo, uma cidade que realmente é “do mundo”, concentram-se dezenas de nacionalidades diferentes: brasileiros, indianos, chineses, coreanos, japoneses, europeus do leste, do oeste, africanos e – claro – os próprios americanos. É uma cidade tão rica em diversidade étnica/estética que cada um pode ser do jeito que quiser e monta seu estilo como preferir. Ninguém se incomoda com um jovem chinês (não necessariamente gay) usando uma bolsa da Louis Vuitton a tira colo. Nem com um negro vestido de rapper, ou com um louro caucasiano de terno, gravata e calças sociais com barras bem curtas fazendo aparecer as meias xadrez. A moda por lá é livre e a associação com gênero ou sexualidade é feita – por exemplo – por um brasileiro que vê.

Assim, cada um vive o seu quadrado.

Ao contrário do que a maioria pensa, o americano ou todos esses estrangeiros que vivem por lá não são frios. Vivem no seu quadrado como comentei acima e, para entrar no quadrado do outro, só não “chegam chegando”. Pedem licença, coisa simples e básica: “Excuse me. Could you please help me to find the 51st Street”. Finalizando SEMPRE com um “Thank you” após respondido. A partir dessa abordagem educada (diga-se não invasiva), qualquer outro tipo de conversa pode se estabelecer. Como foi com um homem norueguês que me questionou na fila do resturante se o local já estava aberto e começou a perguntar sobre a distância do Brasil até NYC. Ou como os garçons do restaurante que notaram eu, minha mãe e meu amigo voltarmos com frequência e queriam saber se éramos novaiorquinos. Ou o lojista oriental (possivelmente gay) que, após finalizar minha orientação sobre as roupas, quis saber de onde eu vinha e que esperava encontrar pessoas do meu perfil mais vezes naquela loja. Ok, esse último foi quase um xaveco.

Mas todas as vezes que eu era abordado, sempre havia um discurso inicial educado, sugerindo “entrar no meu quadrado” com um “com licença”. Educação. Básica. Primordial para expressarmos a civilidade.

Daí que, no aeroporto na volta, umas duas horas antes do embarque – acostumado com a retomada de contato com a nossa cultura brasileira em predominância – dei um toque a minha mãe e ao meu amigo para que reparassem no comportamento do nosso povo:

Ato 1 – estávamos na praça de alimentação do terminal da American Airlines. Assim como o terminal 3 de Guarulhos, a estrutura de lá é como se fosse de um shopping center (mini). Umas duas horas antes do embarque, os brasileiros que voltariam no mesmo vôo começavam a se aproximar. Praça de alimentação pequena, um quarto do que costuma ser as dos shoppings nacionais. De repente, um jovem brasileiro segurando seu filho no colo, começa a conversar em voz alta com outro brasileiro que estava a umas duas mesas de distância. Em minutos, aquela pequena praça de alimentação virou a sala da casa do rapaz. Todo mundo poderia ouvir a conversa e ele, falando em alto e bom tom, supervalorizava os americanos em relação aos brasileiros, como se ele fosse – defitivimamente – um espécime “exemplar” na nossa “raça”, fazendo daquele espaço público sua sala de jantar;

Ato 2 – minutos antes do embarque, os brasileiros se aglutinavam no portão como se fossem formigas em cima de um farelo de bolo. Por vezes, umas cinco, a atendente da companhia aérea falava em português ruim, espanhol e inglês para que aquela multidão se organizasse corretamente numa fila pois seriam todos chamados por grupos. Adiantou? Nada. A baderna se estabeleceu e gente que sentava no fundo do avião deu o seu jeitinho para entrar ao mesmo tempo das pessoas da primeira classe;

