Deixe o jovem ser o que quer ser

Mais de três anos de vivências trocadas no Blog MVG, projeto destinado para gays e, agora, uma atuação intensa no Facebook. Tudo isso gera algo especial: experiência, conhecimento rico sobre a diversidade do tema, que no âmbito profissional alguns chamariam de expertise.

Esses dias ouvi um baita elogio: “Você é empenhado com o MVG” e isso é muito bom de se ouvir depois de alguns anos de, sim, empenho e porque não dizer um pouco de talento? Devaneios pessoais…

O que é notável em relação aos gays que tem mais de 35 anos e aqueles que estão com apenas 21, um pouco para mais, um pouco para menos, é a influência dos temores sobre a sexualidade. Antes de entrar numa generalização, prefiro falar em tendência: jovens gays, hoje em dia, tendem a ser muito menos amedrontados a respeito da própria homossexualidade do que aqueles nascidos no começo dos anos 80. Quem diga então os que nasceram na década de 70? Curiosamente, os mais velhos como não tem filhos, projetam nos mais novos suas frustrações e medos, seguindo uma eterna caixinha, embora sem parentesco. Difícil a gente desapegar dos modelos, não é?

Modelos nos dão segurança. Mas e quando temos que reconstruir modelos porque o atual já não mais nos sustenta?

Parece que os tempos são outros. Foram os “antigos” gays que ajudaram a construir esse “chão” mais confortável e seguro para os novos durante as décadas e, na medida que essa movimentação geral – oferecendo uma luz ao gay tem aumentado ou se normatizado (prefiro a segunda) – outros segmentos ou nichos se ressentem e se colocam como injustiçados. Certo ou errado, bem ou mal, é assim que a sociedade – que é orgânica – tem feito nos últimos tempos. Para mim chega a ser lógico o aumento atual da violência contra os gays. É lógico porque certa rivalidade se colocou em evidência; temos visibilidade. Se está em evidência, a mídia sensacionalista vai divulgar para ter audiência e provocar a polêmica, que é sempre bom para se ter popularidade.

Mas será mesmo que da lua, só se vê a parte negra? Digo que não porque, assim como em Star Wars, quem se mune da luz, atua por outros caminhos. A referência parece tola, mas não é: é jovem.

O que se percebe hoje não é somente a rivalidade dos extremos, entre gays inconformados e homofóbicos. É uma rivalidade mais ampla, um fenômeno atual e social que atinge níveis institucionais, como ficou claro para a grande maioria das pessoas que frequenta as redes sociais: brigamos, discutimos e nos excluímos por política, talvez, pela primeira vez na história desse jovem país. Saímos em 2013 nas ruas, aprendemos a fazer passeata, rolezinhos, movimentos ecológicos. De insatisfações como seres humanos, se formos colocar no papel, temos e teremos aos montes para a nossa eternidade.

Lembro bem que, há dois anos atrás, um grupo de heterossexuais que acompanhava o Blog trouxe, decentemente, uma discussão, de que “o enaltecer ao gay não passaria de uma moda que duraria pouco tempo”. Já faz anos e parece que a tal “moda”, que obviamente não é (ou se é, colou), tem formado jovens mais seguros quanto a homossexualidade, o que não significa que estejam resolvidos. É bom lembrar.

A busca de resoluções na vida independe da idade e tem muito mais a ver com propósitos. Propósitos são diferentes de objetivos e explico com um exemplo:

“Quero namorar, formar um par”. Querer namorar é um objetivo e não um propósito.

Daí vem os propósitos: “Qual é o meu propósito em um namoro?”. Saberia responder com uma clareza ágil? Provavelmente não…

Quer namorar por estar carente?

Quer namorar para não se sentir sozinho?

Quer namorar para se fazer valer o sentido de companheirismo?

Quer namorar para construir uma família? Ter filhos? Uma casa com um quintal com cachorro?

Quer namorar mas, diante dos “tipos” de pessoas que se têm apresentado hoje em dia, tem medo da entrega?

Qual é o seu propósito para um namoro e para as mais diversas demandas da sua vida?

O que eu digo, em sã consciência pelos quase 38 anos vividos, pela experiência com o MVG sob todos os meios que carregam essa marca, dentre outras experiências, é que precisamos sim ter objetivos mas, mais fundamental ainda, é buscar pelos propósitos contidos neles. Namoro, por exemplo, não salva a vida de ninguém, sabia? E sabia também que o seu amor pelo outro não pode depender da reação do mesmo?

É importante termos propósitos e sair da rotina de nossos medos. Jovens gays talvez tenham menos receio por serem homossexuais, mas têm um punhado de outras, outras e outras inseguranças.

Quando falo isso, não estou apontando o dedo somente para o gay enrustido, “semi gay”, “macho que não se considera gay mas tem um puta tesão por homem” e etc. Falo também para os gays que já se autoaceitam como tal mas tem lá suas dificuldades. Todos temos.

Se a sociedade está mais tolerante e o chão hoje é mais confortável e seguro, que bom para todos aqueles que conseguem perceber assim. Gays “das antigas” ou de formação familiar mais conservadora talvez não consigam perceber essa faceta, existente pelo menos nas grandes capitais. Preferem acreditar na parte escura da lua e se fixam a todas as ideias “sombrias” que nela reside. Mas uma parcela de jovens gays entedem essas linhas: valores familiares não são mais empecilhos para exercer a homossexualidade. A escola também não é, nem amigos. São jovens mais independentes da instituição (familiar, religiosa, escolar, etc.) quando o assunto é a sexualidade.

Porém é importante se atentar para um ponto definitivo: o chão está aí, mais firme, para ser usado. É necessário caminhar e tomar uma direção e, fundamental, construir um rumo com objetivos recheados de propósitos.

Modas, tendências e a influência do grupo de amigos (principalmente) não ajudarão muita coisa, ou ajudarão por tempo limitado. Objetivos e propósitos nos dão autoria e, autoria, na soma do senso crítico (inteligência), da emoção e da intuição é o que é preciso.

Seja o que você quiser. Mas aprenda a construir o seu contexto, que é seu, particular e intransferível.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.