Convenções familiares

Minha cunhada veio do Rio de Janeiro em visita a sua família e trouxe a tira colo a minha sobrinha linda, mestiça, de três meses e de tio coruja. Em almoço com a minha mãe pudemos fazer “updates” da vida, ela levemente curiosa para saber sobre o término com o Japinha e o momento que eu tenho vivido. Faz tempo que é normativo levar assuntos sobre a minha intimidade para as mulheres da minha família e, se meu irmão estivesse por lá, seria a mesma coisa.

Durante a conversa, ela que já namorou dois caras gays antes, que meio que se assumiram somente depois, fez uma breve avaliação sobre a problemática da distância, algo que passou com meu irmão durante um bom tempo, num circuito Rio – Florianópolis. Conferiu uma natural legitimidade à situação e logo comentei sobre meu atual momento.

Foi durante a conversa que ela questionou:

– Mas Flá, você não pensa mais em casar?

– Olha Cunha… imagine que eu já tive relacionamentos durante 12 anos com pessoas diferentes, famílias diferentes e, inclusive nesse período, fui casado por quase três anos, de viver sob o mesmo teto.

– É… eu já estou chegando na sua marca. Pra mim foram oito anos e só com seu irmão já são quatro!

– Pois é… nesses anos vivi as mais diversas situações entre a relação e com familiares. Nesse mesmo tempo, são mais de 10 anos que sai da casa dos meus pais e criei todo um modelo de vida, de curtir viver sozinho.

– É… eu até entendo. É como meu pai e minha madrasta que estão há anos juntos, mas cada um vive em sua casa e se veem de final de semana.

– É algo por aí que imagino pra mim. Eu e um namorado podemos até nos ver durante a semana, mas cada um com seu canto. Acho muito difícil mudar de ideia. Fora que essa coisa da “pessoa ideal”, da “alma gêmea”… não acredito.

– Ah, nem eu acredito. Mas veja… chegou uma hora na minha vida que eu me dispus a estar com seu irmão e penso levar isso para sempre.

– Eu te entendo. Mas depois de tantas experiências vividas, não sei se a normatividade é a minha pegada. Esse negócio de ter um cachorro no quintal, a situação de dividir o mesmo espaço… não é nada fácil. Fora que acredito, hoje, que duas pessoas se encontram em determinado momento e podem viver quatro ou cinco anos juntos pois vivem uma fase em sintonia. Mas pensar até o fim da vida é tão longe… acho tão difícil dois gays preservarem essa sintonia até ficarem velhinhos, de bengala (rs).

– Ah sim… mas Flá… veja que esses quatro anos podem virar cinco, dez, vinte anos!

– Não tenho dúvidas… quem sabe isso aconteça pra mim quando for tão velhinho como o Elton John (rs), depois dos 50 anos, sei lá… mas por enquanto não aconteceu. Acredito muito no eterno enquanto dure, do fazer valer à pena e crescer mutuamente enquanto estivermos juntos. Mas se escassear, para que ficar casado como numa convenção heteronormativa?

Naquele instante citaria a ela minhas intenções de relacionamento aberto, algo que inclusive já comentei para minha mãe. Mas meu tempo estava se escasseando, por ser dia da semana e ter ainda algumas pendências de trabalho. Ficou para outro dia.

Foi notando as colocações da minha querida Cunha que percebi o quanto ela absorveu a convenção. Respeito totalmente o caminhar que eles, meu irmão e ela, estão seguindo. Primeiro foi o encontro, depois o namoro, a intenção de morar juntos para testar a vida em casal, o casamento e agora a linda filhota. O que de fato está convencionado é heteronormativo e pode ser o ideal para partes dos gays. A mim, passa um pouco distante. Melhor dizendo, com o Felipe – meu ex-marido -, tive muito disso durante quase três anos. O mesmo modelo talvez não tenha se repetido pelo fato de ter cruzado na vida pessoas com outros propósitos, ou, como ela sugeriu, pessoas mais novas do que eu, que estariam em outros estágios da vida.

Talvez todos esses pontos tenham algo de razão. Assim como é possível eu não ter encontrado alguém que efetivamente me estimulasse emocionalmente para conceber novamente um ninho. De qualquer forma, no modelo de vida que tenho hoje, é mais fácil eu pensar em ter um rebento sozinho do que propriamente casar e dividir as centenas de obrigações e preparações que tal ato exige.

