Entrevista para a BBC Brasil

Gays conservadores

Na sexta-feira passada a BBC Brasil me entrevistou e a abordagem foi sobre o tema “Gays conservadores”. Entre os subtemas estavam a influência do cenário político atual, Bolsonaro, evangélicos, g0ys, preconceito no próprio meio e etc.

Gostei bastante da experiência e fiquei até honrado por uma mídia inteligente estreitar o contato. Mas ao mesmo tempo compreendi que meu posicionamento é bastante difícil de se aceitar ou entender, num cenário onde o maniqueísmo e a polarização se definem como regra a ser seguida.

Não adianta, por mais que alguns teimosos tentem caçar algum aspecto de meu posicionamento que conote uma proteção a um “time” ou outro, tento abarcar a diversidade e as diferenças, como uma verdadeira esquerda ideológica deveria ser. Fui questionado se o contexto de crise tem influenciado o meio e a minha resposta foi clara: sim, mas não no formato que pintam por aí.

A jornalista me contextualizou sobre o aumento de “gays conservadores” que tem se afeiçoado ao Bolsonaro e que levantam um discurso tradicionalista de família, religião e tudo mais. Falou também sobre a representatividade de Jean Wyllys e do conflito que existe entre gays afeminados, que se autointitulam como os verdadeiros transformadores sociais, em detrimento aos masculinizados que ficam à sombra e se aproveitam das benesses conquistados pelos afeminados.

Os detalhes da mesma deve ser publicada em breve. Mas a amarração da entrevista se dá em uma realidade nacional que, a mim, é determinante: a polarização atual – resultado de uma falta de cultura política e da ausência de consciência democrática – tem “pregado” as pessoas aos extremos. Por exemplo: quando é que as pessoas se apegam mais a uma religião? Quando a vida está boa, há emprego, os entes familiares estão em harmonia ou quando há o desemprego, as ideologias expressas no núcleo familiar divergem e há crise ao nosso redor?

O mesmo acontece, aqui no Brasil, mediante a maneira que fazemos política hoje: estamos num momento de nos apegarmos fortemente a “verdades” para nos assegurar de todo contexto de crise política, econômica e moral. A sociedade brasileira, no geral, está amedrontada. Frases do tipo “tenho medo disso, temo por aquilo” tem sido pronunciadas com frequência e de acordo com a gangorra de quem assume a governança. O medo e o desespero nos faz agarrar não somente a uma religião, mas como também a um partido e a um representante. É o processo de endeusamento incutido em nossa cultura.

Neste mesmo contexto polarizado, os extremos ameaçam um aos outros com argumentos radicais, quando não fisicamente. A homofobia é um exemplo clássico desse tipo de comportamento.

Não acredito que esteja aumentando o número de gays conservadores, nem que com isso o Bolsonaro – especificamente – esteja ganhando algum tipo de poder prático, a não ser da autoimagem do próprio modelo maniqueísta, no caso, como representante de uma ala conservadora. Na prática, Bolsonaro é um entre 500 e para fazer valer qualquer ideia contra gays, teria que passar por um processo extenso e conhecido de aprovação. Ele por si só é apenas, e somente apenas, uma simbologia hoje necessária ao nível cultural. Posturas ditatoriais aplicadas na prática são tão fantasiosas quanto a disseminação do Comunismo em território nacional, frutos – inclusive – da neurose da polarização.

Por outro lado, supondo que ele realmente tenha abrangência para contaminar as pessoas com suas pregações antigays, o legado emancipatório construído por esses anos, desde os anos 60/70 não se perde com um sopro, a não ser com uma ditadura, o que tange o improvável. Acredito (fortemente) na neurose e não nas fantasias criadas por ela.

O legado emancipatório construído, ao meu ver, está muito menos na bandeira e no movimento LGBTT hoje. O movimento teve sua importância em um contexto de espaço e tempo, para articular um discurso de maior visibilidade. Mas hoje, embora a instituição que se tornou o movimento seja necessária, o legado mais legítimo está no particular, como a minha representação como um homem gay, assumido, para meus pais e amigos. Não existe um Bolsonaro que seja capaz de transformar as percepções destas pessoas, galgado apenas num discurso radical. Em outras palavras, meus amigos e meus pais não vão deixar de ter a exata percepção que tem hoje sobre mim pela existência desse representante. A impressão dessa possibilidade é a manifestação da fobia. Fobia, esta, que é clara quando apontada ao ignorante homofóbico que agride um transeunte, mas que deixa de ser nítido quando, por exemplo, acusamos afeminados, masculinizados ou g0ys disso ou daquilo.

