Dia dos Moderados

Sozinho ou acompanhado?

Está aí uma data emblemática – Dia dos Namorados – que reverbera anseios para uma maioria, seja gay ou heterossexual. Alguns de nós comemoramos a data em par, felizes por ter alguém ao nosso lado para dar sentido a mesma. Outros, ficam com dores e incômodos por passar mais um “Dia dos Namorados” sem ninguém. Imagino que existam aqueles que, por acreditar que um relacionamento é algo tão difícil hoje em dia, bloqueiam a ideia de tais celebrações e passam longe de uma comemoração como essa. E por fim, mas também existentes, são aqueles que mesmo em par estão se sentindo sozinhos.

Nossa cultura convencionou tais momentos simbólicos, tais quais “Dias dos Namorados”, “Natal”, “Ano Novo” e etc. De maneira emblemática, acreditamos em certas sensações nessas passagens.

Fora o querer individual, de se ter alguém ou não no próximo domingo, quando a pessoa não tem uma personalidade firme, eu sei que a sociedade cobra e o indivíduo se sente pressionado. O desprendimento dessas cobranças não ocorre quando conseguimos fazer o outro, irmãos, mãe ou pai, ou até mesmo amigos, pararem de cobrar, mas sim, quando internamente estamos de bem para lidar com tais assuntos. Bloquear da mente não me parece uma resolução. Nem sofrer pelo mesmo. Para falar a verdade, é o estar bem consigo, resolvido sobre os mais diversos temas que nos interessam, que transforma a maneira que enxergamos a pressão, ameaça e/ou cobrança que vem de fora. Por exemplo: existe uma vontade (interna) muito grande para se namorar. Quando chega um dia como esse, para namorados, surgem sentimentos negativos para aqueles que não estão em par. Pode vir uma irritação, uma tristeza/melancolia ou até mesmo um desdém, como se a comemoração dessa data fosse ridícula. Tais sentimentos surgem porque – de fato – existe o desejo (interno) de namorar e de celebrar tal data convencionada culturalmente. Quando efetivamente nos libertamos da convenção cultural, não existe a necessidade de se expressar sobre a mesma nem fingir que ela não existe. Estar sozinho neste período deixa de ser um incômodo. Estar acompanhado é um dia gostoso, que se pode fazer algo diferente, pode se presentear quando se quer, mas não deixa de ser apenas um dia. É leve.

Eu costumo dizer que “quem realmente procura, acha”. Estamos falando de um mundo hoje amplamente conectado. Existem sites de relacionamento para o público gay, grupos gays nas redes sociais e os aplicativos. Aquele indivíduo que – por um julgamento precipitado ou pela ansiedade para que as coisas aconteçam rapidamente – define que tais meios são só para putaria, automaticamente está se excluindo da possibilidade de encontrar alguém para namorar. Até mesmo o sexo casual, como marco zero de um encontro, pode virar alguma história. Como explicar uma estatística: por que todos os “amigos do MVG” super tendenciosos a formar par e que outrora se achavam “feios”, fora de certos “hábitos gays”, recém saídos do armário, desconectados das baladas e dos prazeres da noite, estão hoje namorando? Detalhe: todos os parceiros vieram pelos aplicativos!

Como, meus queridos leitores, ansiosos por um namorado? Alguém sabe me explicar?

Eu quase posso afirmar que os discursos: “nesses meios as pessoas só querem sacanagem”, “gays não querem nada sério”, “gays só curtem relacionamentos superficiais” são de autodefesa, quando não de autossabotagem.

O responsável de tudo isso, senhoras e senhores, se traduz numa pequenina palavra mas que é um tanto: o ego.

Ok, na maioria das vezes nascemos em contextos de rejeição, dificuldades entre a relação de pais e filhos, da autoaceitação por gostarmos do outro do mesmo sexo e etc. Somos gays e não se tem (ainda) a naturalidade de um filho ser gay ou hétero dentro de casa para uma orientação igualitária. Pais não criam os filhos para serem héteros ou gays ainda. Mas veja bem: até quando nosso contexto de dificuldades (seja qual for e todos nós temos) será a justificativa para nossos bloqueios? É necessário trabalhar e resolver tais pontos. Cada qual a sua maneira e eu sempre aconselho a terapia.

