Dupla personalidade

Impressões finais sobre o caso na boate Pulse

Interessante perceber como a justiça nos EUA é agilizada. O tiroteio na balada Pulse foi na madrugada de sábado para domingo e o presidente Obama já se manifestou, alegando que, por mais que os Jihadistas extremos afirmem que a autoria contra gays naquela noite em Orlando fora deles, as investigações já definiram que o rapaz de 29 anos, na realidade, não era extremista e sim um indivíduo louco, desequilibrado.

Faz sentido. Já é sabido que mesmo como um seguidor da religião, não era fanático. Já é sabido também que ele frequentava a Pulse e que tinha um perfil do Grindr. Depoimentos de gays evidenciam essa realidade.

Ao mesmo tempo, o fulano era pai e tinha uma segunda esposa. A mulher sabia que ele tinha este plano e deve oferecer depoimento nos próximos dias. Um amigo em comum alegava que ele era gay e tais extratos de fatos vieram de uma leitura que fiz do El Pais enquanto almoçava com a minha mãe e debatíamos o assunto.

A tendência é que as conclusões não fujam muito disso. Cabe apenas definir se o rapaz vivia realmente este tipo de dupla realidade, o que me leva a crer que carregava uma profunda crise de identidade sexual. O fato, a mim, queridos leitores, é que independentemente de tudo, o menino era um louco.

É necessário cuidar nessas horas com os julgamentos extremos e seletivos. Basicamente, impensados e cheio de viés. Perfis de homens que tem namoradas ou esposas, mas curtem homens e que vivem uma “dupla realidade”, em diversos níveis, são bastante comuns. Seriam gays? A nomenclatura científica mais apropriada (definida pela medicina) é HSH – Homens que fazem Sexo com Homens. E acreditem: existem dezenas de variações. Mas o que é certo é que a maioria não é doente. Se fosse, o homossexualismo se justificaria.

São muito comuns nos aplicativos, como Grindr, Hornet, Scruff e derivados. Comuns também na sauna e tive certo privilégio de conversar com esses caras algumas poucas vezes, mas passei um tempo suficiente para trocar o “achismo”, pré-julgamento ou a fantasia pelo conhecimento. São pessoas comuns, distantes de impulsos doentios como apresentado no caso da Pulse. Claro que um caso radical, com 49 mortos e mais um tanto de feridos, nos impulsiona a taxações e inconformismos. Minha timeline mesmo está um porre pois, os mesmos colegas gays e ativistas (subentendam ativismo com extremismo), querem enfatizar de maneira até leviana, as vezes, o ponto de vista das vítimas. No caso, gays.

Homens que transam com outros homens mas levam uma vida heterossexual “a luz do dia” compactuam com uma evidente traição de suas mulheres? Não tenho dúvidas, mas isso é uma outra história.

O fato é que se as provas desse crime vão se evidenciando, distanciando o rapaz de um movimento religioso extremo – de homofobia conhecida – e vai o aproximando de um louco-doente com uma profunda crise de identidade sexual, os parâmetros devem ser outros. O resultado pode ser esse: “um homossexual matou inúmeros gays por ter uma doentia crise de identidade” e, para os parâmetros nacionais, pelo menos da leitura que fiz em dezenas de comentários nas redes sociais, queremos acreditar – até de maneira lunática – em nossa perseguição neste caso. Ela existe sim. Mas tudo indica que não dessa vez.

O vitimismo não pode ser maior que a sanidade.

Deixo aqui meu ponto de vista final sobre o caso. Nada como esperar os fatos virem à tona. Já vi neguinho ir a manifestações de um homicídio de um menino, que indicava que fora causado por crime de homofobia, mas que – de fato – foi comprovado como crime passional. Para o meu sentido de reputação, pelo menos, eu acho isso MUITO feio. Forçar a linha vítima a toda hora não dá.

Primeiro, cuido eu dos meus extremos antes de apontar meu dedo.

8 comentários Adicione o seu

  1. Jorge disse:

    Precisei de alguns dias entre ler este post e escrever sobre ele, isto porque este texto mexeu comigo.

