Estar só

Bate papo entre gays

Num lapso de memória, de um domingo altamente embriagado, misturando vodca, vinho e cerveja, alguém querido me perguntou algo assim: “você que é um cara evoluído, não te incomoda o fato de estar sozinho por ser assim?”. Dentre lapsos largos de memória, alguma coisa desse tipo ficou registrada em minha mente.

Eu, definitivamente, não me lembro exatamente o que eu respondi, a não ser uma frase que veio recentemente em minha terapia: “é bom e é ruim”, ou seja, tenho que lidar com a naturalidade das circunstâncias. Agora, consciente, posso detalhar um pouco mais sobre a questão: primeiramente que a ideia de “ser evoluído” me parece muito relativo e quero tomar cuidado para não aparecer arrogante. Talvez do ponto de vista de autoconhecimento, intuição e espiritualidade eu venha desenvolvendo esses aspectos com reais propósitos. Mas como qualificar no sentido ético – se tais propósitos são certos ou errados – quando autoconhecimento, intuição e espiritualidade são temas tão subjetivos e não há recursos comprobatórios?

Por exemplo: eu acredito em astrologia, a influência dos orixás e Deus. De uma maneira subjetiva e intuitiva (a minha) vejo intersecções perfeitas entre essas partes. Mas são as minhas crenças e não querem dizer que traduzam verdades absolutas, mas traduzem questões suficientes para orientar a minha própria espiritualidade. Talvez isso seja suficiente para dizer que estou em meu desenvolvimento espiritual? Talvez. Mas eu seria incapaz de dizer que tal mix seria o caminho certo, único e indiscutível, sendo que a grande maioria das instituições religiosas acaba impondo suas verdades e, a mim, isso já está errado.

Mas supondo que sim (e talvez só pessoas sensitivas poderiam comprovar, se é que elas realmente existem e eu acredito que sim), que eu seja o tal “cara evoluído”, de certa maneira acima de uma média de consciência – das pessoas no geral – e, por me diferenciar de tanta gente sendo assim, eu acabe sozinho.

Assim, como lidar com a solidão?

Eu posso afirmar que a solidão corresponde a um dos maiores medos de uma grande maioria. Talvez “perca” apenas para o medo da morte. Lembrando que, no meu ponto de vista, o demônio mora em nossos medos, eu digo assim: a solidão sempre foi este demônio em minha vida, até o dia em que eu resolvi enfrentá-lo. Ou seja, enfrentar esse meu próprio demônio.

Quem já leu meus posts com mais assiduidade sabe que eu confesso por aqui uma verdade: uma parcela da necessidade de estar namorando, formar par e ter alguém na minha diminuta “vida gay” (cheia de outros medos anteriormente) representava um terror da solidão. Parecia que, quando eu não estava namorando, eu me sentia mais fraco. Parecia que eu era menos capaz, por exemplo, de tocar a minha empresa, de levar a minha vida. Parecia que o silêncio dentro de casa se tornava insuportável e a certeza era que eu precisava criar um punhado de compromissos o quanto antes, depois do trabalho e nos finais de semana, para que eu não tivesse que consentir com a companhia da solidão. E parece que essa angústia se intensificou, principalmente, depois que eu tive os prazeres de um primeiro relacionamento. “Gostei da fruta e viciei”, ou seja, eu não sabia mais ficar sozinho.

Por mais de uma década, a princípio de maneira inconsciente e depois vindo à tona, eu me movia, tomava atitudes e me relacionava para (também) fugir da solidão. Não é que eu ache feio se relacionar, em partes, para não se ficar solitário. Na realidade é bem humano. Mas eu sentia uma enorme necessidade de superar tal medo, da solidão.

Um belo dia (e não faz tanto tempo atrás assim), já no meu processo de enfrentamento da “marvada”, um dos meus orientadores disse assim: “estar sozinho é estar consigo. É olhar para si mesmo, estar somente na sua companhia e ter que se bancar assim. A maioria das pessoas não banca esse tipo de coisa”. Poxa vida… eu encarei esse “tipo de coisa” como um desafio. Eu queria bancar a solidão, estar comigo e aprender a lidar com isso. Pensei em mais um ponto: “quero me envolver por alguém sem a desculpa – agora consciente – de que o desconforto que a solidão gera, seja um dos motivos para estar com esse alguém”.

