Cordialidade

O Homem Cordial

A maioria das pessoas confude a palavra “cordialidade” com “gentileza” ou “simpatia” e, de fato, a ideia de uma é só fragmento das outras.

Já dizia Sérgio Buarque de Holanda, conceito criado por ele inclusive, de que o brasileiro é um homem cordial. De fato é: passional, movido pelas emoções e, consequentemente, lhe faltando a clareza natural da racionalidade.

Há tempos ouço, pelo menos uma vez por ano, que precisamos abandonar a razão para sermos guiados pelo coração (por sinal, “cordialidade” vem de “coração”). Movimentos “humanistas” de Facebook adoram lançar posts relacionados ao tema, como se realmente a emoção estivesse em extinção no Brasil.

Mas a bem da verdade – mesmo – movimentações, ações e reações não nos faltam a partir da fala do coração. A balança desequilibra pela pouca racionalidade.

Ao digitar no Google o significado da palavra “cordialidade”, a maioria das respostas vem errada, ou melhor, limitada. Então, deixo aqui um vídeo curto e bem interessante do programa Provocações, para maiores esclarecimentos sobre o assunto e muitos outros mais:

Entrevista de Leandro Karnal no programa Provocações da Cultura

Muito além das questões gays, as nuances dos hábitos e cultura da sociedade brasileira vem enchendo meu tanque intelectual nos últimos anos. Talvez, uma visão clara do bicho homem – como um todo – tenha sido o sabor mais gostoso para meus pensamentos. Por isso, livros citados aqui, como “Sapiens” e “A Cabeça do Brasileiro”, formam minha bíblia moderna de cabeceira.

Não somente eles, como “Tribos Morais”, “O Novo Iluminismo”, “Homo Deus”, “21 Lições para o Século XXI”, “O Poder do Hábito”, “Amor Líquido” e “Super Cérebro” tenham me colocado a viajar para dentro da mentalidade do próprio ser humano. São obras que – fatalmente – estarão nas estantes de filosofia e sociologia nas livrarias e que, para quem busca, faz compreender Bolsonaro hoje, Lula ontem, o forte movimento de direita mundial, crises entre Estados Unidos e China, entre muitos outros, para muito além do comportamento simplório-cordial-polarizado que endeusa ou demoniza representantes.

Leandro Karnal

Karnal se declara produto pop, de um Capitalismo que faz tudo virar produto e entrar na moda cedo ou tarde; da visibilidade, do palco. Essa assunção traduz o quanto ele é um ser consciente, na medida de seu possível, quanto a críticas boas e ruins da plateia. Assim, antes que os hatters o condenem, podem ter certeza que as contas dele são bem pagas. :)

Cortella, Karnal, Pondé… são fenômenos da popularização de um pensamento mais filosófico e eu (também) vejo isso com bons olhos.

Cabe ao povo, perante a tudo aquilo que está no palco, atirar tomates (por inveja, falta de compreensão ou discordância de pensamentos), aplaudir (por idolatria e necessidade de representação) ou, simplesmente, ouvir em silêncio para tentar compreender alguma coisa. Costumo ficar nessa última fileira.

Esforço

A mim, as coisas nunca vieram de mão beijada, embora as compensações ou recompensas sempre tenham vindo (ou talvez, eu sempre as tenham enxergado). Tenham enxergado porque há muitas pessoas cordiais (e penso que isso faça parte da dinâmica da cordialidade) que não querem acreditar no lado cheio do copo, no ganho individual que se tem em praticamente tudo que acontece conosco, principalmente nas situações desgostosas, ruins e difíceis.

Não bastasse a falta de confiança, há pessoas que entram em processos de fúria ou incômodo por causa do outro que prefere ver o lado cheio. Precisam criticar ou precisam impor a negatividade para que a sua verdade, aparentemente, domine a situação, transborde de si e, no transbodar, imprima sua noção de “realidade”.

Mas é com pessoas como Leandro Karnal e, mais, com as leituras que tenho feito, que vou compreendendo que, o bicho homem, dotado da consciência que nos distingue dos demais seres vivos e da capacidade de transformar fantasias em verdade, tem o estado da felicidade como uma escolha. E exige esforço pois, num caldo cordial estabelecido em nosso país, a tendência é ser mais uma “maria-vai-com-as-outras” [a cordialidade nos coloca em ações autoafirmativas constantemente, buscando por percentimento frequentemente], no caso – hoje – pela direita ou pela esquerda.

A boiada esqueceu-se de apontar a fuça para frente.

Talvez, a paz de espírito que, ao meu ver, sustenta a felicidade, encontre-se também nessa última fileira, na qual o silêncio para ouvir as coisas do mundo seja predominante.

O ser cordial, mesmo, gosta é de falar. Desabafar ou fofocar de tudo ou todos, respectivamente, para assim exercer sua cordialidade.

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