Depois dos 33, todo esforço redobrado

Estética. Vire e mexe trago tal assunto por aqui, contradizendo um pouco a linha intelectual e “profunda” dos posts de um blog para o público gay, como é o MVG.

Há mais de um mês atrás havia marcado com a minha dermatologista. Mulher ocupada, ótima profissional e com fila de espera. Poderia me atender somente depois desse tempo, para me ajudar a resolver uma alergia que estava brotando em meus dois cotovelos. Resolvi deixar marcado.

Demorou tanto tempo que as alergias sumiram. Acabei tratando com hidratante, suspeitando que fosse algum tipo de problema com os apoios na academia. Afinal, são dezenas de pessoas transpirando e pressionando os cotovelos em máquinas específicas, mas sempre no mesmo lugar. Cheguei na Dra. Rosana, recepção abarrotada. Veio a minha vez e ela perguntou:

– E aí, Flávio, tudo bem? Em que posso te ajudar?

– Bom, Dra. Rosana… teoricamente era para eu vir tratar de alergias nos cotovelos, mas como a senhora pode ver, já passou (rs). Então a gente poderia fazer uma avaliação geral nas pintas, ver se está tudo ok e, de repente, a senhora poderia me explicar um pouco sobre o tal laser de CO2 que você havia comentado da última vez.

– Ok, Flávio. Primeiro vamos às pintas. Tira sua roupa toda e deita lá.

– Ah, Dra… vou ter que ficar peladinho para a senhora?

– Menino, você sabe que vai até a cueca! Deixa de graça… ahahah.

Exame feito, tudo ok com as pintas. Boto a roupa de volta e, durante a inspeção, resolvi fazer o tal do tratamento de CO2.

Sempre fui vaidoso e não sei se tal característica tenha a ver com o fato de ser gay. O que sei é que depois dos meus 33 anos – e aproveite quem ainda não passou dos 30 -, todos os esforços para manter o corpo e a cara em ordem se colocaram redobrados. Minha cabeça aos 38 anos mudou também e, depois do médico constatar “taxa de triglicérides alta” e indicar o uso de “um remedinho para sempre”, resolvi dar uma virada nos hábitos: cortei derivados de farinha branca, zerei minha conta com doces, embutidos, frituras e sucos em caixinha. Aproveitando o ensejo, doei a maioria das bebidas destiladas para um casal de amigos heterossexuais, passei a consumir prioritariamente vinho, comecei a seguir uma dieta acompanhada pela nutricionista e mantive o ritmo da musculação, hábito que levo comigo há bastante tempo, embora com algumas paradas.

Agora, já são cinco anos que entrei nessa rotina e o tal de “remedinho” para controlar os triglicerídeos se foi logo no segundo mês, depois de constatado. O vício que carrego, embora corra todos os dias e pratique tênis aos sábados, é o cigarro, esse “maldito delicioso que ocupa os espaços do meu tempo”. Mas com o tal “índice de VO2” de “jogador de futebol”, não lembro mais o que é ficar sem fôlego, nem excesso de pigarro, nem nada disso.

Dizem que a maioria dos gays que pratica musculação faz pela estética. Mas não foi só isso no meu caso, como relato aqui, pelo menos nesses últimos cinco anos. Incorporei na minha vida tal rotina saudável e confesso que entrar nesse esquema foi tão difícil e penoso como boa parte das pessoas manifesta. Tive que rever diversos hábitos, grade horária, deixar meu desejo por parmegiana para apenas uma ou duas vezes por mês e aprender a filar batata frita dos pratos dos outros. Nos finais de semana, com a benção do meu instrutor e da minha nutricionista, abro boas exceções, mas nada de derivados de farinha, açúcar e/ou fritura.

Mas tudo isso se deu por dois motivos: taxa de triglicerídeos alta e uma dificuldade enorme para manter a forma que, facilmente, adquiria até os meus 33 anos.

Nesse mesmo ínterim, as viagens internacionais que se iniciaram com meu ex, o Beto, me fizeram conhecer o departamento de produtos de beleza masculinos nas “Sephora’s da vida”, que nada tem a ver com a ostentação descarada aqui do Brasil. Estou com um belo estoque de hidratantes, esfoliantes e “eteceterizantes” masculinos que, a bem da verdade, realmente preservam a pele depois da frequência de uso. Passar tais produtos nas manhãs e antes de dormir também virou hábito.

Depois que eu entro num propósito, manter a disciplina nunca foi uma extrema dificuldade, principalmente porque ser dono de empresa sempre exigiu disso. Mas não posso negar que, para chegar aos 38 anos e me sentir (por dentro e por fora) com no máximo 30, precisei recorrer bastante a essa virtude. Dizem que os orientais são bons com disciplina. Acho que isso já é, de novo, um estereótipo.

Acontece que para muitos gays tal “ditadura da estética” é abominável. E talvez realmente seja, principalmente para aqueles que gostariam de ser “gostosos” mas se sentem com preguiça de dispor tamanha energia para resultados, ou se sentem avessos a entrar nessa função. A verdade é que coloquei a prova meus hábitos e hoje sei bem que a revisão da alimentação e a prática frequente de exercícios, mesmo sendo um fumante, definitivamente rejuvenesce. Não somente no que tange o estético mas uma efetiva disposição. Cremes e tratamentos são penduricalhos coadjuvantes, mas não deixam de compor realidades de uma certa metrossexualidade que se estabelece na sociedade. Bom citar que foi o feminismo um dos movimentos que exaltou a bandeira contra o “homem-ogro”. Cá estamos.

Daí fica a pergunta: quem disse que algo de intelectualidade não pode criar intersecções com vaidade e apreço estético? Seria realmente água e óleo ou uma ideia fruto da mesma conjuntura cultura na qual flutuamos e que, sem pensar, impregna na gente? Nesse universo tão circundado de estereótipos, quando o semblante do intelectual precisa ter algo de nerd, óculos fundo de garrafa e certo raquitismo e na outra ponta, a existência do bonito que se faz pela imagem, cuja inteligência é colocada em dúvida, acabamos pecando pelas mesmas definições de sempre.

O que penso é que, em tempos como hoje, os modelos talvez não precisem ser somente esses.

 

3 comentários Adicione o seu

  1. Thiaggo disse:

    hahahahaha
    claro foi por “causa” da alta taxa de triglicéridos sei … (claudia da lugar ai pro moço sentar kkkk)

    bom acho muito valido e necessário ter cuidados com a pele não fica só no sabonete/creme dental … mas virar robocop de academia nao rola!

    mas agora pensa, se o cara trabalha e ou estuda (no minimo 4 no maximo 12 horas por dia) passa um tempo enorme nos apps da vida marcando sexo e ainda vai TODOS os dias pro “treino” … tempo pra ler um livro é que esse cara nao tem !

    pra mim a relação musculos, inteligencia/interessante é inversamente proporcional.
    (ah claro o robocop sabe falar de whey e de “paradas” pré e pós “treino”)

    1. minhavidagay disse:

      Thiaggo! Não vamos deixar que a ditadura da estética seja a desculpa da ditadura dos nerds e vice-versa! Rs

  2. Ro fers disse:

    Passando por algo semelhante…. Com o passar dos anos nao podemos relaxar.

    Sou super a favor da vaidade e se necessário, plastica também.
    Nada melhor do estar bem consigo mesmo.
    Abraçs!

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