Importante dizer “solidão” sem morar com os pais ou com amigos! Pois afirmo que, nestes contextos, é fácil achar que se lida bem.

Coloquei tal propósito na minha cabeça e fui, mais intuitivo do que racional entregando – inclusive – para Deus.

Tenho falado que 2015 representou a mim uma montanha-russa e um dos motivos que fez ser assim fora justamente esse desafio mais consciente. “Bom e ruim”. Posso afirmar com a minha certeza (e tem que ser a minha mesmo) que a forma/formato/jeito que tenho me relacionado com o Rafa já é consequência de alguém que vem buscando perder o temor da solidão. Deixar de temer a solidão como antes é um tipo de libertação e acaba por influenciar os mais diferentes níveis de relação.

O processo tem sido dificílimo e alguém poderia dizer: mas por que você está se colocando esse sofrimento? E eu reforço a minha resposta que deve estar clara nas entrelinhas do texto: porque eu quero aprender a estar bem comigo a maior parte do meu tempo e, não menos importante, quero estar com alguém sem que o medo da solidão seja um motivo. É definitivamente uma maneira para eu compreender a minha “transcendência”, seja espiritual, ética, de valores ou qualquer conceito que se possa atribuir. E se eu coloco tantas aspas em algumas palavras deste post é porque estou lidando com um tema muito subjetivo, não comprobatório. Não existem verdades, até mesmo no fato de que eu realmente esteja evoluindo assim. Mas há uma crença íntima, a minha.

Nessa experiência, posso dizer outras coisas: para lidar com o desafio, algumas práticas tem me ajudado, estas, sem necessariamente conterem um sentido lógico, mas um sentido intuitivo e particular: manter uma frequência com exercícios físicos, uma reeducação alimentar, a companhia do meu cachorro (seria uma bengala?), escrever no MVG e a minha terapia. Nesse processo, tenho colocado as minhas amizades em outro lugar: menos agenda e mais crédito à naturalidade ou acaso dos encontros.

Eu poderia chegar os 38 anos (quase 39) e ser muito parecido ao que era até os 33. Digo 33 anos porque, até essa idade, parecia que eu carregava um punhado de características e modelos comportamentais que se estabeleceram desde os 20 e poucos. Um padrão. Mas por um lado eu quis mudar e, por outro, mudanças vieram sem um domínio ou controle. De novo, bom quando se quer mudar e ruim quando a vida te coloca desafios para isso. Eu tendo a preferir enfrentar.

É importante reforçar que não deixo de ser um descendente dos macacos (para quem acredita na Teoria da Evolução), nem de Adão e Eva, para quem acredita no Cristianismo. Ou seja, sou um humano-humanóide, daquele que – as vezes – comete falhas e deslizes. Cada vez menos, posso afirmar. De qualquer forma, busco com bastante força tentar transcender a minha visão sobre a maioria das coisas numa necessidade de ser total: razão (matéria), sentimento (emoção) e intuição (espiritualidade) sem subterfúgios (como a cachaça do meu domingo – rs, por isso, ainda estou em fase de contrução). Mas não sei buscar isso em livros; prefiro meu olhar.

O próprio MVG e o certo trabalho de mentoria para aqueles que pessoalmente conheci por aqui não deixam de ser um tremendo de um exercício, uma prática semanal de um indivíduo (único) que tem doado horas de seu tempo para levar referências, ideias e percepções para aqueles que de alguma maneira se identificam. Segundo a minha “guia espiritual” o Blog e a consequência dele tem sido a enxada, a terra e as sementes para o crescimento dessa tal espiritualidade.

