Ensaio sobre relacionamentos

Creio que qualquer escritor, blogueiro ou artista que trate do tema de relacionamento, já se arriscou para falar sobre o amor. Amor entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois meninos e entre gays é o que faz sentido aqui no MVG.

Engraçado é o que veio a minha memória agora: no meu primeiro namoro, lembro conscientemente que um dos meus propósitos era me provar que dois homens seriam capazes de se amar. Hoje, não sei se foi exatamente amor, mas afirmo ter sido uma paixão, correspondida. Na época me serviu como comprovação: eu consegui namorar com outro menino e construir afeto por ele com reciprocidade. Que feito, que incrível! Depois de quase 2 anos, a gente terminou e voltou umas 10 vezes até terminar de vez (rs)! Era intenso, dramático, ciumento, controlador, apegado, de choros compulsivos por alegria e tristeza. Sugava a alma. Quem me conhece, hoje, capaz que nem consiga imaginar. Era tipicamente romântico, das fortes emoções para o próximo capítulo. Eu era jovem, inexperiente e cheio de vontades. Assim, era o primeiro, justo e legítimo.

Amor nem sempre é uma consequência direta da paixão, amor não é paixão e, as vezes, conseguimos amar sem nos apaixonar. Tudo isso é muito teórico para o jovem gay que ainda não saiu do armário e, parte disso, é empírico para mim pois, a cada nova proposta de namoro, algumas percepções ressurgem e outras são totalmente novas. Todo esse discurso deve ser muito patético para aquele gay, cuja depressão do luto de um último relacionamento ainda persiste ou que, por ventura, não curta namorar. Porque conseguir se envolver é muito fácil, mas superar quando não dá certo é dificultoso e pode durar anos. É necessário cuidado para não amargurar.

Hoje comentei para um amigo, rapidamente, o quanto a chegada dos meus 39 anos me transformou. Outro propósito da minha vida, consciente, era de não me tornar uma “bicha-velha” se achando adolescente. E falo muito menos da necessidade de conservação física, mas de um necessário caminhar e evoluir intelectual. Fiz que fiz e (1) por meio de terapia há mais de 10 anos, (2) de levar a frente de uma empresa e lidar com pessoas há mais de 14 anos e (3) por ter me permitido viver todas as etapas de um relacionamento homoafetivo – começo, meio e fim – os calos da vida hoje me fortalecem e não há como negar que, intelectualmente, eu cheguei em algum lugar apaziguador. Da paz comigo mesmo, das vontades de demandas básicas realizadas. De ter entrado com força em minhas fantasias e fetiches e de ter vivido experiências espiritualistas. E a roda continua a girar. Depois de ter acertado e errado muito, a gente aprende (melhor) a onde pisar.

Não cabe a mim cobrar que outros se apaixonem ou me amem. Esse processo há de ser natural para não perder o que é genuíno. Mas, hoje, eu sei que amor significa e resignifica de tempos em tempos. Como eu disse, eu achava que amava o meu primeiro namorado. Devo ter falado “eu te amo” mais de 500 vezes em dois anos para eu me dar conta que o amor mesmo, começou a se estabelecer quando nos tornamos amigos. E foram 10 anos de amizade até, uma hora, acabar. Na condição de seres humanos, a gente pode até idealizar o amor que não tem fim, mas tem (rs). E tudo bem! Por que eu reclamaria? Aprender a desapegar fez parte da “bicha-velha” que não queria ser adolescente.

O segundo namoro foi cócegas da paixão. Durou pouco, um ano e meio à distância. Eu em São Paulo e ele em Hortolândia. O terceiro, o casamento, teve muito daquilo que os escritores consideram como amor. Teve de concessão, do exercício da paciência, da compreensão das diferenças e – apesar de inúmeras intensidades por coexistirem dois caras imaturos e geniosos – foi um marco para o meu aprendizado, para meu crescimento como indivíduo. Foi naquele tempo também que comecei a perceber a existência e a influência da espiritualidade entre nós. Muitos fatos aparentemente bizarros e esclarecedores aconteceram para eu ter em consciência, além das teorias, da influência da espiritualidade.

