Deixa ficar assim, sereno

Ontem meu ex-namorado, o Japinha, esteve em casa para pegar alguns de seus pertences que havia deixado comigo antes dele viajar e outros que eu havia trazido, depois que o encontrei pela segunda vez nos EUA.

Para os olhares alheios, fica sempre aquela curiosidade do “impacto” do encontro. Não sei como o Japinha realmente ficou por dentro, mas por fora, estava sereno e eu, que não consigo disfarçar emoções, estava ligeiramente desconfortável, esperando ver um Japa ainda com algum resquício de inconformismo e revolta. De imediato, tal sensação se desfez.

Idealmente ele queria que a sua irmã viesse pegar os apetrechos. Mas, de tudo que ele esbravejou quando terminamos e eu compreendia a sua razão, me coloquei contra a envolver a irmã na história. Eu disse algo assim por e-mail naquela época:

– Acho que não tem pressa de você vir pegar suas coisas. Não está me atrapalhando e acho interessante deixar a poeira abaixar para que a gente resolva a situação entre nós dois apenas. Não acho bom ficar envolvendo terceiros, seja quem for, numa história que é nossa.

O Japinha concordou, dando a impressão de que esse dia poderia demorar anos! Mas assim se fez o encontro de ontem, uns dois meses depois do término. Logo que chegou, verificamos as coisas que tinha deixado comigo: bichos de pelúcia (muitos deles misturados aos meus), varinha do Harry Potter, controles do Wii. O presente do Sammy, que estava comigo desde o amigo secreto do ano passado e só. Saímos do quarto e logo fomos para a sala quando pudemos conversar um pouco.

Tempo imperou, orgulho do ego se desfez.

O encontro foi sereno e, a mim, as conversas vieram numa fluidez natural sem grandes desconfortos. Falamos das famílias, de trabalho e estudos. Pude olhar para ele de espírito desarmado, embora tenha me controlado um pouco para não elevar a conversa a um nível despojado demais, desapegado demais, como se o nosso namoro tivesse acabado há anos. Respeitei os limites que, ele, sutilmente sugeriu.

Embora o namoro com o Japinha tenha o status de “namoro de verdade”, daquele que considerei representativo e sério, a história toda trouxe, a mim, menos frustrações e sentimentalidades vinculados a um término. Meu “luto” foi breve e se tive algum sentimento negativo ao final para resolver, esteve mais relacionado à reação intempestiva e inusitada por parte dele, fugindo de alguns de nossos combinados do fim. Em outras palavras, da minha parte não tive tempo para criar apego e a sensação de que eu não estava mais namorando começava há 5 meses atrás.

A relação com ele foi serena e suave. Fazendo uma mentalização geral, como agora, não foi um começo no qual me senti (altamente) apaixonado, vulnerável e inseguro, transbordando aqueles medos da entrega e das expectativas de como o relacionamento poderia se desenrolar. Foi um começo fluido, quase que um encaixe de expectativas circunstanciais e sem “grandes fantasmas e passado” para exorcizar. Mas ao mesmo tempo, nos dois meses que estivemos juntos, antes dos 6 meses à distância, posso dizer que foi uma relação intensa, de se formalizar um namoro rapidamente, de viagens juntos para Santiago do Chile, passeios, almoços, sexo, encontros com amigos em comum e – fundamentalmente nos processos pelos quais os gays passam -, dele se assumindo para a família, do encontro pela primeira, segunda e terceira vez com seus pais (sendo dois desses momentos sem a presença do próprio Japinha que já estava fora), dos casos entre família, da normatividade.

Depois, minhas fugidas aos EUA para o seu encontro foram alguns aperitivos, mas não tiveram a representatividade do começo.

O final aconteceu há dois meses, se não me falham os cálculos. Mas ontem, os elementos simbólicos que mantinham nosso vínculo se desfizeram. Foi tranquilo, já com uma sensação de que a escolha foi acertada há bastante tempo.

Com ou sem apego, a vida tem que continuar. Na mesma intensidade que vivi dois meses com o Japinha, vivi outro dois tão intensos quanto depois do término. Precisava disso. A posição de castidade era um lugar que não tinha a ver comigo e me coloquei a prova para saber. As vezes, hoje, meu coração parece de novo vulnerável. As vezes parece quieto, falando assuntos que entoam amizades apenas. Em dois meses sai do eixo e voltei novamente a ele, numa prática de ir e vir aos meus polos e ao meu centro, trajetos já conhecidos por mim em outras passagens da minha própria vida. Quando a gente faz de novo e de novo a gente adquire uma coisa chamada “autonomia”. Autonomia nada mais é que entender um pouco mais de como a gente funciona.

As vezes me pego pensando: “já que me sinto novamente aberto, quero agora algo intenso, que me tire de mim”. Por vezes me pego pensando: “talvez o amor tranquilo, com sabor de fruta mordida, reconhecida, seja o melhor dos mundos”. Mas logo jogo esses pensamentos no lixo e me ponho a viver, sem pensar. Porque foi com o Japinha e, antes dele, com o Beto e, antes dele, com o Guto (…) e acima de tudo, por mim, que eu descobri que o melhor lugar é o aqui e o agora.

“Tudo é questão de ter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” – seja na sauna, de frente a um aplicativo, na rua, deitado na cama ou dentro da balada. Aprender a deixar que Deus faça a sua parte, foi uma consciência conquistada.

4 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Eu vivo praticamente a mesma situação.

    Eu aqui ele no Qata.

    Como já falei, as vezes me sinto viúvo de marido vivo, rs.

    Não sei o Futuro desde relacionamento, mas aprendi algo como minhas experiências, é preciso manter a seriedade, coração tranquilo e não criar expectativa.

    Deixar a vida seguir.

  2. Thiaggo disse:

    QUE AO ADENTRAR A SAUNA, QUE DEUS FAÇA SUA PARTE …

    (alguem devia emoldurar isso, é sério! “for god’s saying” hahahaha)

    1. minhavidagay disse:

      Não esqueça, Thiaggo, que Maria Madalena era puta. ;)

      1. Thiaggo disse:

        POSSO OUVIR UM ALELUIA!? GRITE BEM ALTO AMADO! … kkkKKK

        deve ser por isso que ela nao entrou pro grupo dos 12! ;)

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