Encontros e despedidas

“A gente pode até substituir pessoas, mas não sentimentos” – criei essa frase logo depois que terminei com o Beto, quando demorou semanas e ele logo “amarrou o burro” com outro menino, um caso complicado e turbulento que, rapidamente, teria o mesmo fim abrupto e traumático, pelo menos em vista de minhas previsões, percebendo a situação como espectador, com certa experiência, já bastante desprovido de rancores, culpas ou possíveis arrependimentos pelo término. Estávamos jantando quando ele me contou o caso e, ao contrário de um ex-namorado melindrado, com sentimentos ainda mal resolvidos, fui seu amigo e ofereci apenas conselhos.

Depois de quase quatro anos de namoro com o Beto, parti por 10 meses em situações de carreira solo. Conheci o Japinha, pelo Blog, e aproximadamente um ano depois estaríamos terminando. “A gente pode até substituir pessoas, mas não sentimentos”, e essa máxima pessoal se estabeleceu novamente com esse término.

Hoje, 08 de Maio de 2015, ele deve estar no solo brasileiro novamente. Idealmente enquanto namorados, seria eu a pessoa para pegá-lo no aeroporto de Guarulhos, fato que não aconteceu porque terminamos. Mas não há melancolia.

Saldo após um mês: sem arrependimentos pela escolha. Provavelmente bastante diferente do que ele tinha como expectativa. Mas se carrego um sentimento de culpa pelo fato do meu lado ter esfriado? Poderia, se fosse inexperiente, jovem ainda, apegado e imaturo. Já nem sou mais tão devoto da “mexicanidade” conhecida em nossa cultura (pelo simples fruto de vivências em meus próprios relacionamentos), latinidade essa que teima em confundir o “ser lúcido” com “ser gelado”. Mas enfim, não estou aqui para rever a roda ou querer ter a audácia de transformar os pilares da nossa cultura brasileira, quando o assunto é relacionamento afetivo. O povo brasileiro tem orgulho do excesso de calor, assim como, possivelmente, o British se orgulha do excesso de frio.

E por falar em British, conheci um deles ontem. Existem apenas duas famílias inglesas no Brasil, até onde o Lean sabe da história. Gay, nascido em São Paulo, de mãe inglesa e de pai espanhol, me proporcionou um encontro muito importante para o momento da minha vida, só me fazendo acreditar mais que Deus sempre dá aquela forcinha (subentendida) para ajudar a traduzir nossas próprias questões. À toa, a gente só acha que está, as vezes. Sem fé a gente caminha só metade.

Aos 27 anos tournou-se um cara altamente intelectualizado, de uma natural postura de lorde, nas roupas, no físico, no sotaque e em suas expressões. 1,90m. Genética herdada da mãe, anglo-saxã, de uma natureza histórica bem diferente do que conhecemos entre os brasileiros. Alguém aí conhece um brasileiro descendente direto de um inglês? Pois é…

O pai, curiosamente, veio de uma das bases da formação cultural no Brasil: espanhol puro. Assim, fez-se Lean e seus irmãos, uma “mãe de gelo” de um lado, descendente de vikings, celtas e povos nórdicos e um “pai de fogo” do outro, descendente daquilo que a gente bem conhece e respira todos os dias.

Pela natureza da relação com o pai e pela natureza do próprio Lean, negou qualquer característica, hábito, postura ou costume do pai espanhol: machista, abrupto, impetuoso, acalorado. Boa parte dos comportamentos das pessoas que lembram seu pai, o Lean prefere manter distância. Já tudo que sinaliza características da sua mãe, o rapaz pegou para si. É um lorde inglês brasileiro. Foi algo chocante e novo pra mim a energia emanada pelo menino. A sensação que tive era que ele saia de um dos episódios de Harry Potter (que tantos brasileiros amam, mas poucos, efetivamente, se prestariam para ser). Lembrava um pouco do Robert Pattinson como vampiro. “Friamente interessante” e todo calor estava concentrado em seu olhar. Fiquei, curiosamente, com medo (rs).

Foram nessas combinações íntimas e intransferíveis, na relação com pai e mãe, que ele naturalmente se afeiçoou por orientais. É daqueles que só teve relacionamentos com os “olhinhos puxados” e que, pela primeira vez de novo (pra mim), foi capaz de dar descrições detalhadas das diferenças entre japoneses, chineses e coreanos. Mais um ponto para eu ficar impressionado.

Disse que os japoneses são os ingleses orientais, na pontualidade, na conduta introspectiva e em certa praticidade. Pelo menos é a maneira que ele entende e mal sabia o rapaz que estava a frente de um bastante diferente do estereótipo, ou daquele que vira e mexe revê sua própria “caixinha” confortável.

Da arte do encontro com o Lean me percebi novamente num espelho. Pela primeira vez pude me deparar com um jovem de 27 anos, cuja história genealógica e adquirida com as próprias vivências, me fizeram entender a precisa racionalidade manifestada numa pessoa. Budista, vegetariano e lorde. Excitante, mas lacrado, me parecendo que a única passagem de calor possível era através de seus olhos. Dizem que Steve Jobs tinha um olhar penetrante. Pela primeira vez, com consciência, entendi um pouco mais do que é isso. E não é fraco não…

Lean se impressionou quando eu disse que meu último namorado tinha sido um japonês. Bem ou mal, está convencionado que orientais gays não curtem ficar com orientais gays e eis um modelo mais fixo nas referências do Lean, referências estas que fazem certo sentido até a página três e que eu, em vida, fiz questão de superar.

Ainda tenho assimilado (ou elaborado, como se diria em processos de terapia) os sentimentos novos e “estranhos” que Lean me causaram. Mas uma coisa eu posso dizer com lucidez: tenho clareza que muito do calor latino, dos excessos, das traições reais ou condicionadas inerentes aos mais diversos relacionamentos, do apego à família, das explosões emocionais, são “áreas” conhecidas das quais me basto por enquanto. Porém, pela energia trocada com o rapaz, pude em horas sentado a uma mesa, sentir o extremo oposto “nórdico”, “celta” e “solitário”, legitimamente introspectivo e “profundo para dentro”. Principalmente em se tratando de um autêntico lorde inglês do signo de peixes com ascendente em escorpião. Tive medo desse desconhecido.

Os extremos, novamente a mim, parecem regiões pouco habitáveis embora nelas, as vezes, estejam as paixões aterradoras que tantos buscam.

Muito boa sorte a quem procura!

 

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