Afirmo que, ao meu ver, o ser humano sob o efeito do medo gerado pelas incertezas da crise atual tendem a ignorância (muita emoção, pouco pragmatismo). O medo gera a fantasia e nos arranca dessas sutis percepções de realidade.

E na pior das hipóteses, caso uma real ditadura contra gays seja implantada, e a pessoa que esteja viajando na maionese seja eu, o MVG é um dos inúmeros meios para barrar esse processo. Não somos assim tão indefesos mediante as ameaças do maniqueísmo, embora a gente queira acreditar tanto na existência de um grande inimigo e em seu “poder de destruição”.

O inimigo mesmo é a falta de educação, esta que nos leva a informação, a cultura e a uma emancipação intelectual determinante para o esfacelamento do “bem e do mal” implantado hoje em dia. Do culto a uma instituição ou líder.

O MVG não se coloca contra gays conservadores nem contra os gays descolados, embora critique (igualmente) seus apegos por aqui. No contexto atual, o verdadeiro inimigo é a estupidez. A estupidez, sim, nos leva a apegos do tipo.

Vamos falar da educação libertadora de Paulo Freire?

6 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Cazuza diz: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades(…)”.

    Flávio, a história nos traz um rico material que nos permite fazer certas ilações sobre o futuro que se avizinha.

    Maquiavel usou esse tipo de pensamento e abordagem no livro O Príncipe. E eu achei genial, porque busca no passado padrões, enfim, modelos a serem ou não seguidos (Uma coisa eu aprendi com ele, não faça nada que os reis da França fizerem, sempre dá errado rsrsrs brincadeira).

    É fato que a vulnerabilidade do sistema político e econômico brasileiro hoje é de se saltar os olhos. E que isto proporciona o recrudescimento de certos sentimentos, de certas coisas que estavam escondidas ali embaixo do tapete das convenções sociais.

    Momentos de desilusão como esse que estamos vivendo levam a população a buscar auxílio em salvadores da pátria, geralmente alinhados com discursos radicais. Na Alemanha foi assim nos anos 30. Na Itália foi assim no final dos anos 20. O desespero e a falta de amparo são combustíveis pra radicalismos políticos e religiosos das mais variadas naturezas.

    Freud é que compreendia isso bem, dessa coisa do ser humano se sentir desamparado. Fala sobre isso em O Mal-Estar da Civilização. E o que vale para as religiões talvez sirva pros extremistas.

    E outra existe muito na história um padrão de pêndulo. Toda guinada mais liberal que existe é seguida por uma contra-partida conservadora. Foi assim na época do Renascimento na Itália.

    O Renascimento Italiano não foi apenas uma revolução de natureza artística, mas uma revolução de costumes também. A homossexualidade era mais tolerada nas cidades-estado italianas (Tanto que em Portugal a prática homossexual era conhecida como costumes italianos – rs). Leonardo da Vinci, Michelangelo, dentre outros, são todos reconhecidos hoje como pessoas que tinham em algum nível uma certa prática homossexual.

    Em contra-partida contra a mudança de costumes e da postura da própria Igreja, houve a Reforma Protestante, que dentre outras razões também veio pra combater esse tipo de coisa. E a Igreja Católica se viu obrigada a adotar o mesmo padrão através da Contra-Reforma.

    Vivemos hoje na história mundial, uma coisa absolutamente nova, o movimento homossexual não é o único, a emancipação feminina, movimentos raciais e a liberação sexual também são movimentos importantes, que tiveram conquistas significativas nos últimos anos no mundo inteiro. E todas estas conquistas estão absolutamente interligadas. O movimento homossexual é o último de todos eles, e colheu os louros das lutas de todos estes movimentos.

    A situação é preocupante, pois realmente existe uma ameaça real de que isso que foi conquistado pelos grupos minoritariamente representados pelo poder seja perdido. A própria entrevista é uma evidência de que pelo menos a preocupação com isto existe.

    Talvez não a nível individual, mas em termos de coletividade, de grupo (e se o grupo perde, com quem que a gente vai transar? tô de brinks – rs). Mas não demanda de todos desespero, e sim saber analisar o momento que estamos vivendo hoje. Analisar para agir e proceder da maneira adequada. E como podemos nos resguardar frente a uma possível ameaça a perda desses direitos que foram conquistados com muita dificuldade.