Nosso ego é astuto e, ao mesmo tempo, “burro”. Quando jovens, tendemos a desejar que as conexões aconteçam rapidamente, que o primeiro encontro se transforme no relacionamento para o resto das nossas vidas, que o outro nos aceite completamente e que se demonstre atento num piscar de olhos. Em outras palavras, quando jovens (e a mentalidade pode passar dos 50), tendemos a querer mimos e não necessariamente um namorado, companheiro e amigo. Quando mais velhos, com o acúmulo de calos, tendemos a ficar tão rigorosos e rígidos – mediante as certezas de nossas experiências – a ponto de nos desconectarmos de certas subjetividades.

Daí, caiu novamente na questão da polarização, quando vivemos como “vítimas” em detrimento as ações dos outros. Quando jovem, idealizamos romances perfeitos que, obviamente, não virão. Esperamos que a pessoa esteja 90% a nossa disposição e a desumanizamos. Se mandamos uma mensagem pelo WhatsApp e o outro demora para responder, entramos numa neurose: “eu o correspondo 100% do meu tempo. Por que ele não?” – daí cobramos e, não demora muito, conflitamos. A realidade nos faz perceber que o nosso ego não é fácil e as vezes custamos para aceitar. Quando adultos, corremos o risco de nos tornarmos descrentes, ou, pré-definimos que “as coisas funcionam de um jeito que se acredita e nada mais além disso”. É o ego, de novo, impondo barreiras e qualquer coisa diferente do que se pensa, leva a uma certa preguiça.

Oito ou oitenta. Azul ou vermelho.

De certo, acredito que o Dia dos Namorados são feitos para aqueles que são mais moderados, na prática. Para aqueles que entendem que a vida é feita para o lidar com família e administrar amigos, trabalho, estudos e, ocasionalmente, alguém gostoso para estar ao nosso lado. Para aqueles que não fazem do outro o eixo da própria vida, sufocando, controlando. Para aqueles que não tem o outro como um “saco de pancada” dos próprios impulsos de descontentamentos. Não vamos confundir o conceito de “ser romântico” com “ser controlador”. Muitos fazem e deixam perder oportunidades para prolongar relacionamentos. Muitas vezes não sabemos perdoar! O ego, ofendido, ferido, se coloca num papel de vítima e aí eu digo: fodeu. E fode por semanas, meses ou anos!

“Ah, mas isso acontece porque o gay sofre ‘x’, ‘y’ e ‘z'”. Bom, se essa é a condição que se justifica, resolva-se antes.

Feliz Dia dos Moderados! :)

7 comentários Adicione o seu

  1. Alghero disse:

    Olá, primeiramente queria registrar que descobri o site por meio da reportagem da BBC e fiquei (positivamente) muito surpreso com o conteúdo do site. Aliás, um introito necessário: basicamente sou um conservador, com algumas influências de ideias liberais, mas, nem por isso, defendo Jair Bolsonaro. Bem, verdade seja dita, ele não é por** nenhuma conservador, é um político oportunista que quer surfar na onda da rejeição ao petismo. É lógico que parte da “mudança” do seu discurso veio por causa da crescente impopularidade do PT e da presidente Dilma, já que as pessoas passaram a procurar novas referências de políticos que não tivessem um viés de esquerda e o nome de Bolsonaro sempre ganhou destaque na mídia, por se postar contundentemente averso ao petismo, adotando, em alguns momentos, posições polêmicas, ganhando, assim, notoriedade nacional. Todavia, essa “mudança” de discurso não passava de fachada, basta ver a dedicatória do seu voto ao Coronel Brilhante Ulstra na votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Enfim, como já li por aí, acho que tanto Wyllys quanto Bolsonaro precisam-se um do outro, ao se atacarem com tanta eloquência e virulência, para ganharem maior visibilidade e, consequentemente, mais votos. Claro que tudo isso acaba emburrecendo a discussão de ideias políticas, que ainda são pautadas no maniqueísmo da direita “dona Zelite bicho-papão” e esquerda “pró-povo e contra a opressão”. Hehe, feita a observação preliminar, vamos lá, quanto ao seu post, onde, em determinado momento, você diz que “quem procura, acha”, só posso lhe dizer o seguinte: dá o nome do local, porque tá difícil achar homem que queira sair da página 2, haha. Não importa onde eu corra, mesmo quando o pretendente se diz à procura de uma cara metade, alguns encontros depois já se mostra desinteressado. Às vezes noto isso que você mesmo aborda, o ego, as pessoas querem idealizar demais e vivem em constante insatisfação, por isso que acabam solteiras. O problema que deixam de vivenciar experiências que poderiam ser maravilhosas com outras pessoas. Então, por isso que para mim, torna-se irritante o dia dos namorados, por não ter com quem compartilhar o dia, na verdade isso até me deixa descrente se acharei alguém para namorar. Tem momentos que até acabo aceitando que vou ficar solteiro mesmo, isso que só tenho 29 anos, rsrs.

