Com que roupa?

O primeiro encontro da minha vida depois de anos

Nos últimos tempos venho levantado certa “bandeira”, enaltecendo as particularidades gays que vão além do esperado pelo universo do “apostólico-católico-romano”. Abordar os assuntos da sexualidade humana, por meio de relatos e contatos com caras – e que transcendam o “comum” do binário “hétero X homo” – é bastante descolado e nem sempre é visto com naturalidade. Confesso que, para isso, na prática, eu mesmo venho me descolando das minhas próprias caixinhas para conseguir tratar o tema com a naturalidade e lidar com o outro sem barreiras e preceitos estabelecidos ao que nos parece normativo e seguro. A exemplo disso está o “lugar” onde eu coloco a sauna hoje em minha vida. Enquanto uma maioria dos gays trata do tema com tabus, preconceitos e uma boa dose de hipocrisia (sim, muitos adentram ou querem conhecer mas morrem de medo de serem descobertos num puro receio de associarem a sua imagem com a putaria), a Chilli Peppers, para mim agora, está no mesmo lugar em que uma balada ou um restaurante que, pelo hábito, volto diversas vezes. É libertador.

Tais rupturas de paradigmas e modelos me ajudam a rever o diâmetro da minha própria circunferência, na medida do possível colocando em conteste o que a sociedade atribui como “certo” e “errado” e “bem” ou “mal”. Por consequência, venho ressignificando os objetos que entram ou não em meu juízo moral e ético a parte da generalização, igualmente preconceituosa e visando o conservadorismo.

Ao mesmo tempo em que carrego dentro de mim esse tipo de “investigador-curioso”, sedento por romper com a conservação de pilares caídos, reabre-se sensações por dentro de querer construir algo mais afetivo. Não há antagonismo nem exclusão ou pelo menos, eu consigo elaborar bem tais realidades.

Até então eu vinha de situações ao acaso, o que tem concedido espaço agora para o propositado. Estou novamente com vontade de querer algo vindouro com outro cara e, da maneira que acredito, minha energia tem emanado nessa direção. Essa energia atraiu recentemente o Beto e atraiu o “Ra” também. Mas o segundo, logo nas primeiras trocas me apontaram para repetições. Repetições daquelas “preguicentas” de muita necessidade de controle, de apego, de incutir as zonas seguras com prioridade na vida do outro. De uma dependência acima de uma marca a qual considero hoje saudável para a manutenção da individualidade de cada um.

Mas o Beto tem (intensamente) oferecido uma sintonia. Não somente das afinidades declaradas como também de subjetividades como tom de voz.

Nosso encontro será no sábado e quase consigo afirmar que não haverá “bolos e furos” pela própria fluidez de ações e reações. E, desde ontem, tenho pensado com que roupa, com qual perfume, entre outros detalhes que sugerem a minha vontade propositada de uma primeira boa impressão. Essa motivação não brota de mim há anos. Não porque ele é alguém “acima”, sobre o critério mundano e idealizado de superioridade. Ele é igual a qualquer um. Humano. Mas de dentro de mim há uma vontade de fazer mais especial dessa vez e nele vem uma vontade de despejar. Minha intuição sugeriu um lugar que me pareceu um ótimo cenário para o nosso marco zero. Ele topou na hora por também conhecer.

Não o vi pessoalmente, mas já surgiu a disposição mútua de passarmos juntos de sábado para domingo. Desconheço essa certa pressa vinda de mim, mas ao mesmo tempo, não temo por possíveis desilusões. O desejo de “colar” é novo, como não sinto há décadas e, pelo menos da minha parte, não vem de atropelos de inexperiências ou carências. Muito menos do desejo de nomear e definir algo. Assim, me parece de influência de uma química rara.

Fui “afobado” assim nos dois primeiros namoros. Mas a época, afobação era regada dos anseios de 20 e poucos anos.

É bom chegar aos 39 anos e entrar em sintonias como essa. É o jovem por dentro que outrora se divertia na sauna, querendo uma companhia certa agora. Quero namorar, mas não há pressa e não há de ser com qualquer um. O que sei é que o Beto e a maneira que nossa conexão vem se construindo, me inspira a essas palavras.

Pronto, leitores que adoram os romances! Podem abrir seus sorrisos. =P

11 comentários Adicione o seu

  1. Róger disse:

    Já dizia Vinicius de Moraes:
    – A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida!
    Engraçado como você pula de desejos tão abruptamente, outrora estava no “desbunde geral” e agora se preocupando com a roupa que iria encontrar o rapaz da vez!
    E ainda enaltecer o lado romântico e que remete a uma publicação antiga em que Q sua terapeuta menciona que você é “de namorar”, rsrs
    É Flavio, parece que a sua terapeuta tem razão, embora as circunstâncias tentem levá-lo para o desbunde, você acaba na relação afetiva!
    E pensar que não temos controle nenhum sob nossos sentimentos apenas corrobora a ideia de que viver é se perder e também se encontrar…
    Que essa sua nova fase seja cheia de borboletas no estômago, frio na barriga, paixão e muito romance!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Pedro/Róger (rs)…

      …como eu deixei no texto: uns desejos não anulam nem excluem outros. É tudo uma questão de oportunidade e sentir o que vale a pena no exato contexto de tempo atual. O amanhã a gente entrega para Deus.