Ato 3 – por algum motivo, eu e minha mãe ficamos num grupo anterior ao meu amigo. Entramos antes e reservamos um espaço no bagageiro do avião, já que é fato conhecido de que brasileiro voltando dos EUA vai trazer toneladas de grife além do horizonte e assuntar sobre elas em solo nacional. Se adoramos comprar e glamurizar? Imagina! #sqn. Sentamos em nossos lugares (e graças ao bom Deus havia espaço para nossas bolsas unitárias) e ficamos esperando meu amigo entrar. Eis que ele foi sentar no seu devido lugar, cadeira 39H e uma fulana (brasileira, de 40 e poucos anos, aparentemente intelectualizada e educada) estava confortavelmente estabelecida no banco do meu amigo, com aquela típica cara de “paisagem” que só brasilero sabe fazer. Meu amigo educadamente falou: “olha, meu lugar é aí”.

A moça, na sequência pronunciou: “Ah, é mesmo?! Deixa eu conferir aqui” – retirou como um Joselita a passagem da bolsa, fingindo desconhecer o equívoco. “Ah é… meu lugar é no banco do meio”. Eu bufei e falei em alto e bom tom: “Tá vendo ‘big daddy’, como é o nosso jeitinho gostoso de ser?”.

Meu amigo caiu na gargalhada e a mulher ameaçou se manifestar. Mas acho que minha cara estava tão de “Yakuza vou te dar um soco na cara” que ela resolveu não falar nada. Virou aquela face e ficou no seu “meinho”, apertadinha, porque meu amigo pesa por dois. Minha mãe ao meu lado, validava minha insatisfação com o olhar.

Em instantes seguintes um casal jovem chegou para sentar ao lado da minha mãe. De imediato o rapaz perguntou a ela: “a senhora não quer sentar na janela?”. Minha mãe, educadamente-grossa, respondeu: “olha, seu eu fiz check-in na Internet antecipadamente e marquei o acento onde estou, eu acho que não quero sentar na janela, não é?”. Gozei por dentro!

Não, não sou um mal brasileiro, muito menos odeio o meu país e o meu povo. Só acho que a “merda” ou a “delícia” que é nossa bolha, incluindo os líderes que estão no poder, é de inteira responsabilidade nossa, do povo, seja lá qual classe pertencemos. A mim, educação independe de nível social e a verdadeira classe não diz respeito a poder material.

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Você passa pelo acostamento diante o trânsito na estrada? Ou fura alguma fila quando nota uma oportunidade? Rouba vaga de idosos ou deficientes físicos? Para sua SUV em duas vagas? Não, você nem é jovem muito menos esperto, tampouco “malandro”. Você justifica o abismo cultural desse nosso país.

Respeito ao espaço público, respeito ao espaço privado. Um dia, quiçá, compreenderemos tais conceitos. Ok, os EUA são o câncer do mundo para você. Então basta replicar essa ideia pelo alemão, japonês ou suíço se for conveniente.

Para quem não sabe: GAP, Hollister e Abercrombie & Fitch são a C&A dos americanos. Não sejam ridículos ou ingênuos em solo nacional por se acharem + + ostentando tais marcas.

 

 

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Um estudo antropológico, válido de Norte a Sul, essa confusão privado e público é o cerne da questão, tenho pensado que essa tese está muito bem explícita na corrupção, nas carteiradas, nos arrumadinhos dentro das instituições públicas; como não temos um respeito geral pela lei como forma de estabelecer a paz social, vige a lei do mais forte e então acabamos nos tornando bárbaros de nós mesmos, enfatizando mais o privado que o público. “Aos amigos tudo e aos inimigos a lei”!

    PS: Responde meu e-mail, por favor, querido

    Abraços,

    Le Beadle

  2. minhavidagay disse:

    Oi Le Beadle!

    Ando tão corrido nos últimos dias que nem posts tenho lançado. Verei os e-mails (antes, irei organizá-los – rs. Não axcesso faz meses!)

    Abraços!

    1. lebeadle disse:

      Oi, danado

      Acessa e vê lá, vou aguardar

      Abraços, sempre

      Le Beadle

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