Ciclos

Estou ainda deitado, 8h50, nesse feriado que veio em boa medida para meu relaxamento mental. Minhas sinapses tem funcionado bastante no último mês.

Estou relembrando agora de uma conversa que tive com a minha cunhada – de posicionamento de esquerda e que se considera comunista (um pouco para confrontar autoridade com a minha família) – de que uma ideologia mais de direita tem ganhado força em um cenário mundial.

Notamos esse movimento nitidamente como na França e nos EUA e, em outros países, de maneira mais sutil. Mas quem se presta a ler notícias políticas de outros países, tem percebido esse movimento.

Durante o jantar, dentre as trivialidades de nossa amizade e afeição, tratamos desse tema e questionei o por quê desse movimento, de uma postura tida como de ideologia de direita estar assumindo força mundialmente.

Ela não manifestou uma resposta propriamente, mas o medo dessa inversão no cenário brasileiro que, em certa medida e até de maneira reativa, seriam motivos suficientes para “se os militares tomarem poder nesse país, já avisei seu irmão: pego minha filha e vou embora daqui”. Senti um pouco de um medo precipitado e até mesmo uma ameaça de levar para longe minha sobrinha e a neta de meus pais (rs). Vi com graça pois prevalece dentro de mim a leveza de que aqui, no Brasil, intervenção militar e instauração comunista são as desculpas histéricas daqueles que não se toleram. Não me pertence e existe uma grande diferença entre eu fazer críticas agudas a incorporar um lado.

Paulo Freire costumava dizer que de nada adiantaria o conhecimento por meio da palavra escrita se o indivíduo não adquirisse uma percepção por meio de uma observação abrangente de contexto.

Logo que abri os olhos, tive um insight sobre certa “crise da esquerda” no mundo. Por que estamos vivendo essa crise, quando no contexto brasileiro fica tão nítido ver a instituição da esquerda ruir em nome de um partido?

O status quo se desgasta e cada vez mais rápido mediante a informação abrangente e agilizada que a Internet oferece. E não é porque um sistema tem um viés mais humanista e absorve causas de minorias que não deixa de se desgastar. O status quo leva à comodidade.

No sistema vigente nacional que ergue a bandeira da “luta pelo amor”, noto “caixinhas” que estão perdendo propriedade há tempos e não houve reciclagem. Acomodaram-se ou, igualmente, corromperam-se.

Exemplos:

– um dos grandes erros da esquerda dominante é ter assumido propriedade de causas sem ter notado a emancipação que elas assumem ou deveriam assumir. É sabido que o movimento LGBTT tem sido abraçado pela esquerda há anos. Mas os “filhos” (no caso, nós, gays), quando é que precisaram efetivamente da esquerda para nosso “lugar ao sol”? Nos anos 80 e 90 sim, quando uma parceria entre partido e causa fazia sentido. Precisávamos de uma representação maior, precisávamos dessa força. Precisávamos reforçar bases ideológicas e nos institucionalizar.

Poderiam dizer: “ah, há quatro anos foi liberado o casamento gay em território nacional”. Concordo. Temos essa nova e recente autonomia. Mas será que, efetivamente, casamento gay é um desejo e ideal, sonho de vida, para a maioria dos homossexuais no Brasil? Será que abarca a necessidade da maioria? Será que a parceria entre esquerda e causa enxerga as demandas dos LGBTT ou, na prática hoje, vale apenas na hora de fazer número ao voto de um candidato? Eu não me sinto pertencido a esse grupo. Por que será?;

– nesse contexto de esquerda, preocupações ambientais por exemplo tornaram-se muito mais relevantes. A questão da produção de alimentos sem agrotóxicos circunda a nossa vida todos os dias. Mas o alimento orgânico que, segundo os estudiosos é o mais saudável e há mais de uma década é produzido em território nacional, continua restrito a uma classe média e alta. De que adianta o produtor orgânico ser todo “bicho grilo” e “simples” se tais alimentos saudáveis e livres de agrotóxicos estão somente na mesa da classe “gourmet” do Brasil?;

– a própria gourmetização das coisas (sorvetes, hambúrgueres, etc.) principalmente em São Paulo, tem um cheiro doce dessa esquerda que na prática desagrada a própria esquerda;

– no plano governamental, a gestão terrível de Dilma Rousseff tem sido a manifestação da própria crise. Num exercício mental, tente limpar o aspecto moral envolvendo nomes de empresários e políticos. Tente limpar as acusações e as movimentações do Lula. Sobrará uma presidente (diga-se de passagem, uma representante das mulheres) sufocada, sem habilidade nenhuma para manter a governabilidade com seus aliados e sem força para dar vazão aos seus projetos. Trocou o ministro da fazenda umas três vezes. O mesmo para a casa civil. O Bolsa Família não compra mais carne e o nível de empregabilidade despenca. Já não era hora de termos atingido o fim do buraco para pegar impulso e subir de novo? Dilma, bem ou mal, é a representação da péssima administração de um país.

A “esquerda amor” e que as vezes tem até a soberba de se colocar mais intelectualizada ou de espiritualidade elevada, está vivendo uma crise. É algo mundial e o que me parece, no contexto nacional, é que é um desvio de conduta e de propósitos se apropriar da interlocução de “amor”, “intelecto” e “espiritualidade” quando o assunto é a falência de partes de um sistema. Igualmente, não querem largar o poder. Igualmente, não querem deixar de ser o status quo e apelam por esses conceitos “metafísicos”.

É de bastante mesquinharia mesmo e não tem nada de elevado. Apesar de meu posicionamento de esquerda, estou e sou totalmente à favor da reciclagem.

Os meios para isso? Bem, que sejam os mais éticos possíveis em meio a uma cultura geral de dificuldades éticas. Vivemos o país de dois pesos e duas medidas. Aceitar essa condição é um bom começo para se definir prioridades. Querer resolver tudo ao mesmo tempo é uma literal “viagem na maionese”.

1 comentário Adicione o seu

  1. San bonassa disse:

    Particularmente nunca me senti representado por esta esquerda !

    Falando apenas do apoio ao movimento LGBT, o PT nunca moveu um músculo para ajudar , desde o primeiro governo PT , os temas casamento e lei contra a homofobia jamais foram levados a votação, mesmo com maioria na casa .

    Coube ao Supremo decidir sobre o casamento , hoje podemos casar , no entanto isso não colocou na constituição , ou seja um novo presidente pode nomear novos ministros para supremo e o frágil direito ao casamento pode cair por terra .

    Lei contra homofobia até hoje não existe !

    Isso tudo apenas sobre tema LGBT , em relação as políticas para classes mais baixas , na qual eu me encontro , tudo não passa de assistencialismos barato para escravizar pelo peixe dado e garantir votos , vejo isso de perto até hoje não vi ninguém que recebe ajuda do governo mudar de vida pra valer !!!

    Continua a mesma coisa do FHC.

    Esquerda caviar , boa apenas para alguns, revolução dos bichos !

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