Como encontrar o amor

O mundo anda bastante complicado e parece que, nunca antes, as pessoas estiveram tão tristes. Como encontrar o amor?

Como encontrar o amor? E já trago a resposta de imediato: é no caminho que ele reside.

Eu não sei se falta à cultura ocidental a percepção do valor do caminho e, talvez, indiretamente – desde muito pequeno – a cultura oriental impregnada nos poros fez eu entender, vivenciar e – sem parcimônias nenhuma – me educar e conscientizar sobre o meio.

Nossa ideia é viver o fim

Notório que no mundo capitalista e ocidental é onde se estabelece a ideia da vivência da finalidade: o diploma, o trabalho, o ganho financeiro, a viagem, o status perante determinado grupo, o namoro, o casamento, o carro, a casa, o título, o prêmio, a balada, o evento, o destaque, o celular, a roupa, a câmera, o jogo.

De certo, a cultura ocidental nos ensina que é na conquista desses objetos ou objetivos – e é no desfecho em si – onde se encontra, finalmente, o sentimento de realização. Mas por que as pessoas andam tristes ou incomodadas, passando por momentos de um vazio interior, mesmo quando, suspostamente, todo contexto favorece a materialização de objetos ou objetivos?

A realidade é que nesse país, uma minoria, independentemente do nível social, é educada a valorizar, perceber e reconhecer o caminho e o envolvimento que se pode construir no próprio. Nascemos em um contexto onde cria-se a fantasia de que a felicidade está no fim. E na maioria das vezes não está. Ou, se está, dura muito pouco.

Ao contrário de Machiavel que sempre depositou todas as fichas nos fins, independentemente das formas dos meios, Gandhi definiu que o fim é uma recorrência em proporções, cores e sentimentos vividos nos meios. Ou seja, os meios determinam os fins.

Como eu realmente posso garantir que a finalidade vai liberar em meu organismo as químicas e reações relacionados ao prazer, ao sentimento de conquista e contemplação por se ter chegado no próprio fim? Na cultura ocidental, quase que via de regra, nos ensinam a fantasiar e idealizar os fins como – se lá – residisse o prazer. Mas a mesma cultura esquece de educar as pessoas que, sem o envolvimento com o caminho, o fim pode – facilmente – nos trazer o vazio, a frustração ou a superficialidade.

Como encontrar o amor?

Os meios e os fins

Subi o Pico do Papagaio em Aiuruoca – MG, a 2.000 metros do nível do mar, três vezes. Da primeira vez, a fantasia que tive é que, depois de 5 horas de caminhada rumo ao cume, ter alcançado o platô foi a minha conquista e, a partir dessa conquista, pude sentir por dentro o máximo de contemplação.

Dois anos depois, com o intuito de poder liberar em meu corpo (e liberar meu espírito) aquela bomba de prazeres, reservei um tempo para chegar novamente ao ponto mais alto do pico. Um pouco mais condicionado, fiz em 4h30 horas e, depois de me agarrar a última pedra para chegar no platô, me veio a frustração: aquela ponto não foi o suficiente para ativar todas as químicas relacionadas ao prazer, ao estado contemplativo e o sentido de conquista. Pelo contrário, foi sem graça.

Aquela realidade não saia da minha cabeça: “será que o prazer se foi no momento em que tudo aquilo não era mais inusitado? Não era mais novidade?”.

Por um período até que longo, dei razão a esse pensamento. Mas insatisfeito com essa resposta óbvia, tive um insight relacionado a minha infância.

E a pergunta continua: como encontrar o amor?

O envolvimento com as lagartas

Quando eu era pequeno, até uns 12 anos, eu roubava de uma árvore específica, afastada de casa, alguns galhos e folhas repletos de uma lagarta preta, com um rabicó que parecia um chicotinho e manchas circulares amarelas e brancas. Eu era fascinado pela ideia da metamorfose.

Em casa, colocava aquele amontoado de folhas, galhos e lagartas dentro de um pote de plástico de pé-de-moleque, com diversos furos na tampa e ficava lá, a contemplar. Horas a fio, as vezes.