    Temos que lembrar também que o Brasil e outros países latinos tem uma dinâmica muito própria de manifestação da homossexualidade, que difere, principalmente nos estratos sociais mais baixos daquilo que é preconizado, aceito e tolerado no mundo dito “civilizado”, ou melhor, “desenvolvido”.

    E por último, mas não menos importante: Legal a realização desta entrevista, talvez seja uma das evidências daquilo que estava falando dos referenciais que precisamos.

    Desculpe pelo comentário longo.

    1. minhavidagay disse:

      Concordo com esses movimentos entre esquerda e direita. Mas não a nossa direita. Quem é a nossa efetiva direita? Bolsonaro e Maluf? Quais são as realizações práticas contra gays que eles têm executado fora a verborragia atrelada ao personagem?

      Não creio que funcione num contexto nacional na qual a identidade partidária e ideológica se perderam.

      Lula apertou a mão de Maluf para a eleição de Haddad à prefeitura em São Paulo, entende?

      Que a direita tem ganhado força num contexto mundial é bem claro. E o principal motivo disso é que a crise econômica mundial está na mão de uma maioria da esquerda atualmente.

      A Áustria corria riscos de conceder espaço para a direita, mas no final, por intermédio da democracia, quem venceu foi um cara da esquerda vinculado a movimentos ecológicos.

      Então reforço: Freud tem razão. E o pavor, no meu ponto de vista tem sido maior do que a realidade com base na informação e fatos.

      :)

  2. neto disse:

    As pessoas amas as instituições. Isso quem disse foi o pai da sociologia , Emile Durkheim. O grupo conservador do tipo Bolsonaro prega a família, a religião, o casamento, dentre outras instituições. O que eu chamaria de gays conservadores são os que amam as instituições. Querem casar, querem ter filhos, querem acreditar em Deus. A chamada esquerda faz criticas a essas instituições, a saber, o movimento feminista, os marxistas. Creio que vivemos num mal estar que é entre amar as instituições, porém achar que elas nos aprisionam. Talvez elas de fato nos castrem, mas como ja disse Bauman, temos que optar ou pela liberdade ou pela segurança. Não há como ter essas duas benesses de uma vez só. Talvez nosso mal estar seja em optar pela liberdade e ter receio de largar mão da segurança das instituições. Creio que os gays de direita não são facistas. Apenas optaram pela segurança, ou por uma suposta segurança que são as instituições.

  3. Pedro disse:

    No Brasil claramente não existe isso de direita e esquerda definido claramente como há nos países desenvolvidos. O PT não é mais parte da esquerda há muito tempo, ele cruzou essa linha em 2002, e não voltou mais. O governo que ele fez nem de longe chegou a ser de esquerda. Em entrevista ao Roda Viva em 2011 ou 2012, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a dizer que os governos petistas foram muito capitalistas. Diferentemente do que se espera de um governo de esquerda. Luís Carlos Mendonça de Barros afirmou algo muito semelhante na mesma época.

    Não é compreensível que um partido de esquerda se una a um representante da direita. Mas pode-se esperar isso de um partido de centro. Isso acontece na Europa o tempo inteiro, na Inglaterra, por exemplo, quando David Cameron assumiu, ele não tinha a maioria do parlamento e teve que optar por uma aliança com um partido menor lá, que eu me esqueci o nome, pra obter a maioria parlamentar, e este aliado era um partido de centro.

    É claro hoje o PT usa o título de esquerda, hoje depois de ter sido desalojado do poder, por razões políticas muito óbvias, mas é um partido de centro, talvez centro-esquerda. Muito mais alinhado ao capitalismo que ideais socialistas de fato, é um partido que tem ocupado o papel de social-democrata, em tese, óbvio, nestes últimos anos. Sem entrar no mérito se rouba ou não. Bolsa-Escola e Bolsa-Família, criados nos governos do PT e PSDB são programas de transferência de renda, de ideologia social-democrata. Se funcionam ou não, e se são usados para fins eleitoreiros é outra discussão.

    Ironicamente o PSDB, que tem a social-democracia no nome, que já foi um partido de centro-esquerda na sua fundação em 1988, se afiliou diretamente ao movimento New Labour na década de 90 do Tony Blair, a partir de então o que era pregado pelo partido mudou. Claramente é um partido liberal, não no sentido de esquerda, mas no sentido econômico do termo. Seria um partido de centro-direita. Concepção de Estado Mínimo, e pró-mercado. O PT seria mais Keynesiano, ou seja, mais pró intervenção do estado na economia, bem-estar social e por aí vai. Isso tudo na teoria, obviamente.

