Eduardo Cunha acelera projeto contra casamento gay

Ontem mesmo conversava com a minha mãe sobre a posição do novo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, de tratar “legalização do aborto e casamento gay como temas fora da pauta”.

Como cidadão (o que inclui a minha homossexualidade em contexto social), noto que o Brasil, no atual momento, precisa focar-se em questões mais estruturais: focar esforços na economia, no problema da inflação e do aumento do dólar, revalorizar imagem para fora do país, conter os focos de corrupção, olhar para questões de educação, saúde, energia e abastecimento de água.

Estamos num processo de regressão e recessão, algo que não é mais mera especulação. A atenção voltada para questões macroestruturais voltou com força extrema, algo que era bastante comum nos anos 80.

Em reflexões silenciosas, abriria mão de importâncias mais específicas como a união entre homossexuais, mesmo sendo gay. O bom senso é este: se os problemas atuais podem abalar empregos, acesso básico aos bens de consumo, saúde e instrução, coloco as questões específicas as quais me interessam para um segundo momento.

Ontem mesmo escrevi um post que, em geral, abordou o tema: “a liberdade e a necessidade atual para a construção de núcleos familiares para além da mulher e do homem casadinhos pela aliança”. Existe uma força natural e social que está nos impulsionando para novos modelos de relacionamento, que saiam do tradicional altar. Ele próprio, o Papa Francisco, assumiu em uma de suas declarações atuais, que o homem e a mulher precisam rever seus modelos. É um movimento global e orgânico.

Daí que hoje, deu essa notícia no Estadão: os deputados querem acelerar um projeto que reconhece apenas os núcleos sociais (familiares) formados da união de um homem e de uma mulher.

Antes que fiquemos alvoroçados com tal postura, que novamente exclui os gays de um contexto de direitos, entendo que exista um viés muito maior por trás dessa agitação: o puro embate político.

É notório que Eduardo Cunha representa agora a grande oposição no palácio. Apesar de evangélico, está evidente a necessidade de reduzir o poder do PT e abalar a imagem da presidente, num jogo que para os mais atentos, é travado apenas por lobos. Na altura do campeonato, tratar a Dilma como “coelhinha” por questões feministas ou pelas paixonites partidárias, chega a ser o ápice da ignorância.

O cenário, envolto de questões que nos confundem e nos colocam uns contra os outros (no caso, o “povo gay” contra “povo hétero da direita”) é esse: é como se no Brasil existissem duas dimensões distintas e afastadas: por um lado, a real e social, de um fluxo mundial que clama por releituras e recriações de convenções, instituições e modelos, na qual todos nós pertencemos. Do outro lado, bem distante da gente, a dimensão dos políticos brasileiros, preocupados prioritariamente com o embate entre si, cujos valores são, em especial, os partidários.

Não, meus queridos, nem um lado nem o outro está realmente preocupado com uma evolução no país, muito menos com questões “menores” como os direitos de união entre homossexuais. Políticos, no “palácio federal”, estão atentos à jogatina entre eles. Eis a prioridade seja lá qual for o projeto.

7 comentários Adicione o seu

  1. Xcrotinho disse:

    Questões menores… Há algum tempo vinha me incomodando com o teor de algumas questões levantadas por esse blog. Dessa vez vou parar de seguir. Até quando MVG vai ficar querendo imprimir uma neutralidade de posicionamento para os gays? Acho melhor mudar o nome do site para Minha Vida no Armário porque achar que o ato de políticos votarem CONTRA qualquer tipo de direito para gays mera jogatina é demais para mim…

    1. minhavidagay disse:

      É duro pensar que os políticos estão articulando apenas para suas meras jogatinas, não é?

      Inclusive, no trato de temas como união entre pessoas do mesmo sexo que tanto nos interessa.

      Sinto muito, Xcrotinho. Sou apenas o bode expiatório de sua indignação. Essa sua energia deve ser direcionada a outras pessoas.

