Efeito do tempo

Acho que é a primeira vez que coloco a premiação do Oscar como um referencial na escolha do filme para assistir. Nos últimos anos, tenho me rendido aos fabulosos efeitos especiais dos blockbusters, naquele sentido assumidamente medíocre de delirar com algo sem ter que pensar muito. Desconheço o súbito que me fez fazer dessa vez assim e estou gostando.

Hoje assisti dois “cabeções”, com um intervalo de três horas.

Já filosofei sobre um primeiro no texto “A cor do mundo”, que vi na semana passada na companhia da minha mãe, e gostei do formato de trazer reflexões ao Blog sem denunciar o filme dizendo o nome. O “efeito spoiler”, se é que posso me referir assim, só funcionará para aquele que fizer as mesmas associações enquanto estiver assistindo. Quem tem visto os filmes que concorrem como “o melhor” no Oscar terá o prazer (ou desprazer) de adivinhar a qual me refiro.

Seja uma produção de terror, drama, comédia ou aventura, o romance entre as personagens principais tende a ser um dos clichês mais usados e, talvez, aquele que não se desgasta e que sempre dará um tempero às narrativas. No primeiro de hoje, lembrei muito dos meus pais e das reflexões do post “Anteontem, ontem e hoje”, que saiu do forno essa semana. A história é narrada há décadas atrás, quando o amor e o envolvimento afetivo tinham motivos de outros tempos para durar.

No passado, a entrega para longos relacionamentos fazia mais sentido e os valores das pessoas justificavam, inclusive, esse sentido. Os valores construídos pelo tipo de educação e cultura, em contextos de espaço e tempo diferentes, geravam efeitos diferentes. Antigamente, era mais comum as pessoas não só se envolverem pela atração física (que é, foi e talvez sempre será o primeiro elemento de aproximação dos romances). Antigamente, parecia que a intelectualidade de um indivíduo era fonte de desejo para uma boa parte das pessoas, influenciando, inclusive, na atração sexual. Mas por que esse jeito de se envolver acabou ou, pelo menos, escasseou?

Reafirmo a questão sobre o amor, tema tão filosoficamente explorado no MVG: amor e determinados valores caminham juntos. Valores, muitas vezes, apontam para o sentido de persistência. Valores, quase que invariavelmente, dependem de intelectualidade. E por fim, a intelectualidade, só germina e cresce com a direta influência da educação e cultura. Talvez até de espiritualidade…

Quem tem 72 anos hoje, e construiu (ou ainda constrói) uma longa história com a mesma mulher ou com o mesmo homem, desde a juventude, nasceu praticamente numa dimensão, de outro tempo, muito diferente da que vivemos hoje.

Parece que antigamente, nos anos 50 e 60, resiliência e amor tinham a naturalidade de caminharem juntas para a maioria das pessoas. Onde foi que isso se perdeu no tempo e mais, por que se perdeu se parecia enobrecer tanto os próprios relacionamentos humanos?

Resiliência hoje parece ser de plena singuralidade com o trabalho, com o meu emprego, meu estudo, minhas viagens, meus amigos e meus planos. É a minha felicidade. Mas para onde tem caminhado o nosso?

Tenho que assumir que as facilidades do ter, do bem capital cada vez mais como propósito final das coisas, muito mais avassalador que ontem, criou uma atmosfera confortável de uma falsa sensação de independência e uma falsa sensação de individualidade. Falsa sensação porque hoje precisamos nos fragmentar para as pessoas a fim de preencher nossos medos. Sejam, essas pessoas, os amigos, ficantes, amigos-ficantes… é assim que parecemos conseguir preencher o vazio e o medo das improváveis 12 horas sozinhos dentro de casa, em silêncio, num final de semana.

Mas o fato é que, talvez, o amor sempre exigiu e sempre exigirá coragem. Coragem, esta, que nos falta muito nos tempos de hoje.

A outra parte é que, nos desprender do caixote agressivo que nos torna verdadeiros produtos, cuja maior vitrine hoje é a rede social, talvez não seja uma habilidade ou uma autonomia para todos.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.