Efeito do julgamento

Você é refém do julgamento?

As pessoas mais críticas, normalmente, são as que mais se apropriam dessa característica humana, do ato de julgar. Mas ao mesmo tempo, são elas – quando autocríticas – as potencialmente mais capazes de entender os efeitos negativos do julgamento e, em exercício consciente, reduzir o ato de julgar.

O pior do julgamento é quando elaboramos ideias que, em alguma medida, farão nos sentir superiores ou diferenciados em relação a outra pessoa ou outro grupo. Gays, por exemplo, são alvos nítidos desse tipo de julgamento. Como parte das minorias, homossexuais são julgados de diversas maneiras, desde as tradicionais piadas de “viado” até o comportamento homofóbico que transborda do ato.

Pelo fato do gay fazer parte das minorias, há isenção do julgamento?

“Sem querer”, entramos neste processo muitas vezes. O julgamento é íntrinseco ao ser humano e – muitas vezes – relacionamentos (seja de amizade ou algo mais) se estabelecem por meio de diálogos despreocupados, forrados de julgamentos. Desde um simples comentário sobre algum amigo em comum, de uma atitude, da postura partidária do outro e etc.

Sim, muitas vezes, nos relacionamos julgando para justamente autoafirmar nosso pertencimento.

O pior do julgamento é quando nos tornamos reféns do mesmo. Numa suposição as vezes neurótica (ou encanada, na maneira popular de falar), julgamos porque somos julgados. Culturalmente, estabelecemos esse tipo de relação e – despercebidos – nos relacionamos de tal forma. Gays não se isentam dessa “ferramenta” e, as vezes, são mais julgadores do que os próprios heterossexuais.

Talvez, confundamos inteligência com senso crítico. Quando a crítica envolve nosso entorno e não classifica ninguém, materializa a inteligência ou a sabedoria. Quando coloca o indivíduo abaixo ou acima de outro indivíduo, quando rotula ou determina para fins de superioridade ou inferioridade e não propriamente para fins de constatação ou crescimento, aí é o efeito do julgamento.

E quando nosso autojulgamento nos coloca lá em baixo? Fazemos isso muitas vezes sem perceber.

O grande problema do julgamento é que ele é uma armadilha invisível e difícil de desarmar. As pessoas que mais julgam são aquelas que, fatalmente, se sentem mais julgadas. É uma prisão: quanto mais nos incomodamos ou reagimos por causa dos julgamentos alheios, acabamos por funcionar em função do que elas pensam. Entramos num processo de “neura”. É como se, no fundo, a gente acreditasse nas palavras do julgador e, como proteção, a resposta viesse com a mesma intensidade do julgamento. Quando uma outra pessoa ou um grupo julga igual, aí vivemos o sentido de pertencimento: “ah, existem pessoas que pensam como eu! Não estou sozinho! Sozinho, ou estúpido ou ignorante é o outro que pensa diferente de mim!”.

E veja só que curioso, de novo: tem pessoas que se relacionam basicamente sobre o pilar do julgamento. É aquela coisa “olho por olho, dente por dente”: fulano fala de mim. Eu vou ficar quieto?!

As vezes sim. O silêncio ou a capacidade de se desvincular do julgamento talvez seja a postura mais sábia. Sábia, para dar abertura para outras formas de se relacionar.

O ser humano é forrado dessas complexidades. Não queremos ser julgados mas fazemos. Quando achamos que não fazemos, o julgamento do outro – por vezes – nos fere de um jeito que, se for ver, não precisaria doer tanto. Curiosamente, nos sentimos fortalecidos quando convivemos com pessoas que possuem o mesmo senso de julgamento e que, provavelmente, apontará para outro grupo que fará o mesmo, que fará para outro e para outro e assim sucessivamente.

Apontamos tanto ao outro para formata-lo, defini-lo e determina-lo numa tentativa de expressar o sentido de razão, de compartilhar dessa razão para se ter mais razão ainda e tudo isso dá muito prazer. Dá um sentido de segurança: “ah, que bom, estava certo”.

“Que bom, no final, que sou compreendido”. Que mau que – as vezes – você precise tanto da aceitação do outro e que para isso deprecie um terceiro…

Julgamento é o combústivel para alimentar nossas razões mais mesquinhas.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

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