    1. minhavidagay disse:

      Bem-vindo, Alghero! Frutífera minha participação na entrevista.

      Você nunca namorou? Mora numa capital? Quais são suas maiores dificuldades nas tentativas de conhecer e estar com alguém?

      Seria legal você deixar sua referência e vamos falando!

      1. Alghero disse:

        Então, moro no interior do PR, numa cidade entre 300 a 350 mil habitantes. As dificuldades são muitas, desde homens que têm problemas em lidar com a homossexualidade; já outros idealizam demais o tipo de companheiro que querem que acabam descartando quando sentem que a pessoa não corresponde com a fantasia criada; ou (esta é a situação disparadamente mais frequente!) quando o cara monta todo um discurso para garantir o “fast foda”. Já namorei, sim, tanto homem, quanto mulher, mas já estou na pista há mais de ano, procurando um homem legal para compartilhar as alegrias e tristezas da vida, rs. Enfim, se você quiser, podemos trocar ideias sobre assuntos variados, aí só me mandar uma mensagem nesse e-mail que eu coloquei. Abraços e parabéns pelo blog!

  2. Ro Fers disse:

    Eu nunca fui encanado em arrumar alguém para comemorar esta data… De vez em quando pensava na possibilidade de ter alguém na vida, mas sem muitas esperanças…
    Hoje me sinto realizado, mas na maioria das vezes, muitos deixam de ter alguém por se limitarem e restringirem a ter alguém “perfeito”.

  3. Bruna Turistinha disse:

    É como diz aquele ditado “vamo devagarzinho tudinho gostosinho”

  4. André disse:

    Essa lance do ego é complicado mesmo. Vivo me policiando pra não cair (sempre) nessa mesma armadilha. Texto maravilhoso. Mas chega um momento que qualquer um vai ter que saber lidar com a solidão. Bem-vindo à essa experiência essencialmente humana. Não utilizar as emoções do outro como um modo de satisfazer seus próprios desejos (não realizados), é uma lição difícil, mas bem possível. Sinta-se feliz no dia dos namorados, por você mesmo, pelo que se é, estando ou não acompanhado.

  5. Róger disse:

    Olá Flávio!

    Ótimo texto e excelente reflexão acerca do “ego”, de fato é um dos principais pontos motivadores de insatisfações e frustrações pessoais.

    Contudo, acredito que o fato de as pessoas estarem cada vez mais “sozinhas” (uso aspas pois acredito que nunca estamos sozinhos visto que estamos sempre conosco), decorre de um atual contexto social.

    A sociedade mudou e com isso as pessoas mudaram, seus valores se transformaram e hoje percebo que é muito mais fácil lidar com a solidão do que com os entraves de uma relação.

    As facilidades pelo novo (e isso inclui a oferta de sexo pelos apps) facilita também a traição. Hoje manter uma relação monogâmica, diante da facilidade pelo encontro do novo, está cada vez mais difícil, tanto que estudiosos atestam que a tendência nas relações é o poliamor.

    É possível sim que as frustrações, insucesso nas relações e todas as vertentes de uma relação fadada ao fracasso esteja atrelada ao ego, contudo, acredito também que as transformações nos valores da sociedade sejam o estopim dos insucessos nas relações!

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