Ensaio sobre vocações

Ensaio sobre vocações ou devaneios sobre ser gay

“Flávio, sinto em te dizer, mas você tem vocação para namorar (GARGALHADAS)” – falou a minha terapeuta na última sessão realizada na quarta. A partir daí, tal afirmação tem reverberado em meus dias como insights. Cá estou no MVG para poder organizar.

Se há a vocação para formar par, há também a predileção por estar em carreira solo. Após uma hora de conversa, minha terapeuta concluiu: “Você busca por isso” – o que pressupõe que existam pessoas que não procuram e/ou não saibam procurar. O fato é que, assim como a minha “Teoria quântica“, existem infinitas nuances entre a vocação para namorar e a vocação para preferir a solitude. E acredito que, dentro da gente, em fases diferentes da vida – namorando ou não -, passamos por esses momentos.

Tais vocações não traduzem apenas o contexto afetivo e sexual, mas dizem respeito a qualquer tipo de relacionamento (amizades, relações de trabalho, família, etc.), no meu ponto de vista. Em diversos níveis, a maneira que entendo o ato de se relacionar tem fortes referências subjetivas e inconscientes sobre a forma que meus próprios pais se relacionam entre si, na maneira que eu me relaciono com cada um deles e, principalmente, na maneira que eu percebo as relações. Acho que essa “formulinha” é básica para a maioria das pessoas. Básica e totalmente particular.

Mas o que eu acho mais importante de tudo, TUDO MESMO, é a gente quebrar o vínculo desses valores de relacionamentos com o fato de sermos gays. Ter predileção por formar par, ter preferência por estar sozinho, priorizar a monogamia, curtir a ideia de um relacionamento aberto, topar uma pegação na sauna, ficar na busca de “marmitas” para fast-foda nos aplicativos de pegação, idealizar viver junto, sonhar com um casamento, curtir uma “chuva de ouro”, gostar de tapas, seguir ou não as referências heteronormativas, dentre muitas outras nuances, nada tem a ver com ser gay. Em outras palavras, a ideia de ser gay não tem que ser reduzida a uma equação estereotipada, seja qual ela for.

Tais preferências ou tendências dizem respeito a momentos de vida ou, para dar um norte ao assunto, dizem respeito a predileções de um indivíduo. É particular. Quando não predileções, uma naturalidade intrínseca, ou seja, que “vem de dentro”. Muita gente que passa por aqui, principalmente os calados, equivocam-se ao amarrar determinados atribuições com à homossexualidade. O que de fato é (altamente) natural, já que não se ensina sobre tal assunto em casa nem nas escolas. Não existe um livro didático ou apostila sobre o “caminho do saber do gay”. Taí, uma das funções do MVG, dentre tantos outros sites e portais que sugerem condições à “viadagem”.

O que de fato ganha destaque midiático ou é mais vendável, é o deboche, é um pouco da purpurina e muito do humor. Mas atenção: somos isso e uma infinidade de coisas. O estereótipo, ok, pode ser apenas a ponta do iceberg que gosta mais de aparecer.

Vez ou outra clico no portal do Nelson Sheep (do Põe na Roda), cujo nome esqueci nesse momento (rs). Vira e mexe aparece algo na minha timeline. Acho um barato os tipos de assuntos que rolam por lá, desde os realmente informativos até os mais debochados. Mas tal portal de conteúdo não deixa de cumprir uma função de confundir um pouco aqueles gays que estão em busca da própria identidade que, a bem da verdade, são milhares! Antes de eu me assumir, e isso foi há “séculos” atrás (rs) eu achava que, no momento que trouxesse à tona a minha homossexualidade, eu iria me transformar no jeito, na voz e nos gostos. Me transformar em alguma outra coisa que não seria mais eu. Isso me despertava receio e tal imaginação fantasiosa reverbera em muitos de nós, quando vivemos o limiar do “sair do armário”.

O Sandro mesmo lançou seu relato recentemente, quando deixa explícito seu temor de virar travesti e morrer de AIDS (rs), caso desse vazão para a própria homossexualidade. E como ele concluiu: não virou travesti!

A convenção engraçada, debochada, bem humorada e colorida não deixa de ser a antítese necessária para uma certa coexistência com a heteronormatividade. Ou melhor, quem definiu que ser gay era assim foi uma maioria da sociedade, que delimitou o nosso ser em um formato “vendável” ou identificável. O tempo passou, estou com 38 anos, e parece ainda que um jovem gay que vive seu limiar de aceitação, vai de novo recorrer a uma referência inicial do “gay adocicado”, para sentir se há a identificação ou não e percorrer em pensamentos por meses ou anos particulares, numa busca de a que se agarrar.

– Gay só curte a putaria. Mentira. No meu caso eu curto em fases da minha vida. Mas se, na arte dos encontros independentemente dos meios, alguém me desperta emoções diferentes, não sofro para desconectar dos meus casos e focar energia para desvendar a pessoa;

– Gay só gosta de Madonna e Beyoncé. Bobagem. Tem gay que prefere Red Hot Chilli Peppers e tem um time de coração;

– Gay assumido é afeminado. Viagem. Se você leu o texto e chegou aqui achando que isso é uma verdade, é melhor continuar no armário;

– Se um belo dia algum gay chegar a você e criticar seus gostos dizendo sério assim: “Isso é muito coisa de hétero”, pense duas vezes se essa amizade vale à pena;

As vocações e predileções, de fato, são particulares e, quando estamos conscientes, são totalmente independentes do fato de sermos gays.

Ser gay nada mais é que uma maior predisposição (natural) afetiva e sexual por outro do mesmo sexo. Menino gay, menina gay. Bee ou sapa. Tanto faz e é bom sempre lembrar os leitores que passam por aqui. São mais de 600 posts e abordei tais assuntos há anos atrás.

No mais, meus queridos dos 14 aos 40 anos, estamos falando de vocações e particularidades. Estamos livres de um modelão “papai e mamãe” há anos! Estamos livres do gay “bichinha” há anos! Assim, temos a vida pela frente para criar nossos próprios modelos.

Fiquem à vontade.

1 comentário Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Olha eu aqui novamente! Rs

    Meu maior medo de adolescente, assumir e virar travesti, rs, hoje tenho vários amigos travestis que fazem show e sempre que possível vou na tunnel para prestigiar os trabalhos das amigas.
    Não sou tão fã de músicas pop eu gosto porém não guardo o nome de música alguma, rs, diferente do rock nacional e internacional.
    Sou torcedor do palmeiras, já frequentei muito estádio e era consumidor de material esportivo do clube , hoje nem tanto e não e o fato de ter assumido, apenas cansei um pouco do nosso futebol de baixo nível e alto custo.

    Você falou tudo ser gay não está relacionado ao modo de falar, como leva a vida sexual, roupas ou gosto musical.
    como falei muitos falam que eu não tenho nada de gay, ao ponto de algumas vezes mulheres chegarem em mim na balada e perguntar você é HT?
    Já fui chamado de gay maxista!

    Não por falar algo de negativo das passivas ( gora hora também gosto em determinados momentos ser passivo), ou de criticar os afeminados.
    Foi chamado assim por ficar durante um churrasco ficar conversando com amigas bem Sapatão, rs,sobre futebol.

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