      Eis minha tentativa de viver o aqui e agora.

      :D

  2. Pedro disse:

    Êpa não sou eu não hein… rsrsrs. Mi nombre es mismo Pedro.

    Legal, o Roger fez um belo comentário…

    Já dizia Vinícius de Moraes: “Quando a luz dos olhos teus…” Rsrsrsrs. Sacanagem, essa foi só pra tirar onda mesmo rsrs. Mas aquela valsa interpretada pela Miúcha e pelo Tom é uma gracinha, de tão terna que é.

    Eu entendo esse negócio do apego, desse controle, isso é muito tóxico, bom pelo menos pra mim foi e ainda tenho tentado me libertar disso. Sempre é legal tentar navegar pelos mares que ainda não cruzamos ainda, é uma aventura que pode direcionar a mais auto-conhecimento, se soubermos tirar as lições dessas experiências.

    Pois é, não tenho muito o que dizer, vc se “desensolteirou” ou está se “desensolteirando” antes que eu rsrs (tenho que ler os outros post pra ver o que vc tá dizendo esse é o primeiro que eu leio agora rs).

    Abraços e boa sorte pra gente!

    1. minhavidagay disse:

      Poxa! Me confundi mesmo… ambos fazerem citações de ícones da MPB me confundiu rs =P

  3. Pedro disse:

    É, meu caro Flávio, como você me falou no outro post em alemão, isso é apenas um fragmento do Pedro, o que faz de mim uma coisa única dentre todas as outras e os outros, é o conjunto de todas essas e outras coisas que fazem de mim o que sou: Eu, Pedro. Acho que se confundir é absolutamente normal nesse caso, você não me conhece rsrs.

    Vc não me conhece, e talvez não tenha tanta ciência de que escreve muito a meu respeito (muito mesmo – rs), claro que não diretamente, mas de maneira indireta, estou representado ali em muitos relatos. Não só eu, mas muitos outros garotos que também são assim, como eu sou e talvez como vc foi talvez um dia.

    Garoto que você ainda é, e talvez o seja ad eternum, quando escreve sobre essas paixões que tem, sobre suas angústias, enfim, dentre outras cositas, tem muito de um garoto nisso também. E isso é bonito, sabe, não deixar esse garoto morrer, talvez é o que nos mantem aqui, vivos, vivazes.

    Só te digo uma coisa meu caro: Quando crescer quero ser um pouco como vc, não quero ser igual a vc, mas quero ser um pouco disso que vc é. A impressão que passa é que vc sabe jogar e se jogar, sabe quando deve arriscar, isso é fundamental.

    Não acho estranho ter confundido rs, não absolutamente. Porque da mesma maneira que a inspiração me vem pra escrever essas coisas todas, vem pra outras pessoas também. E talvez a confusão seja prova disso rs. Porque afinal a matéria prima dessas coisas é tudo isso aí é o que vc escreve, sabe.

    É um elogio sincero ao que vc faz. E espero que continue fazendo por muito tempo. Todos sabem o quanto os homossexuais, de uma forma em geral, carecem de certos tipos de referência pra desenvolverem seus relacionamentos afetivos, que de uma forma normativa, digamos assim, são absolutamente recentes, antes tudo era muito no submundo mesmo, era tudo muito oculto, e complicado.

    Talvez isso seja da tendência do teu signo (rs), de ser ariano, dizem que os arianos tem essa tendência de “encabeçarem as coisas”, nota-se, principalmente por ser o primeiro dos signos do zodíaco. Eu não sou assim, sou leonino, e vc talvez saiba né, leoninos são mais reticentes em relação a certas coisas rs. E eu sou muito Leão cara, não tem pra onde correr, e muitas dificuldades que tenho são em relação a certas características deste signo que em mim são um pouco exacerbadas, acho que o meu ascendente em Sagitário não serve pra nada…

    Sobre o meu gosto por “MPB”, bem, há algumas controvérsias a respeito disso, mas se eu for falar sobre isso, acho que vira uma tese, e eu tenho vergonha de ser prolixo (ainda mais). Rs. Brincando contigo rs.

    Abraços!

    1. minhavidagay disse:

      Leão! Então duplico minhas desculpas por ter confundido você com o Róger. Afinal, leoninos costumam a se sentir únicos rs rs rs =P

      Fico muito agradecido pelas suas palavras, Pedro. De saber que hoje, mesmo não atuando por hora presencialmente com alguns dos leitores como fiz anos atrás, pessoas como você se sentem referenciados em relação ao universo gay por intermédio do MVG.

      Abraço :)

    2. minhavidagay disse:

      A propósito: qual a sua idade?

  4. Pedro disse:

    Farei 25 anos em agosto!

    1. minhavidagay disse:

      Ah… Não é mais tão novinho assim!

  5. Pedro disse:

    Daqui a pouco vc vai dizer que eu sou Daddy… Rs

    1. minhavidagay disse:

      Daqui uns 6 anos talvez rs e eu já serei grandpa rs

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