Conversa ao lado

Dentre tantos afazeres atuais na minha empresa, uma delas foi uma reunião de um cliente, proprietário de uma clínica de cirurgia plástica na Paulista. O cliente atrasou e pude almoçar com certa tranquilidade no Shopping Center 3, ponto comum frequentado pelos “fregueses gays” de nossa comunidade, aqui em São Paulo.

Reservei minha mesa, ao meio dia, naquele esquema de deixar o crachazinho para segurar e fugir da lotação do horário. Entrei numa fila monstruosa do fast-food árabe que gosto muito e avistei um jovem sondando a mesa ao lado da minha “reserva”. Logo em seguida se aproximou seu amigo e, naquela toada do tal do gaydar, totalmente conveniente num local como aquele, saquei que eram também da comunidade, jovens gays com 20 e bem poucos anos. Estavam lá com suas bandejas de algum restaurante qualquer, que não era o que eu tinha escolhido.

Preenchi meu prato com minhas guloseimas preferidas, bastante tabule, quibe cru, pasta de berinjela, pão sírio integral, arroz com lentilha e falafel, pesei e sentei ao lado dos meninos. Foi aí que, inevitavelmente acabei ouvindo uma conversa quase que incessante entre os dois jovens, num efeito zap de assuntos, dignos daqueles que morrem de medo do silêncio entre as falas:

– Porque foi num bloquinho de carnaval que eu fiquei com aquele cara. Meu Deus, como ele era lindo…

– Minha ex-namorada sabe de mim…

– Ah, é? Você já namorou uma menina? Vocês terminaram quando?

– Ah, foi no final de 2013…

– Ah, então você entrou nessa vida recentemente. Você mantém amizade com ela?

– Sim, ela é a minha melhor amiga. Mas já tive dois namorados. Um deles eu conheci num cruzeiro que fiz com a minha família…

– Já fui para a Europa, mas tenho vontade de conhecer Nova Iorque…

– É, já fui pra Nova Iorque. Adoro lá… gosto da vida urbana das outras cidades, Nova Iorque, Londres…

– Eu não vejo glamour nenhum em andar de avião. Tudo é ruim: apertado, comida ruim, a gente fica a milhões de metros de altura…

– Eu adoro andar de avião, adoro a comida de avião…

Raspei meu prato e fiquei passando o tempo no celular. Estava saciado com as iguarias da arábia. A conversa continuava ao lado enquanto um dos meninos almoçava lentamente. Empurrei minha bandeja para que eu pudesse apoiar meus braços sobre a mesa e continuei a espiar a conversa com os ouvidos:

– Eu adoro comida árabe…

– Comida árabe é uma das minhas preferidas também…

– Por mim eu comeria todos os dias…

Me senti discretamente devorado.

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Bela crônica, pareceu Rubem Braga…

    “Discretamente devorado”, boa…

  2. juan disse:

    Es un tema muy bueno para tratar y leer diferentes opiniones de cada persona o
    simplemente sus experiencias para mi es diferente, para mi hay que estar como mejor te sientas y ya.
    y les invito a Comunidad gay de melgar
    de Melgar donde la privacidad, la discreción y el respeto por tu identidad sexual es la mayor preocupación.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.