Esposas que convivem com a homossexualidade do marido, maridos que convivem com a homossexualidade das esposas

A homossexualidade diferente da convenção

Em conversas com uma amiga psicóloga, levantei o assunto: “não vou me assustar se, em breve, lançarem a reportagem com entrevistas de esposas que convivem em algum nível com a homossexualidade de maridos e maridos que convivem em algum nível com a homossexualidade de suas esposas”.

É possível conviver com essa realidade? É claro que tais circunstâncias trazem seus desafios, a partir do moralismo social, da adaptação dos envolvidos e de um esforço dos mesmos para construírem suas novas referências e eixos de segurança, livres do julgamento parental e social. Mas qual o relacionamento que é fácil de se lidar, que não passa por questões e que são realmente “gloriosos”?

O que eu venho notando há alguns anos, principalmente de fontes vindas do próprio Minha Vida Gay, é que existem casais (prioritariamente) heterossexuais que estão experimentando dessa realidade. Trazem o assunto para a mesa da sala, para o quarto, para o sofá e, não somente buscam conviver com esse conhecimento, mas passam a rever a ideia de que – por exemplo – o marido tem desejos homossexuais e que isso é o “fim de tudo”. Ao contrário do que dita certos hábitos conservadores, tais casais têm tratado do assunto de novas maneiras.

Embora esses casos não sejam corriqueiros, são realidades da intimidade de alguns casais. Considero pertinente ser abordado no MVG.

O fato é que eu sempre busco, por aqui, apresentar e refoçar a ideia de que a sexualidade é um degradê. Não estamos falando apenas de “preto ou branco”. Chega até a ser confortável para um gay como eu – que atingi resoluções do aspecto (1) sexual/desejo, (2) afetivo e (3) social (meu jeito de me apresentar ao mundo) – ter me encontrado feliz e completo dessa exata maneira: gay. Mas e os homens e mulheres cujo interesse por outro do mesmo sexo não se equaciona preenchendo todos esses quesitos e nas mesmas proporções que as minhas?

Há aqueles homens ou mulheres que lidam com naturalidade a prática com o outro do mesmo sexo, mas não tem desenvoltura para criar laços afetivos e emocionais com os mesmos. Há aqueles que, facilmente, constróem afeto com o outro do mesmo sexo, até em níveis de apego e ciúme, mas estão cheio de tabus na hora da cama. Há ainda aqueles que sexualmente e afetivamente criam intersecções naturais com o outro do mesmo sexo, mas não se identificam com o meio gay ou tem certas dificuldades de levar tal realidade, do desejo e afeto por outro igual, para o âmbito familiar, para seu universo normativo.

Bata tudo isso no liquidificador e uma coisa eu digo: não há uma verdade absoluta a não ser aquela que o próprio indivíduo vive e compartilha com a(s) pessoa(s) que se tem confiança. Está aí o degradê que me refiro. Nem precisei me referir aos Trans…

É um exercício de abstração essa sexualidade humana

Há quem diga que homens que estabelecem encontros homossexuais furtivos, mas querem construir uma vida heteronormativa são mal resolvidos. Por um lado é realmente possível, principalmente as vistas de homens e mulheres gays que, na intimidade, tomaram a consciência (ou tomarão) que idealizam alcançar a completude nos aspectos sexual, afetivo e social com o outro do mesmo sexo. Mas no momento em que a sexualidade é um degradê e subentende-se nessa ideia a naturalidade por ser assim, o desejo homossexual funciona em níveis diferentes, de pessoa para pessoa.

Todo homossexual precisa gostar da The Week? Todo homossexual precisa assumir para as pessoas mais íntimas para ser considerado bem resolvido? Todo homossexual precisa, necessariamente, ter desejo apenas pelo outro do mesmo sexo? Ou será que tais aspectos funcionam mais de uma maneira autoafirmativa, para a provação social e uma necessidade de pertencimento, do que o respeito ao encontro com a satisfação individual e íntima que nada tem a ver com convenções ou terceiros?

Muitos estudiosos da psicologia e da sexualidade humana acreditam que o homem, seja mulher ou homem, tem uma natureza bissexual. E foi toda aquela história da moral e filosofia Cristã que ajudaram a determinar a heteronormatividade. Bem, muito difícil de determinar que a “culpa” é do Cristianismo, mas me parece que a razão das coisas está no momento em que cada indivíduo estabelece uma confiança e um respeito com aquilo que é íntimo, livre dos abalos ou julgamentos alheios. Isso é o empoderamento e a culpa me parece ser dos homens.

A existência de esposas e maridos que convivem com realidades homossexuais de seus respectivos maridos ou esposas, me parece um salto de consciência e um “grito” de liberdade muito grande ao que está primordialmente convencionado.

Terminei a minha conversa com minha amiga psicóloga da seguinte forma: “nós, gays, que visamos um encontro sexual, afetivo e social para nos firmarmos como homossexuais, abrimos comportas. E dessas comportas está começando a aparecer uma pluralidade que até o gay duvida”.

Os novos pilares para sustentarem relacionamentos deste perfil, talvez sejam os grandes desafios relacionais dos próximos tempos. Já estamos construindo novos modelos, no momento em que há certo consentimento dos casais sobre tais realidades. De todo modo, a premissa é que as pessoas compreendam-se a si e respeitem-se de uma maneira nunca antes explorada.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

2 comentários Adicione o seu

  1. Cosme disse:

    Muito bacana o texto. Vale muito a pena discutir isso.

    Abraços.
    http://www.tartarugasaprendembhaskara.com.br/

  2. Maria disse:

    Ao descobrir que meu marido é Bi me deixa extremamente angustiada. O Amo muito, ele é um cara excepcional, mas não sei se conseguirei sustentar esta situação. Eu vejo que ele me ama, mas para mim, não é confiável. Percebo que os impulsos dele por matar o desejo com um homem são mais fortes do que ele. Lidar com isso é uma angústia muito grande.

    Parabéns pelo texto.

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