Eu e meu pai

O pai e o filho gay

Faz tempo que não falo do meu velho e acho que o momento é oportuno para isso: há mais de 4 anos estabelecemos um equilíbrio em nossa relação, ciente de que carinho e afeto são sentimentos possíveis entre um pai e um filho gay.

Me expresso assim pois tenho a plena consciência de que uma grande maioria de filhos gays costumam a ter mais dificuldades de fluir os sentimentos com o (arquétipo) do pai. Os motivos para isso, sem entrar demais na discussão, talvez venha da ideia do machismo, do pai (homem) idealizar expectativas no filho (homem).

Independentemente das raízes dessa relação, filhos gays costumam ter mais dificuldades com o pai. Eis um fato acima de uma média geral.

Papai demorou 10 anos para se conformar com a ideia de eu ser gay. Posso dizer que, hoje, ele transita entre aceitar, se conformar e desgostar, na medida de seu humor que é algo muito particular e é assim para qualquer assunto.

Na relação “pai e filho”, algo que foi tumultuado, tenso e conflituoso na maior parte de minha relação com ele, estamos muitíssimos bem hoje em dia. E afirmo também que tantos atritos antecederam anos-luz o fato da minha homossexualidade.

Do tempo que me entendo como gente (talvez 8 anos?) até o início dos meus 30, vivíamos em embates. Valores e forma de enxergar o mundo muitíssimos diferentes, mas uma personalidade intensa na mesma proporção, eu Áries, ele Escorpião: era conflito todas as semanas, da minha pré-adolescência aos meus 33 anos. Mamãe foi cabo-de-guerra entre nós por todo esse tempo e, reforço, anteriormente a ciência da minha homossexualidade.

Aos 34 anos a história começou a mudar. De tantas brigas, tantas discussões e ameaças de expulsões, papai e eu fomos ficando menos rígidos. A medida que fui me resolvendo (por dentro e me descolando de suas idealizações sobre mim), com muita terapia, fui aprendendo a deixar de enfrentá-lo e passei a buscar formas alternativas de lidar com aquele seu jeito grosseiro e irritadiço que outrora me contaminava, na mesma proporção, de grosseria e irritação. Hoje, tenho a satisfação (e até orgulho) de ser a pessoa que ele mais respeita dentro de casa (rs). Continua daquele jeito autoritário e impulsivamente estúpido com a minha mãe e com meu irmão (que a bem da verdade, ambos permitem assim). E comigo, que sempre fui o “petulante” e “porra louca” da história, me trata de um jeito diferenciado, que é nada mais, nada menos, que tratar com a educação básica (rs). Sempre precisei pouco dele, mas para isso tive que brigar muito!

Papai é um senhor de 75 anos, super infantil na maneira de se comportar. Não mudou, depois de todo esse tempo! É controlador, possessivo e mandão para quem tem intimidade. Se não acontecem as coisas do jeito que quer, bate pé igual criança. Faz birra e da chilique, dentro ou fora de casa. Para pessoas desconhecidas que passam a mão em sua cabeça, trata com docilidade. Para desconhecidos que o tratam mais ou menos, vai criticar à família até a última gota! (rs). Costumo dizer que ele foi um rei arrogante e cruel na vida passada, maltratando seus súditos e desdenhando de seu reinado. Voltou como um japonês classe média e brasileiro para aprender algo sobre isso.

Antigamente, via meu pai como um ser malvado e eu era sempre vítima de suas sentenças e agressividade. Estava bem longe do meu ideal de pai e, nesse tipo de relação, eu “perdi” um tempo procurando esse ideal em algum outro lugar. Sofria por ele não ser meu “super-homem”.

Hoje, pasmem, tenho um grande afeto por essa criança que bobeou em algumas esquinas, procrastinou em amadurecer certas emoções e ficou como menino-mimado até hoje.

Nos perdoamos faz um tempo e, para minha felicidade, em vida! Reencarnar para te-lo de novo como pai, nunca mais (RISOS).

3 comentários Adicione o seu

  1. Daniel disse:

    Minha relação com meu pai é exatamente da mesma maneira, eu tenho 18 anos ele tem 46, e basicamente desde a minha infância nós sempre fomos pontos de extremos super opostos, era uma discussão a cada semana, os dois de gênio forte, minha mãe como ponto de equilíbrio entre nós, e basicamente tudo isso que você ja disse. Hoje a gente se da bem e tal, eu aprendi a lidar com ele, e acho que ele aprendeu a lidar comigo também. E apesar de não ver ele como o bicho de sete cabeças que eu via, aquela parte das expectativas é a unica coisa que estava me impedindo de sair do armário (lol).
    É uma preocupação meio boba mas eu to me desprendendo dela, ja me decidi que vou fazer isso ainda esse ano. To relativamente confiante e se der alguma coisa de errado, nada que o tempo não cure né?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Daniel! Realmente… Nada como o tempo para não curar. Busque respeitar o tempo dele para aceitar/se conformar.

  2. Não vi nem um insert tipo pai e filho gays. Já é para irem se preparando porque existemais lado escuro no dia que a escurão da noite pode se orgulhar. Já que se abri a questão que se esclareça de vez, e acredita-se que não convém. Oras!

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