Devaneios sobre a Esperança

Minhas reflexões sobre a esperança em tempos de isolamento social e crise política brasileira

Manter a esperança, ou não, sempre foi uma escolha individualizada. E essa certeza se intensifica agora.

No país que vira o epicentro por uma série de fatores, da sua pequenez a sua grandeza, das opiniões divergentes, diversas que essa liberdade individual nos dá, eu opto pela esperança e esse sentimento não depende de terceiros.

Não somente por uma questão de fé – a minha fé – na minha crença no metafísico, nos homens ou na máquina produtiva. Mas, principalmente, na História.

Para a esperança e crença no futuro, é necessário olhar com precisão para o passado. O presente pode estar um caos, dentro e fora de nossas quarentenas, dentro ou fora de cada um. Uma pitada de pessimismo aqui e ali, espasmos de loucura, epifanias e um soco bem dado de uma realidade de um povo complexo e desconexo em centenas de camadas, não somente na linha dos governantes.

A falta de união, de conexão e de convergência nunca foi tão influente em nossas vidas. E há, inevitavelmente, um preço para as escolhas e opiniões contraditórias que fizemos nos últimos anos. Essa é a situação presente, gostando ou não. Essa é a realidade e que agora, definitivamente, não temos nenhum controle.

Se existe uma entidade autoritária hoje é o vírus, seja eu ou você aceitando o poder que ele tem ou lidando com desdém. Cada um entende essa autoridade a sua maneira, com a crença política que lhe cabe, e temos rebeldia e liberdade suficientes em nossa cultura para ser assim, intensa e hostil.

Então, para o presente, o melhor é viver um dia após o outro e há pouco além disso. Um mais, outro menos e isso não mudou até hoje.

O olhar preciso para a História me livra de uma ‘realidade conveniente’. A realidade conveniente é como se fosse uma droga: o êxtase dura pouco tempo.

O olhar preciso para o passado é independente do meu desejo pessoal ou do desejo do meu pequeno grupo que diz o mesmo que eu, que afirma as coisas que eu afirmo para o ego, para o pertencimento.

O olhar preciso para a História é abrangente e independe da minha opinião, da sua, porque já foi escrito. O passado é uma outra autoridade que, quando abraçado, nos trás conforto.

Assim, além da minha fé que ajuda a ter esperança para o amanhã, existe a certeza escrita, determinada e – essa sim absoluta – de que todas as grandes guerras, revoluções ou pandemias mudaram drasticamente, profundamente, irremediavelmente as sociedades.

Está aí a nossa oportunidade.

É certo que todo esse movimento de mudança não teve e não terá um trajeto fácil, mudanças essas que já estão acontecendo e, sim, fogem totalmente de nosso controle e nos bota para sair da zona de conforto.

Lembra? Um dia após o outro…

Um trajeto que não é fácil implica em formas diferentes (e talvez incomparáveis) de sofrimento. Mas eu não vou perder a esperança e não dependo de ninguém para tê-la.

Esperança é de dentro para fora, embora essa afirmação seja tão desconhecida para tanta gente.

O sentido de ter ou não esperança, para nós brasileiros que somos bebês numa democracia, nunca foi tão individual e necessário. De quem, afinal, vamos exigir essa esperança senão de nós?

Mudaremos enfim? Avançaremos como sociedade?

O ser humano não se pulverizou com as dezenas de pandemias, os punhados de grandes guerras e revoluções. Então, aos que sobreviverem físico e mentalmente – seja pela fé no metafísico ou na ciência, nos fatos da História – que sejam maiores, mais unidos, mais coesos, mais racionais, menos imediatistas, menos maniqueístas, menos egoístas, menos desiguais, menos arrogantes, menos superficiais.

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