Depois da tempestade

Minha cachorra-velhota ontem, com 11 anos, se foi e, ao contrário do Nego e da Bali, o primeiro com câncer e a segunda com crises de convulsões terríveis, a minha preta – a última -, me pôs a definir por ela o dia de sua partida, já que suas doenças e senilidade não foram suficientes para fazer. Cachorra forte que possivelmente aguentaria até que a situação se tornasse limítrofe.

Ontem também foi o jantar de despedida da Naiara da minha empresa que, na verdade, foi a segunda e última representação de um modelo de negócio, idealizado por 14 anos. Sua saída foi a comprovação de que certa “caixinha” não tinha mais validade. Quem acompanha o Blog, sabe de meus esforços e atitudes para desconstruir esse meu ideal.

Curioso que tudo se estabeleceu na noite de “Blue Moon” que, a bem da verdade, poderia carregar o nome de lua triste. “Blue” para os gringos, também se traduz assim.

É incrível a sincronia que se confirmou na minha vida mais uma vez ou, pelo menos, incrível foi eu ter novamente a consciência dos fatos ao meu redor. No sábado passado, estive com um amigo gay, veterinário e dos cinco profissionais da área que estabeleceram cuidados para a minha velhota, ele era o único que achava que eu deveria sacrificá-la. Sem querer, no encontro, tocamos no assunto do tempo da minha preta e ele, muito jeitoso e sugestivo, reforçou sua ideia.

Eu que já há tempos vinha pensando em quando seria esse dia (já refletia há meses para falar a verdade) relutei diante do meu amigo, com meus argumentos. Mas por dentro, estava ciente de que tudo que ele falava muito gentilmente coincidia com parte das minhas vontades.

A semana entrou e de domingo para segunda, o Marco que trabalhou na minha empresa há anos atrás e voltou, sonhou com a minha velhota. Ficou calado até a virada de quarta para quinta, quando teve um outro sonho intenso e a caminho da minha empresa, resolveu compartilhar comigo. O Marco é um cara espiritualizado. Já trocamos dezenas de ideias sobre espiritualidade, conexões entre pessoas e assuntos que vão além do ofício, além terra e além mar. Tais sonhos traduziam a necessidade de conduzí-la.

Na mesma semana, notei a minha cachorra caidona de novo, ciente que os diversos tratamentos que estavam lhe garantindo uma sobrevida, tinham os efeitos positivos cada vez mais passageiros.

Então foi assim: meu amigo veterinário trazendo o assunto no sábado passado, o Marco tendo dois sonhos difíceis que o impulsionaram a compartilhar comigo e a minha percepção de que essa semana, para a minha velha, seria muito difícil. Mero acaso? Não, para mim não. Não existem coincidências desse tipo. Na mesma sexta de jantar de despedida da Naiara e de “welcome” para a nova equipe que se estabeleceu nos últimos dois meses, eu agendei a data de despedida da minha preta, pela manhã.

Pensei: teria o final de semana para poder viver as dores. E que dores. Já tinha avisado um tempo atrás a minha mãe e meu ex, o Beto – que aprendeu a gostar de cachorros com o convívio com a Pinna – que esse dia estaria chegando. Quinta depois do almoço, mamãe veio em casa para a despedida. Mandei um Whats para o Beto que compareceu de noite. Choramos juntos copiosamente, nos abraçamos e brinquei: “poxa vida, parece que estamos terminando pela segunda vez! (rs)”. Secamos uma garrafa de vinho, e entre risadas e choros, o Beto revelou percepções sobre a minha velhota que, naquele tempo em que éramos namorados, se manifestava como ciúme da mesma. Foi reconfortante para mim; definitivo para saber que trazê-lo a minha casa para a despedida era um compromisso muito além da mera formalidade.

A amizade que eu e Beto temos hoje é um pouco, um pouquinho só, de uma tentativa humana de manifestar o amor incondicional que a minha preta conferiu a mim e a ele. Quer aprendizado maior?

Na mesa, antes mesmo da quinta veterinária que tratou da minha queridona iniciar o procedimento, rápido e indolor, uma dor no meu peito que eu não sentia há anos, quiçá há décadas, invadiu. Debrucei sobre minha velhota ainda bastante consciente de tudo e me coloquei a chorar. Prantos e mais prantos sem controle. E para que controlar? Uma dor proporcional ao amor que tenho por essa cachorra. O Marco, ao meu lado, fez suas vezes de amigo leal e compartilhou suas lágrimas comigo. Não teria como ser diferente.

Ela se foi pela manhã e na sequência eu teria que almoçar as pressas, ir para uma reunião, falar de um novo projeto com uma das gestoras e me estabelecer firme para o jantar de despedida da Naiara. Poderia zerar tal agenda, mas pensei comigo: todos os compromissos de hoje serão importantes para se realizar. Apesar de uma sincronicidade dolorosa, é o final de um ciclo que se estabelece compassado.

No jantar, pessoas importantes que fizeram a minha empresa em outros tempos também vieram. Ao final da celebração, tudo que eu queria era voltar logo para casa para poder viver a ausência da minha velhota e despejar tudo aquilo que estava engolido seco desde a manhã.

Meu tempo é de 38 voltas nessa Terra e não está tão distante assim a 39o. volta. Nesse ínterim, já passei por inúmeras tempestades, como foi quando há 11 anos atrás assumi a minha empresa sozinho, meu ex-sócio foi embora do país, sai de casa para assumir aluguel com meu marido e meu pai ficou sem falar comigo por um ano. Tudo ao mesmo tempo e com apenas R$ 3.000,00 na conta.

O que eu aprendi é que por tempestades, passaremos algumas vezes na vida, das mais diferentes e particulares. São nessas fases que devemos tirar da profundidade da gente uma coragem, que nada mais é que a energia da própria vida. Algo que Deus nos dá, mas que as vezes não acreditamos que temos.

Há 11 anos atrás, quando passei por um dilúvio e achava que não daria conta das coisas que estavam acontecendo a minha volta, com apenas 25 anos, duas “sementinhas” pularam para o meu jardim por minha escolha, para completar o “pacote” de tantas responsabilidades. Uma delas era a minha velhota, que durante 11 anos me ensinou sobre a incondicionalidade do amor.

Há 11 anos atrás ela era apenas uma sementinha.

Obrigado, minha preta. Te amo para sempre.

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