Cultura da traição

O que o PMDB fez com o PT, numa materialização do Temer ou do Eduardo Cunha chama-se traição, nada mais nada menos. Tais ícones do Partido do Movimento Democrático Brasileiro poderiam ter traído, por exemplo e anteriormente, o presidente Fernando Henrique, que o Michel Temer a época não deixou de se aproximar. A cultura oportunista do PMDB se estabeleceu há mais de uma década, mas foi nesse contexto atual, de uma crise econômica “camuflada” por interesses políticos e de poder que o PMDB viu a brecha para mudar o jogo de alianças.

De qualquer forma, o post de hoje não falará de política. “Assunto chato e que culturalmente não se discute, tal qual religião” – taí a mim um distúrbio de definição, mas tudo bem.

O post de hoje fala (de novo) sobre a traição, tema altamente recorrente em relações gays ou heterossexuais, e nada melhor um exemplo como este que está sob largos holofotes nacionais: “Temer, Cunha e cia, aliados oportunos para o PT, tornaram-se hoje, declaradamente, opositores assumidos”. Traição escancarada e, assim, passível de críticas alheias.

Num contexto amplo, político e nacional, fica fácil tomar partido para um “time”, para outro ou para nenhum dos dois, no momento em que tal situação vai se evidenciando – até mesmo aos olhos dos mais leigos ou alienados – cujo contexto impacta diretamente a nossa condição, principalmente o bolso (materializado na palavra “desemprego”).

A postura de traição está contida no universo da corrupção, para quem não sabe. E assim vou-me fazendo didático.

Saindo do universo das relações políticas, entremos em nossa camada: as relações afetivas. O Blog MVG está alcançando 1 milhão de pageviews, o que significa que o Blog teve 1 milhão de leituras. Do dia que iniciei o MVG para hoje, tais leituras trouxeram centenas de comentários: “fulano me traiu”, “tomei chifre”, “fui traído” e assim por diante; o que me leva a crer que o ato de traição, lá no Planalto Central e aqui na esfera social, é algo quase normatizado. Somos todos brasileiros, lá e aqui.

Não precisamos fazer muitos cálculos nem pesquisas profundas para chegar nessa afirmação. Basta se questionar: “você já foi traído, traiu ou conhece alguém que traiu ou foi traído?”. Quase que numa unanimidade, todos leitores que chegarem nessas linhas irão responder: “sim”. E tal hábito, cultural, reflete no contexto gay e heterossexual.

A verdade, mesmo que seja insignifcante para quem lê, é que estamos envoltos desse gesto de corrupção como praticantes, “vítimas” ou conhecedores de algum fato desse nível, da vizinha, do amigo, do irmão ou (não muito raro) dos próprios pais. Não menos representativo do que o gesto, são as inúmeras justificativas que acompanham o ato. Sempre teremos.

Trair é certo? Trair é errado?

No Brasil e, diante as centenas de justificativas e contextos de cada ato de traição, cujo senso ético é relativo e tal qual oportuno como as alianças estabelecidas entre os políticos brasileiros, o senso moral de “certo” ou “errado” cai num caldo de incertezas.

E ser assim é certo ou errado? Difícil afirmar sob um contexto de tanta liquidez. O fato é que assim é também ser brasileiro. E por favor, não vamos comparar com outros países e outras culturas porque, na prática, vale o jogo de nossa bolha.

Durante longos anos da minha vida e, consequentemente, das minhas relações afetivas, tive a fidelidade como um dos pilares em meus namoros. Até que um dia, humanamente, eu tombei. E foi exatamente isso: algumas horas, mas suficiente para que meu próprio senso moral definisse: “é traição”. Depois de anos de relacionamentos, no contexto nacional que busquei elucidar nas linhas de cima, é muito difícil (duro até) preservar um senso de fidelidade imbatível, ainda se existisse uma maré cultural a favor.

Meu gesto de horas, apesar dos pesares do senso moral e ético (aquele que eu carreguei comigo por esses anos), não me trouxe nenhum efeito de culpa. Curiosamente, tal gesto de traição me trouxe até mesmo um alívio, de um pesar por carregar nas costas um valor que a maioria não reconhece ou, de tirar um peso das minhas costas que, de fato, não garantiu necessariamente a durabilidade de minhas relações. A mim, a durabilidade das minhas relações era sempre um ideal.

Não estou dizendo que trair é legal, principalmente nesse contexto de tanta permissividade e falta de senso em comum. Mas estou afirmando que tive que viver algumas relações (mais de 12 anos somados) para entender que essa “falha”, única e exclusiva até o momento, que não necessariamente me levou a um vício comportamental (de repetição), foi necessária para que eu pegasse mais leve comigo, das cobranças sobre o outro e, principalmente, da cobrança de eu comigo mesmo. Antes, pensar que eu poderia ser traído era motivo para uma profunda aflição, me deixava em estado de alerta constante e me colocava em um tipo de papel na relação que ficou (altamente) incômodo ao longo dos anos. Fazia parte de exigências da minha “caixinha” quando o assunto era namoro. No momento em que assumi tal ato em meu currículo, outras prioridades vieram à tona, quando me deparo a um outro, potencial a ter algum envolvimento afetivo mais profundo.

Tais assuntos são conversados entre eu e o Rafa que, apesar de apenas 25 anos, já acumulou um punhado de relacionamentos e, sim, já foi traído e traiu.

Hoje, prefiro a lealdade (aquela que inclusive assume uma traição no sentido de cumplicidade pelo deslize) do que a fidelidade. Mas tal percepção é resultado de minhas vivências e da pessoa que sou.

A cultura de traição está estabelecida por aqui e, até agora, cada um tem feito com isso o que bem entende. Eu sei bem onde coloco esse assunto, hoje, em minha vida.

 

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