Dia dos Namorados

Open your mind to me, darling

Desde que assumi ser gay, com 23 anos e, agora, com 38 anos, talvez esse seja um terceiro “Dia dos Namorados” que eu estou solteiro, confirmando a “mandinga” da minha terapeuta de que tenho vocação para viver em par (rs). Gostaria de ter a tal da “inveja branca” ou até mesmo preta (rs) daqueles que se encontram em relacionamentos, mas acho normal eu vivenciar esse momento em carreira solo. No passado já dei importância, diversas vezes, a tal data especial e sofri pelos dias como esse que passei sem namorado. E realmente, para quem vive certo ineditismo e vivacidade de tal dia em par, encantado pela força inevitável da paixão (que faz inclusive essa data ser inédita todas as vezes), vale bastante a pena enfatizar esse momento, com todas as anestesias, cores e emoções. Claro que eu aprovo algo que já vivi e tenho expectativas de viver de novo!

“Just one year of love is better than a lifetime alone” – já citei tal frase de Freddie Mercury em outros posts, e sinto total pertinência para isso.

Porém, ao mesmo tempo, há um vulto da modernidade que diz: “as pessoas hoje em dia, sejam gays ou heterossexuais, não querem mais assumir compromissos e construir relacionamentos”. Pode até ser que existam grupos reservados a esse modelo, cujos integrantes sentem realmente um desprendimento para viver o ímpar. De fato, no meu círculo de amizades, eu diria que existem dois ou três amigos gays (ou conhecidos) que lidam bem com a carreira solo há bastante tempo. No mais, uma maioria, se não tem seus respectivos pares, estão numa contínua busca para tal formato. E é bom ressaltar que tal olhar, o meu, pode ser fruto da “mandinga” de que eu vejo paridade em tudo (rs).

Liguei de novo meus aplicativos e não sei se possuo um tipo de imã, mas daqueles do cardápio que me sinto estimulado a conversar, os papos acabam enveredando para algo afetivo. Olha que eu estou “pagando uma de gostoso”, com fotos de cara séria e de corpo a mostra e, mesmo assim, talvez tenha algo na minha cara que diz: “esse aí é para se ter o algo mais” (rs). Mudei inclusive meu texto do perfil para algo bastante casual, mas não tem funcionado (rs). Todo esse comportamento é interessante, o que reafirma a ideia que já apresentei aqui: os aplicativos podem ser de pegação, mas depende!

E depende mesmo.

Tanto depende como minhas andanças na sauna no passado distante e não tão longe assim. Posso dizer que, das pessoas que conheci, fiquei, transei e conversei, pelo menos três trouxeram um discurso “diferente”. Sabe aquela diferença dos assuntos, que levam para algo mais íntimo? É o que me lembro sem grandes esforços. Tem muita gente que sabe se humanizar, sabe relaxar, até mesmo dentro de um receptáculo de orgias gays, lançando para longe a fantasia única da promiscuidade e de máquinas de fazer sexo, sem nome. Quem pensa assim, na verdade tem um pouco de medo de ser somente assim. Posso afirmar que, se a gente entrar num lugar desses com essa rigidez mental, fatalmente, só sintonizaremos nisso. Quem entra numa “balada” como essas, desse jeito, entra com julgamento, entra com preconceito e vai enxergar somente aquilo que justifica a própria ideia. Deixamos de ver pessoas e, invariavelmente, enxergamos a putaria.

Não preciso ir tão fundo, nas profundidades “profanas” da sauna. Basta subir um pouco à superfície e falar das baladas gays. Mesma coisa: se o nosso olhar “moralista” (e acho que vale hoje um adjetivo menos direto, pelo menos nesse parágrafo) se fixar na pegação e nas contabilidades de beijos, acabamos achando que na balada não se rende nada, ou, não se rende a possibilidade do tal algo mais com alguém. Um exemplo real, eu tenho: fui casado por quase três anos com o Felipe, que conheci na Bubu Lounge.

E o que eu quero dizer com tudo isso no Dia dos Namorados?

É que muitas vezes, por medos (disfarçados em discursos moralistas e normativos, que nada mais são do que bloqueios) nos restringimos demais. Assumimos um discurso repetitivo e conhecido, lançando responsabilidades no tipo de meio ou na qualidade das pessoas que frequentam esse ou aquele lugar, como se – realmente -, fôssemos assim tão, mais tão, competentes para julgar. Ninguém é tudo isso de imbatível, senhoras. O pensamento é simples: como conhecer pessoas se permanecemos com um pé atrás, presos mentalmente a um ideal de pessoa?

Reflexão 1

Ok, a promiscuidade ainda hoje está presa a imagem do gay e, muitos de nós, conscientes disso, lutamos para nos tornar seres exemplares e aceitos num contexto aberto e social. Mas a questão a se pensar é: o quanto a repugnância a tal promiscuidade, que de olhar aberto pertence ao heterossexual também, vira um inimigo tão grande a ponto de justificarmos nosso estado, vitimados por um contexto gay “ingrato”? Até que ponto você não vira um inimigo de você mesmo?

Reflexão 2

Vamos resignificar uma outra ideia que, também, normalmente é justificativa por aqui: “não me acho bonito, não tenho assunto e me sinto sem graça”. O raciocínio é assim: se você é o pó da rabiola, tanto quanto diz que é (embora eu duvide com todas as forças) pensa: “quem vai se interessar?”.

Reflexão 3

Arriscar a conhecer alguém trás 50% de chance e 50% de uma bota. A história pode durar uma semana, um mês ou três e pode, sim, minguar. Se isso acontecer, é para a gente cair nas profundezas do amargor? Não deveria. Será que não está na hora do seu ego, que não pode se ferir, aprender que para se relacionar e construir alguma coisa vivemos de tentativas e erros e não somente de expectativas de uma solução imediata? Será que toda vez que começamos uma nova história, nossa mente precisa fazer comparações com o defunto? Pensem nisso.

Transcendam esses olhares de fora e de dentro, minhas amigas! Ou continuem por aí, desumanizando as pessoas numa eterna espera de um príncipe no cavalo branco imbatível e/ou daquela sensação adquirida de que todo gay é sacana (menos você)!

Ou tenham um bom argumento fundamentado, cuja desculpa não seja o jeito do MVG pensar, para para justificar “mais um Dia dos Namorados sem namorado”.

Feliz para aqueles que namoram, sem inveja. Feliz por aqueles que estão bem solteiros.

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Oi, MVG

    Mais um dia dos namorados que se passa, alguns namorando, outros, ficando, sempre assim…
    E todos de alguma forma lutando para não ser apenas máquinas do sexo ou apenas seres românticos; a paridade de que você fala, na verdade, é sempre disparidade, pois da mesma forma que conhecemos e lembramos das coisas pelos seus contrários, por exemplo, a recordação dos discursos “diferentes” dos caras da sauna, também em nossas emoções as coisas se dão desse jeito, sentimentos opostos que fazem esdrúxulos pares dentro da gente e lançam fora nosso jeito certinho de perceber o mundo, sempre assim…

    abs

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lebeadle, tudo bom?
      Deva vez eu não entendi seu comentário! Rs

      1. lebeadle disse:

        oi, MVG, desculpe pela demora mas é
        que estou me mudando e vc deve saber
        como são essas coisas.
        O que quis dizer é que não creio em “metade da laranja”,
        o que temos sempre é alguém que se nos completa de um lado
        nos confronta de outro

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