Como bem disse a minha terapeuta hoje depois de uma sessão bastante produtiva:

– Flávio, sinto em te dizer… mas você tem vocação para namorar! (GARGALHADAS).

Se ela tivesse me falado isso há três semanas atrás, eu provavelmente ficaria injuriado, num momento que me sentia muito altivo com as peripécias da minha solteirice. Mas no contexto que foi, saiu algo como um elogio.

Vocação para namorar. Taí… é algo para qualquer gay pensar.

19 comentários Adicione o seu

  1. André Galvão disse:

    E ai Flavio, tudo bem?

    Cara esse seu texto, se parece muito com o papo que tive ontem com a minha prima. Por incrivel que possa parecer, quando eu ainda fazia terapia a minha terapeuta em determinado dia, falou a mesma coisa que sua disse á você ” Meu vc foi feito para namorar”… Na época, ouvi isso, porém, em nada mudou o meu pensamento, a final havia terminado um relacionamento não fazia tanto tempo, e eu apenas queria viver a minha vida e me descobrir e realizar novas experiências, e assim, tem sido nesses meus três anos de solteiro rsrs.
    Já tive oportunidade de namorar com três caras (um deles casou-se com um conhecido meu de balada rs), porém, só curti uns meses com eles e não foi pra frente, porque não gostava tanto deles, quanto eles de mim e não acho justo fazer a pessoa que tem um intuito difrente do meu perder seu tempo, sendo que comigo não conseguiria o que eles de fato procuravam e tinham como sonho.
    Nesse meu atual momento, me veio esses dias a imagem da minha terapeuta falando: ” André, meu vc é do tipo que gosta de namorar e pensa sim em ter um relacionamento á dois ” e venho me martelando com essa lembrança, será mesmo?
    Fazem cinco dias que “conheci” um rapaz ai de SP por meio de um app, trocamos telefone e estamos nos falando até hoje pelo whats, pelos nossos assuntos deu pra ver que temos muito em comum, porém, em alguns pontos somos o extremo um do outro, e de certa forma isso tem estigado-me a querer saber mais sobre ele, em conversar mais, já falamos de viagens, família, trabalho (esse ponto foi engraçado, pois, ele disse que sou um workaholic), relacionamentos e o que cada um de certa forma espera e vem buscando… detalhe que ainda não nos conhecemos pessoalmente devido mesmo eu sendo de SP, estar morando em uma cidade próxima devido meu trabalho.
    Enfim, estou com aquela sensação de borboletas no estomago, porém, isso é bom e ruim para mim ao mesmo tempo, pois, infelizmente eu sou o típico ancioso ao extremo rsrsrs e já fico meio imaginado e criando situações (sei isso é errado, mas enfim, o que fazer? rs). Com isso que vem ocorrendo, eu André me peguei pensando novamente em namorar, pode ser que seja com ele, pode ser que não, ocorre que acho que de fato é isso que quero agora, e quem sabe viver uma experiência á dois sob o mesmo teto…
    O meu problema é que sofro por antecipação, eu sou aquele tipico romantico á moda antiga, gosto de fazer surpresas, mandar msgs fofas, musicas e talvez o meu pecado seja o excesso de mostrar para o outro que estou a fim… até agora de certa forma do modo dele, venho sendo correspondido (não da maneira que gostaria rsrs mas sei que ngm é igual á ngm), com essa situação as vezes me sinto confuso, e um besta, mas fazer o que, mesmo sendo o mais realista possível e saber que não existe conto de fadas e o mundo de Alice, resolvi arriscar, afinal como já disse algumas vezes á vida ta ai para aprendermos, com erros e acertos, então, vamos para um possivel sim, ou não….
    Meu momento hoje, acaba que um tanto diferente do teu, porém, parecido em determinados momentos e me desculpe lhe dizer, mas sim, sua terapeuta tem razão e acho que seu estilo é o de namorar! rsrsrs

    Enfim, queria dividir esse meu momento também.

    Abraços querido!!!

    1. minhavidagay disse:

      Oi André!
      Três anos solteiro…….. não sei o que é isso! =O Heheheh

      Olha, acho que esse tom meio juvenil quando conhecemos alguém que nos interessa além, é totalmente legítimo.

      Aproveite esse momento, tentando ao máximo controlar suas ansiedades (e consequentemente as expectativas). Acho muito bom quando nos permitimos “abrir as portas” para uma nova pessoa na vida, mesmo que não seja exatamente essa que você tem criado intenções.