    A esquerda no Brasil não tem uma representatividade política, existe mas não tem poder nenhum, uma meia dúzia, que se diz de esquerda, daqui dois anos muda de “lado”, é sempre assim. Roberto de Campos, que o diga, começou na esquerda, depois se tornou membro da direita, foi desenvolvimentista nos anos 50-60, e morreu defendendo o liberalismo econômico, jurando fidelidade a Adam Smith.

    O Serra era de esquerda, presidente da UNE em 1964 durante o Golpe Militar contra João Goulart, inclusive até fundou um partido comunista ilegal durante da ditadura, Aloysio Nunes Ferreira era membro do partidão (PCB), Lula era amigo do Prestes, o líder e fundador do partidão, Dilma era da guerrilha, FHC era um sociólogo de esquerda, se não me engano ele foi orientado pelo Florestan Fernandes, fundador do PT, enfim, esse tipo de coisa. Jorge Amado era do partidão, foi deputado federal e cassado pelo Macarthismo do Dutra, morreu amigo do ACM. Quer dizer, isso é ser de “esquerda” no Brasil.

    O problema da direita em si não são os nomes atuais que estão na direita. Mas de grupos radicais que pregam retrocessos socio-culturais incalculáveis pra sociedade. Um político de direita ou centro-direita como majoritariamente existe na Europa Ocidental, e como é o Obama nos EUA não representa problemas para a comunidade gay. Mas alguns babacas mal-intencionados e grupos radicais que se associam a eles em busca de poder, sim, representam problemas seríssimos.

    Sobre os movimentos gay e feminista. É importantíssimo ressaltar aqui que a “maternidade” do movimento gay foi o movimento feminista americano. A quebra do paradigma que vinculava sexo à reprodução, por parte das mulheres e seus sutiãs queimados, a invenção e a difusão do uso das pílulas anticoncepcionais, deu legitimidade pra que os homossexuais fossem a busca dos seus direitos.

    Até 1990 Homossexualidade era considerada Doença pela OMS, em 1992 esse posicionamento seria finalmente ratificado. Se não fosse pelo engajamento dos militantes LGBTs, eu e muitos outros estaríamos sendo hoje “tratados desse vício contra naturam”. E eu juro pra todos vocês, que muitos tipos de tratamento utilizados para esse tipo de circunstância, se assemelhava muito a tortura. Quem assistiu Laranja Mecânica tem uma noção do que eu estou falando. Em alguns casos até Lobotomia era utilizada.

    Não acho que ser gay e ser feminista seja um atentado as instituições. As instituições existem e devem ser respeitadas, por quem quer que seja. O que não quer dizer em absoluto que eu seja a favor da repressão e da injustiça. Os paradigmas da nossa sociedade estão aí para serem quebrados e substituídos. Quando eles sobrevivem eternamente não passam a ser mais paradigmas, tornam-se dogmas. E dogmas não são compatíveis com um estado de direito democrático, livre e laico, aos moldes da concepção de estado do mundo moderno que se efetivou a partir de 1789 na Revolução Francesa.

    Eu sou homem, e sei o quanto é sofrido ser gay no mundo machista que vivemos, isso não é papo de militante, eu não sou militante de porra nenhuma, apenas sou um animal político como todos os demais seres humanos são. O movimento e as lutas LGBTs e feministas são legítimas, a meu ver. Agora, se o pessoal que participa desses movimentos faz de forma legítima ou não, aí é outra coisa. Uma coisa é o movimento em si, outra coisa é quem está participando dele e suas intenções.

  4. Nick disse:

    “Vamos falar da educação libertadora de Paulo Freire?”. Não quero polarizar ainda mais, mas acho que você disse aqui que foi em algumas manifestações contra governo Dilma e quero perguntar o que acha de um grupo que foi também criticando Paulo Freire e seu modelo de educação e muitos críticos do governo que dizem que Paulo Freire destruiu a educação no Brasil e pedem pra quem o defende lerem um livro (que esqueci o nome agora)?

    1. minhavidagay disse:

      Não, Nick. Não fui a nenhuma das manifestações pró ou contra Dilma. Estive de passagem acidentalmente numa das primeiras, por ter marcado com um amigo um almoço no Athenas. Nem sabia que naquele dia haveria manifestação contra a mulher.

      Sobre a “meia dúzia” que se manifestou contra Paulo Freire não tenho conhecimento.

      Paulo Freire não destruiu nada e eis um discurso do outro pólo. Entre 500 pessoas, talvez uma entenda na prática seus princípios.

      Saia do pólo.

      Obrigado, de nada rs

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