A borboleta era dessas comuns, pretas e amarelas, populares nos jardins de São Paulo. O grande lance era eu sair da escola de japonês, longe de casa, arrancar os galhos com as folhas e as lagartas, pedir permissão – quase que de joelhos – para a minha mãe que achava tudo aquilo aflitivo e sempre me dizia: “filho, lagarta queima! Credo.” / “não mãe, essa não queima, ó! Só queima as que tem pêlos!”, chegar em casa e correr rapidinho para o quintal pois meu pai não deixaria entrar com os bichos caso ele avistasse antes, depositá-los no pote de pé-de-moleque e aguardar.

Matei várias nesse processo sem querer. Meu pai jogou fora, no terreno baldio na frente de casa, muitas das minhas lagartas! Matei algumas outras quando, já em seus casulos colados na tampa do pote, de tanto eu cutucar para ver a pulpa se mexer, ela rasgava e soltava líquidos.

Matei outras também de inanição, quando a vizinha da escola de japonês chamou a atenção da minha mãe por eu estar acabando com a árvore. Passei a roubar escondido, com o consentimento de mamãe.

Até que um dia a primeira borboleta saiu do casulo, fortaleceu suas asas e eu soltei no quintal. A partir daí, virei um criador de lagartas que, quando viravam borboletas, tinham sua autonomia.

Como encontrar o amor

Voltei para o Pico do Papagaio pela terceira vez. Resolvi redobrar meus treinos na academia pois queria tentar subir em 3h30, no máximo. Chamei meu companheiro dessas vibes, heterossexual (apenas como um detalhe por aqui) para encarar essa terceira. Topou.

Entrei em contato com a dona da pousada e disse a ela que chegaríamos na sexta a tarde, para dormir cedo, tomar aquela sopa de inhame com queijo caseiro ralado e comer pão de cebola até não aguentar mais e que acordaríamos às 7h do sábado para encarar o pico. Domingo voltaríamos cedo para São Paulo.

Falei a ela que era para convocar o Seu Dito, senhor de mais de 70 anos que nos guiou nas duas primeiras vezes e que, ainda, fumava seu cigarrinho de palha no caminho.

Preparamos nossas garrafas de água e bebemos sem miséria pois, no meio da subida, encontraríamos o mesmo rio de água pura, de poder fazer concha com mão e beber direto, sem medo. Lavar o rosto, mergulhar.

A Pintcher da dona da pousada, dessa vez resolveu nos acompanhar todo trajeto e era a mim a quem pedia socorro quando precisava atravessar determinados trechos de rio ou passagens mais difíceis. Subiu obesa e no dia seguinte estava magra, como uma verdadeira pintcher, lady.

Consegui alcançar minha meta, de 3h30 e até fumei um cigarrinho do Seu Dito no meio do caminho. Meu amigo chegou no topo, esbaforido.

Voltamos no mesmo tempo, 3h30, para pegar a janta típica mineira em fogão de ferro à lenha, famintos. Pagamos o Seu Dito, tivemos mais “um dedo de prosa” e a pintcher, ainda gordinha, acelerou e sumiu na pousada.

Eu perdi 2Kg.

O amor está no caminho

Como comentei em diversos posts, muitas pessoas acham que eu vejo o mundo em tons de cor-de-rosa e, em resposta a essa afirmação, eu costumo lançar aquela máxima digna dos conceitos de Coaching: “o mundo é exatamente aquilo que dita as nossas crenças”.

Por falar em crenças:

É no caminho que existe a oportunidade do envolvimento. Envolvimento é a expressão do amor por cada momento vivido, cada passo andado, cada trilha percorrida. Cada situação detalhadamente sentida. Quanto mais há envolvimento pelo caminho, quanto mais se aperfeiçoa essa percepção, mais o fim é esperado ou próximo do desejado, embora não se deixe de vivenciar o sentimento da conquista e da contemplação na chegada. Porém é no envolvimento com o meio, com o percurso, que há a possibilidade de viver o amor, de sentir a vida e, quanto mais amor, ao fim nos cabe apenas contemplar. A contemplação é serena.

Eis uma forma de virar borboleta.

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