      Talvez nada aconteça com ela muito além do que você espera, talvez aconteça, mas como também compartilhei hoje com a terapeuta, e busquei deixar claro no texto “Que emoção é essa”, é uma certa dádiva poder sentir de novo, e de novo, e de novo a possibilidade do encantamento por alguém.

      (Falou aí o “vocacionado” em namorar) rs rs rs

      Um abraço e se joga nessas emoções! :P
      Flávio

  2. neto silva disse:

    Oi Flávio. Há 15 anos procuro a metade da porra da laranja. Ja até encontrei. Foi o primeiro namorado. Com 3 meses estávamos namorado e ja morando juntos. Ele comigo e minha família. Foram 3 meses de início lindo de namoro e o restante… só deus na causa. Pra resumo de conversa: Hj ele está casado com um cara há uns 5 anos. Com direito a festa de casamento, smoke rosa e tudo. Compareci e inclusive fiz aqueles videos de moviemaker de power point em homenagem a eles. Todo choraram. Bem, Hj ele simplesmente trabalha na minha casa. Isso mesmo. Ele faz serviços domésticos pra minha família. Lava louça. Faz comida e no final recebe um salário do meu pai. Eu ja perguntei pra ele se isso não é embaraçoso. Ele garantiu que não! Mas confesso que é embaraçoso pra mim . Não terminamos na boa. Muita mágoa rolou. Eu terminei pois não gostava mais dele. Conheci ele em 2003. Mas agora em 2015 ja ta tudo no seu lugar. Pelo menos na cabeça dele. Talvez o casamento deva ter dado oque ele queria: Um cantinho, um violão e paz. O marido dele não vai com a minha cara, mas mantém a diplomacia. Apenas tento entender esse fim de empregada doméstica que ele teve. Um dia vou mandar pro casos de familia e a chamada será” meu ex virou meu meu empregado”. Acho essa parte da minha história a mais bizarra de tudo oque ja vivi nos meus 30 anos. Creio que daqui pra frente tudo será fichinha. Até agora está Sendo.

    1. minhavidagay disse:

      Neto!

      Realmente… que situação peculiar! Mas pelo que entendi, passaram-se 12 anos do ocorrido. Você não superou, digo, já não vê a situação com naturalidade? Embora “bizarra”, é a realidade por aí e achava interessante, após mais de uma década, você levar com naturalidade.

      E o lance da “metade da porra da laranja” (rs) é como tenho falado em outros posts: não existe! Em tempos atuais, as pessoas buscam ser inteiras e, ocasionalmente, levam consigo a companhia de alguém pelo puro exercício de querer alguém ao lado.

      Veja que posso confirmar a afirmação da minha terapeuta e assumir que tenho vocação para namorar. Hipoteticamente, se for realmente vocação, busque mudar a ideia de “metade da laranja”. Ela não existe.

      E, sim, busque aceitar com naturalidade que seu ex é hoje empregado da sua casa e encontrou felicidade (há cinco anos) com outra pessoa.

      Quem sabe assim, você não se liberta para se realizar com outro alguém?

      Claro que todos esses comentários levam a questões muito mais profundas. Não tem como sugerir resultados no formato do comentário de post. Mas foi o que colhi nesse seu texto…

      Um abraço,
      Flávio

  3. Sandro Bonassa disse:

    Por falha no celular não foi possível terminar o cometário.

    Estou namorando faz dois anos ( meu recorde foi três anos).

