Ensaio sobre o ciúme

Das nuances nos relacionamentos gays

Dizem que o homem – no geral – lida de maneira diferente com o sentimento do ciúme em relação a mulher. Dizem que o homem tende a reprimir tal sentimento, exteriorizando de outras formas aleatórias, as vezes maquiadas, ou as vezes contendo e sugerindo uma indiferença ou um controle sobre o mesmo. Dizem que a mulher, em situações de ciúme, exterioriza com mais clareza e facilidade, as vezes até em excesso, deixando óbvio que o que há é ciúme.

O sentimento de ciúme é humano, é natural e está contido em qualquer indivíduo. Por mais que uma pessoa, principalmente o homem, autoafirme muitas vezes – em uma relação entre dois gays – que não sente ciúme, tal sentimento, também, dá qualidade a humanidade. O problema são sempre os excessos.

Em alguma medida, dizer para o outro que não sente o ciúme é, sem querer, provocar o ciúme no outro. E se provoca, consciente e inconscientemente, de outras maneiras também. Talvez, algumas pessoas sejam programadas desde pequenas a serem objetos de ciúme para, justamente se sentirem queridos. Aprendem assim e, agem naturalmente assim ainda adultos, provocando ciúme sem se dar conta.

Parece que há uma convenção cultural que associa tal sentimento a fraqueza, a algum tipo de desvantagem. A norma diz: as pessoas ciumentas são inseguras. E, provavelmente, as pessoas ciumentas sejam realmente inseguras, o que é diferente de – em determinados e específicos momentos – vivenciar o ciúme. Viver constantemente do sentimento é insegurança. Ter momentos de ciúme pode ser demonstração de interesse, de afeto e, muitas vezes, cultivar um pouco da sensação de que existe um pertencimento é saudável, mesmo que – na real – a ideia seja fantasiosa. A questão é a forma: como se age ou deixa de agir por causa do ciúme?

O sentimento as vezes explode. As fantasias criadas nos levam a tomar atitudes “loucas”, colocando em conteste ou teste o quanto o outro gosta realmente da gente. Exemplos há aos montes. Mas o sentimento as vezes implode e, nestes casos, parece que está tudo bem, mas o ciumento está se martirizando por dentro. Talvez sejam o orgulho e o medo de expor essa “fragilidade” as muralhas que não deixam vazar. O indivíduo surta e termina sem mais nem menos, ou faz alguma besteira, busca se afastar ou se excede em outro aspecto sem se dar conta que, aquilo, na real, é ciúme. As fantasias e falsas intuições venceram por um jeito ou por outro. Estão aí as pessoas ciumentas. Lembrando que ser ciumento é diferente de ter ciúme.

Há neste caldo, do homem para outro homem, do gay para o gay, outros valores culturais impregnados para mais ou para menos: (1) a necessidade de controle e (2) o espírito de competivividade. O mundo tem mudado e, igualmente, as mulheres tem assumido tais direitos, do controle e da competividade, características ditas como masculinas. Mas muito das raízes, estão aí, no subconsciente dos homens.

Assim, a insegurança subentendida no sentimento de ciúme, a pré-disposição ao controle e uma certa natureza competiviva podem se equacionar de tal maneira e criar desafios específicos e nuances em relacionamentos entre gays. Em alguma proporção, tais aspectos são quase inevitáveis. O como lidar, talvez, faça toda diferença.

Relacionamentos afetivos, quando a emoção entre dois homens começa a se estabelecer, costumam a trazer dúvidas, incertezas e inseguranças, principalmente neste contexto moderno, onde vai se deixando de lado a ideia da “tampa e panela” e “metade da laranja”. As fórmulas são outras e apontam para o indivíduo inteiro. Como preservar a individualidade e, ao mesmo tempo, administrar um relacionamento? Como se relacionar afetivamente – quando paixão e amor começam a florescer – em um mundo onde as pessoas buscam (racionalmente) gostar um pouco menos em relação ao outro para garantir um certo controle da situação? Onde, quando fazem assim, conflitam com a naturalidade da entrega?

Controle, competitividade, medo de ter ciúme ou medo de perder a individualidade. Sobre esses aspectos, o gay nem sempre consegue entrar em relações. Seja por falta de experiência, por idealizar demais uma pessoa ou relação, por traumas passados ou pela própria vibe do relacionamento, não se está tão facilmente isento dessas sensações. Precisamos ser queridos, aceitos e, se possível, ser correspondidos na medida exata que projetamos e que conforta nosso ego. Como se fosse possível, efetivamente, quantificar o quanto gostamos de alguém e o quanto o outro gosta.

Por que deixar fluir as vezes é tão difícil? O problema é seu ou é do outro?

Bom final de semana! :)


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

1 comentário Adicione o seu

  1. Fabio Dias disse:

    Sempre fui considerado em meus relacionamentos como ciumento, sou ciumento, mas percebo que meu ciúme existe a partir do momento que existe uma desconfiança mais forte, cheguei a ter um relacionamento de 6 anos em que os 3 primeiros anos, não tivemos problemas com relação a isso, após o aparecimento de um amigo de uma viagem que ele fez sozinho, a desconfiança fez parte das nossas vidas e por fim, acabei descobrindo que houve um relacionamento paralelo ao nosso.
    Ter ciúmes acho que é natural, serve ate mesmo para que possamos perceber que há algo errado, acho que conversando tudo se resolve, pena que esse habito não exista muito hoje em dia.

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