No quarto namoro não teve amor da minha parte, mas uma paixão larga e profunda. Foi correspondida até os últimos capítulos, quando um sentimento de traição me dominou, me colocou de ponta cabeça e me atirou do meu próprio precipício. A energia era tanta, que eu parecia o Naruto manifestando a/o Kyubi (rs) ou um Jedi poderoso atraído pelo seu próprio “dark side”. Fui desvendar o “lado B” da vida gay sem dó, sem vergonha e sem parcimônia. Tinha 30 anos e pagava as minhas contas há muito tempo. Fui superar o luto desse quarto namoro na época que eu ainda namorava meu quinto. Essas coisas acontecem e não há (necessariamente) uma falta de vergonha nesse tipo de coisa.

O quinto namoro (parece que) foi a resposta imediata às vivências após o término com o quarto. Deus me concedeu o “céu”. Já estava saindo do meu “inferno” sozinho e tive alguma abertura para viver algo mais próximo da purificação (rs). O começo foi totalmente embolado e confuso. Ele queria e não queria, queria e não queria (rs). Tinha influência de fulano, de cicrano e de beltrano e tinha também, por parte dele, uma paixão mal resolvida por um amigo. Amigo, este, que era meu ex-ficante (rs). Incrível como antes eu tinha a capacidade de lidar facilmente com as complexidades e os rolos da vida gay! Para a autoafirmação era um bálsamo. Mas depois de um ano bastante turbulento e confuso, eu e o Beto estabelecemos uma rota. Ainda não era amor, ou se era, a minha percepção hoje é bastante diferente. A história durou quase 4 anos e costumo dizer (por aqui) que com ele vivi a plenitude das relações normativas. Continuamos bons amigos até hoje e, se não me falham as contas, já são dois anos de amizade. Fomos assistir Star Wars, eu, ele, minha mãe e um casal de amigos héteros e boa. Simples assim. Amor de namorado se transformou em amor fraternal. Quem disse que não pode ser assim?

Depois disso, teve o Japinha e posso afirmar que foi com ele, mas não por causa dele, que as mudanças principais se iniciaram. Na realidade, as transformações vieram antes, depois que eu terminei com o Beto. O Japinha me pegou numa fase de metamorfose muito grande, a começar por esse fato: ele ser Japa e eu me sentir atraído. Jamais, até então, encararia um relacionamento com outro oriental, mas eis um bloqueio de preconceito que eu queria superar. Feito, mas acabou. Poderia ter virado amizade, mas ele se sentiu traído. Sumiu.

Algumas vezes eu me perguntava: “bom, se eu cheguei nesse ápice de ideal para um namoro com o Beto e acabou, o que vem agora?”. O que veio e tem vindo, meus queridos leitores, creio que seja a melhor parte: é a ausência de propósito, de influências autoafirmativas, de necessidades de suprir carências ou de evitar o estado de solidão. Se me dou a oportunidade de me relacionar hoje, de viver um namoro, é pela simples vontade de estar em par. Sabem a história das duas metades da laranja? Caducou, já era, não faz mais sentido. Estou em busca de formar dois inteiros que se complementam. Com isso, fica uma sensação de estar mais próximo de novos sentidos e mudanças. Notem: (1) não quero namorar por causa de um propósito, (2) não quero namorar para autoafirmar algo que demanda do meu ego, (3) não quero namorar por que estou carente, (4) não quero namorar para evitar a solidão. Tirei da frente vários dos aspectos que nos levam a um namoro, mas que nos desviam da essência da intenção, ou aquilo que eu entenda como essencial.

Se é namoro, relacionamento aberto ou sabe-se lá que nome há de se estabelecer, com o Rafa eu quero apenas ter o prazer de estar ao lado. Lado-a-lado, de crescer junto. Simples. Suave. Leve. Acho que isso tem muito a ver com amor. Não o cobro que ele entenda um relacionamento assim, mas é tudo de melhor que, a ele, eu posso oferecer.

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