    Fui um dos caras que escreveu lá na página do MVG no FACEBOOK e no perfil do Flávio (se é que estou incomodando o Flávio certo), perguntando se ele escreveria sobre o atentado. Naquele momento estava tocado pela violência, profundamente sensibilizado e totalmente identificado com as vítimas. Não que eu não esteja ainda solidário com as pessoas que foram mortas, mas é que agora eu me identifico também com uma 50ª vitima. Guardadas as diferenças eu também passei 46 anos de minha vida negando a minha sexualidade, me casei duas vezes, tive dois filhos e de certa forma, em algum ponto, rompi com a realidade: enlouqueci.
    Aí as diferenças culturais nos afastam, dizem que os americanos, quando enlouquecem, abrem as janelas e atiram nos outros. Nós fechamos as janelas e atiramos em nós mesmos. Foi o que fiz.

    Acho que já havia falado por alto sobre isso aqui no blog, na época até me arrependi de falar sobre algo tão pessoal. Talvez tenha exposto demais, mas agora não me incomodo, acho que isto dá a medida de quanto o blog tem sido importante para mim, o quanto me ajudou a me recuperar e retomar a minha vida em outras bases.

    Obrigado Flávio.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Jorge, bom dia!

      Fico feliz em saber que o MVG tem te ajudado. No meu ponto de vista, qualquer manifestação contra gays ou qualquer indivíduo deve ser pautada em fatos. Não sou advogado, nem trabalho com nada relacionado à justiça. Mas entendo que existe todo um movimento, quase uma osmose que faz assim: “mexeu com um gay é homofobia”. Isso pra mim é histeria e neurose, a mesma que atinge parte da população no plano político.

      Um abraço,
      Flávio

  2. Jorge disse:

    Concordo com você Flávio. Você foi muito sensato em não comentar o atentado movido pelo calor da emoção. Buscou mais informações e construiu uma opinião sólida. Admiro isso.

    Enviei uma solicitação de amizade no facebook mas não sei se foi para o Flávio certo, mas se foi ficarei muito feliz se aceitá-la. Pelo link do meu site e fácil encontrar os meus perfis. Te garanto que não sou um stalker, só quero construir uma base de conhecidos e amigos com os quais tenha afinidades.

    Tenho uma vida nova para construir, vou precisar de ajuda.
    Abraço.

    1. minhavidagay disse:

      Querido Jorge, tudo bem?

      Entendo sua situação, mas por escolha, não estou trazendo pessoas vindas do Blog para minha vida pessoal, por hora.

      Entendo teu contexto, como já li e me envolvi por aqui no MVG. São muitos que passam por situações semelhantes como o seu.

      Posso contribuir com essa construção de nova vida por aqui e pelo e-mail queroumtoque@gmail.com. Desculpe certa frieza diante seu pedido, porém trata-se de um posicionamento.

      Tenho pensado bastante em como contribuir com os leitores, de contexto de vida semelhante ao seu, de uma maneira mais eficiente e próxima. E que, ao mesmo tempo, não me exponha de um jeito errado ou muito pessoal.

      Tenho formado algumas ideias que em curto/médio prazo devo colocar em prática.

      Ok? Desculpe novamente certa frieza diante seu pedido. É minha opção atual.

      Abraço,

      Flávio

      1. Jorge disse:

        Eu entendo Flávio, e não levo a mal, nem precisa se desculpar. Vou usar o e-mail, com certeza. Apesar de já haver exposto coisas muito pessoais aqui, há outras histórias que receio em contar publicamente, seja para não me expor ou expor pessoas próximas a mim ou mesmo a minha família. Mas novamente agradeço pela atenção que recebi e pelo blog. Têm sido vitais para mim.

      2. minhavidagay disse:

        Ótimo, Jorge! Me escreva sim e me avise por aqui, por favor. Recebo muitos e-mails e não dou conta de todos.

        Vamos falando. Obrigado!

      3. Jorge disse:

        Flávio, escrevi-te.
        Peço-lhe que tenha paciência de ler a minha novela.
        Prometo que não abusarei do privilégio.

      4. minhavidagay disse:

        Hehehe lerei com calma! Fique tranquilo. Te respondo o mais breve possível.

        Abraço!

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