    Em momento algum tive aquele aquela vontade louca de casar e morar junto.
    Sempre que escuro escuto ” pra sempre ” tenho calafrios, rs.
    Pra sempre e tempo de mais, passo parecer frio, sempre ccomeço um relacionamento sabendo que ele vai acabar, afinal tudo na vida tem começou, meio e fim.
    Hoje esrou estou namorando um comissário, não era no começou tinha acabado de se formar.
    Com um ano de namoro ele conseguiu trabalho em uma cia Brasileira, foi estranho no começo.
    Apesar de não morar juntos todos os finais de semana estávamos juntos e derrepente a vida virou em escalas.
    Quando comecei a me acostumar com isso e foi demitido, redução de custos.
    Arrumou outro emprego “normal “, quando parecia tudo tranquilo ele recebeu um convite para trabalhar dois anos na Qatar.
    Conversamos muito e ele topou, hoje estamos namorando a distância.
    Quando não esta aqui eu cuido das minhas coisas, trabalho, faculdade, saio com amigos gays para baladas ( meu relacionamento é fechado, balada para mim hoje é música), também saio com meus amigos HT, adoro um bar de rock para beber guinnes, jogar bilhar e trocar idéias, nos dias que não estou afim de sair ( algo raro, rs), fico em casa jogando FIFA 15, on line no PS4.
    Estamos nos vendo de vinte em vinte dias, duas vezes ao mês, muitas vezes nem cai no final de semana.
    Transformamos os dias de semana em sábados ou domingos, ou fico no hotel ou pego ele no aeroporto e ficamos na minha casa.
    O interessante de tudo isso é que aprendemos a valor do nosso tempo, transformando segundos em horas e horas dias.
    Isto não quer dizer que topei morar junto depois desta empreitada ” não por hora ” só quero que ele volte realizado morar junto já é outra história.
    Até lá vamos levando conforme podemos.

    1. minhavidagay disse:

      E acho que está lindo assim. Se há consenso na relação e vocês se sentem bem no modelo, porque fazer diferente?

      Teu exemplo confirma que, hoje, existem muitas outras convenções para além do modelo heteronormativo. Hoje, os casais criam seus próprios modelos.

      Valeu pela referência, Sandro!

      Um abraço,
      Flávio

  4. Sandro Bonassa disse:

    No celular é impossível mandar um comentário, o maldito corretor só atrapalha!

    1. minhavidagay disse:

      Tranquilo, Sandro! rs
      Já deletei seu primeiro post…

  5. Sandro Bonassa disse:

    Valeu, Flávio.

    É muito bom todas as suas postagens.

    Descobri através de um amigo do trabalho, forma engraçada, rs.

    Tenho o costume de dizer ” essa minha vida gay”. Em relação ao meu namoro a distância e o fato de ter irmão e pai gays, almoço em família envolve, pai seu namorado e sogra , irmão seu namorado, eu e meu namorado e minha mãe. Costumo dizer que todos à mesa gostam de pênis, rs.
    Um dia meu amigo falou da sua página, nas palavras dele ” Sandro as postagens parecem com os seus textos do face ou da maneira como você lida situações da ” sua vida gay “.
    Acredite até duas semanas atrás não conhecia sua página.
    É o máximo ler suas postagens e todos os comentários.

    1. minhavidagay disse:

      Valeu, Sandro! Feliz por ter uma identificação.
      E vou te dizer que queria ser uma “mosquinha” para conhecer sua família num dia de almoço de domingo. Sensacional! :)

  6. Sandro Bonassa disse:

    Flávio.

    Hoje superado todos os obstáculos é o máximo.

    Meu pai com 59 anos e a minha ” madrasta “,rs.

    São meus amigos de balada.

    Sempre que possível estamos juntos.

    Já o meu irmão é caseiro, feito pra casar, rs.

    1. minhavidagay disse:

      Incrível! Não quer escrever um relato para eu postar no blog?

  7. Sandro Bonassa disse:

    Flávio.

    Hoje superado todos os obstáculos é o máximo.

    Meu pai com 59 anos e a minha ” madrasta “,rs.

    São meus amigos de balada.

    Sempre que possível estamos juntos.

    E entre um final de semana de balada um de praia, minha mãe adora praia então dedicado um pouco de tempo e atenção para ela.

    Já o meu irmão é caseiro.

  8. Sandro Bonassa disse:

    Duplicou a mensagem.

    Eu mandei no desabafo a minha história.

    Provavelmente você deve receber um milhão de email, rs.

    Vou ter que procurar ele no PC.

    1. minhavidagay disse:

      Manda pra mim de novo! Please :)

  9. Sandro Bonassa disse:

    Guri

    Não encontrei, vou escrever novamente e vou encaminhar pelo canal contato.
    Te aviso neste post.

    Bom dia.

    1. minhavidagay disse:

      Eu achei, Sandro! Foi relativamente recente… Vou postar, ok? Bom dia!

  10. Sandro Bonassa disse:

    Blz… Fique a vontade para dar alguma pinceladas, Rs.

    Foi digitado no celular, deixando a emoção tomar conta.

    É provável que em alguns momentos a narrativa fique fora de contexto.

    Abraço

    1. minhavidagay disse:

      Dei uma ajeitada sim! Tá no ar! :)

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