De fato, embora eu não possa comprovar e nem traduzir de maneira lógica tudo que se revela nesse post, é o que eu sinto. E torço mesmo para que cada agradecimento que surge por aqui seja a representação legítima de acolhimento, paz e aconhego para quem recorre ao Blog. Que o MVG não se torne um vício ou uma compulsão, um dogma ou uma instituição, mas que de alguma maneira colabore para que cada um que passa por aqui encontre uma luz para as próprias trajetórias. Precisamos de mais autoconhecimento e protagonismo nesse mundo. Cansado das pessoas buscarem culpados e se colocarem como vítimas.

Eu tenho aprendido a estar só e bem acompanhado. O que não quer dizer que eu não possa estar em uma relação. Viu, Rafa? rs

6 comentários Adicione o seu

  1. Neto disse:

    Não sei se vc se expressa tão bem no vídeo assim como se expressa nos seus textos. Mas fico lendo e imaginando que vc daria um ótimo youtuber. Creio que vc tem uma boa demanda de público sobre esse tema que eu, pelo menos, me identifico muuiito. Faça videos. Queremos te conhecer melhor, Flávio.

    1. minhavidagay disse:

      Neto, confesso que eu pensei hoje em iniciar um canal no Youtube. Acho que vai além de uma coincidência você sugerir justamente hoje.

      Mas ainda me deparo com a questão da minha exposição. Em vídeo é a minha cara. Sabe aquela sensação de que “tem muita gente louca no mundo”?

      Meus assuntos não são meras trivialidades…

      Estou pensando. De qualquer forma, é para relevar seu comentário.

  2. Leandro Moura disse:

    Oi Flávio, td bem?
    Depois de alguns meses sem comentar aqui, achei esse post interessante e resolvi contribuir para o debate.
    Tenho 25 anos, completados no começo do mês, estou solteiro, nunca namorei sério na vida e já faz quase 3 meses que não transo, e no entanto, estou absolutamente tranquilo e em paz comigo mesmo. Eu estive pensando e refletindo sobre isso, e a conclusão a que eu chego é: eu vivia ansioso, na expectativa de viver romances arrebatadores com os caras mais lindos, mas hoje eu sinto que perdi meu tempo criando expectativas irreais, fantasiosas, que só me trouxeram sofrimento.
    Não penso mais em namoro. Pelo menos não como uma obrigação. Se acontecer com a pessoa certa, eu ficarei muito feliz, mas se não acontecer, eu tentarei aceitar ao máximo e tocar minha vida adiante. A possibilidade de ficar solteirão, que era um verdadeiro terror na minha adolescência, hoje não me assusta mais. Pelo contrário, cada vez mais eu a aceito. A única coisa que me chateia um pouco é que para muitas pessoas que eu converso, isso é quase um fim do mundo. Algumas só faltam jurar de joelhos que eu vou arranjar alguém kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Mas definitivamente não estou preocupado com isso. Minha maior prioridade nesse momento é minha carreira. Tenho vários projetos para o futuro, e espero conseguir realizá-los. Torçam por mim!
    Abraços!

  3. Sandro Bonassa disse:

    Solidão é um presente.

    Viver em paz com o seu próprio ser não tem preço.

    Mesmo em um relacionamento é importante viver sua solitude.

    Aprendi viver em paz comigo mesmo.

  4. Pietro disse:

    Eu fico me perguntando se há pessoas autossuficientes emocionalmente mesmo. Porque pra mim, de um jeito ou de outro, todo mundo é carente. Falam-se que não se pode depender das pessoas para sermos felizes. Ok, compreendo e concordo. Mas a família da gente, as rodinhas de amigos, as fastfodas dos aplicativos, o “pau amigo” são o que? Não são, de uma forma ou outra, laços afetivos?

    Olha, posso até tá falando asneira, sei lá. Só que acho muito difícil e triste viver a solidão ao pé na letra. E também muita pretensão e presunção com a vida pensar que não se depende de ninguém.

    1. minhavidagay disse:

      Uma dependência sempre há, Pietro. Somos seres essencialmente sociais. Mas buscar uma consciência de si, nessas relações, para um exercício de autoconhecimento, é o ponto central do texto.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.