      Aliás, para os governantes, quanto mais a sociedade civil entrar em divergências como essas, expressadas por você, melhor fica para eles: tira a atenção do foco do problema que é o desinteresse dos políticos em resolver as questões do Brasil, a corrupção, a política avessa que impera em nosso país.

      Assim como o seu ego se fere ao ler um gay abordar um tema dessa maneira, aparentemente tratando nossos assuntos como “algo menor”, os líderes nos palácios estão priorizando os interesses partidários que, no final, não trará engrandecimento nenhum para a população.

      Esse é o país que você vive.

  2. A questão é: “somos apenas gays?” Não, absolutamente! Somos seres humanos, brasileiros, trabalhadores, pagadores de impostos, e roubados desde que Cabral pisou os pés nessa terra. A questão gay é importante? Óbvio. Mas ela não será atendida até que esses problemas estruturais que assolam nosso país sejam resolvidos. E eles só serão resolvidos se a sociedade tomar consciência do poder que tem unida. Porque quando um ladrão se instala em Brasília ficam ruim para todos, héteros e homo. Quando um político se vale de dinheiro público para financiar sua campanha, ela engana a todos, héteros e homo. Quando a jogatina de Brasília toma a agenda de questões importantes para o país, todos sofrem, héteros e homo. Não, o Brasil não é uma Suécia da vida, mas poderíamos ter mais decência e enxergar a coletividade, héteros e homos, pois pelo andar da carruagem todos sofreremos as consequências desse jeito asqueroso de se fazer política que se instalou em nosso país, héteros e homos.
    Acho que aqueles que se ocupam da tal “agenda gay” (se é que se ocupam mesmo?) deveriam envidar esforços para unir o país e não para dividir ainda mais.

    1. minhavidagay disse:

      Faço das suas palavras as minhas! :)

  3. Adônis disse:

    Exato, o Cunha quer o apoio total da bancada evangélica, independente de que partido o integrante dela for, para ter força contra o PT que andou, via Kassab, tirando muitos parlamentares do PMDB, que migraram para o PSD e migrarao para o PL, quando o mesmo for criado. Se a Dilma sofrer um impeachment aí para o PMDB é melhor ainda, que concorreria em nova eleição ( o Temer não assumiria pq o mandato não completou 2 anos). É do Eduardo Cunha também o projeto que cria o dia do orgulho hétero rsrs.

    Mas também o Brasil não está focado na resolução de seus problemas, o Congresso é inútil, o executivo imoral e inepto, e o judiciário cada dia mais alinhado com o que há de mais podre nesse país. Não espero grande coisa para nossa portentosa nação, na verdade, 2015 parece ser o marco inaugural de uma nova década perdida. Vide a Petrobrás meu Deus do céu , uma decisão judicial já até determinou a hipoteca do prédio sede da empresa. É por essas e outras que realmente não importa o que aquela gente vota, ou deixa de votar.

    1. minhavidagay disse:

      Mais uma vez, faço das minhas palavras a suas. Não sejamos bobos em achar que políticos farão alguma coisa por nós, quem ele seja. Estamos sozinhos até a nação tomar uma consciência do poder que tem sobre esse grupelho de corruptos que vivem nos palácios.

  4. Jorge disse:

    Sinceramente, as vezes eu tenho muito medo de projetos como esses, por que me parece que cada vez mais essa bancada tende a aumentar, em 2013 o projeto da cura gay foi rejeitado e Feliciano garantiu que voltaria esse ano com uma bancada maior e faria acontecer e eu não duvído que ele consiga, é só notar o espaço que eles conquistaram, Feliciano ta nos direitos humanos, a bancada de fato vem crescendo, uma novela mal estreia e já tem um índice considerável de rejeição por causa de um beijo entre duas senhorinhas, sabe, eles falam tanto de ditadura gay, mas as vezes parece mais uma ditadura evangélica, rs. Você acha que projetos como esse possam mesmo acontecer?

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