Eu quero é leveza

Desde que a nova equipe se estabeleceu na minha empresa, tenho destinado uma energia extra para orientá-los, treiná-los e, de comum a todos, as novas pessoas se acostumarem umas as outras. Tais processos são naturais, humanos e não seriam diferentes no universo profissional.

Tudo tem fluído bem, notando nuances aqui e ali, ajustes acolá e uma energia para orientar as novas pessoas para os objetivos de negócio. No final, tudo depende de uma segurança de mão dupla, e assim se faz os relacionamentos (afetivos e profissionais) desde que se configurou os modelos de mercado, trocas e etc.

Com tanta energia extra focada a minha empresa novamente, e com atenção redobrada para melhorias com a nova equipe – notando os potenciais individuais de cada um que forma a empresa -, meus finais de semana e as horas livres estão necessariamente destinados à situações leves, com menos intensidade. É como se fosse um balanço para equilibrar a minha energia e começar tudo outra vez durante a semana.

Tenho recusado convites e situações nos quais um amigo me recorra para desabafos e conselhos. Em outras palavras, certa “função MVG” anda em baixa, meu ombro amigo está encolhido e se existem demandas ou crises existenciais, são as minhas que eu esparramo comigo mesmo e com a minha terapeuta.

É uma fase, certamente, já que a minha característica de mentoria ronda a minha vida 360 graus; faz parte da persona. Mas como tal energia está focada no trabalho, não cabe e não tem espaço para dar muitos ouvidos para as necessidades e dilemas alheios. Tenho feito cortes nas pessoas, dos finos, elegantes e sinceros aos rigorosos, dependendo exclusivamente de como, de qual forma e qual intensidade alguns amigos me recorrem. Preciso sim desse tempo.

Passei anos curtindo tal função acolhedora, quiçá altruísta já que não esperei algo em troca. Mas a minha vida simplesmente me colocou em condições (sem que eu pudesse ter nenhum controle) de eu olhar para mim mesmo, minhas questões, meus dilemas e que me forçou revisitar partes de mim que poderiam despertar certo desespero. Desespero de saber que em determinadas situações eu não gosto de mim. Autoconhecimento.

Nessas revisitas, o fato de eu ser gay me passa distante, resolvido, como o meu ser – ser gay -, já estivesse todo traçado, vivido, conhecido e reconhecido. Ou seja, não me traz questões, nem deslumbramentos e tampouco inseguranças comuns em processos de autoaceitação.

Meus pais estão envelhecendo e tal situação, naturalmente, acontecerá para todos que aqui percorrem os olhos. Em setembro viajarei para NYC, com a certeza de levar a minha mãe e aquele meu amigo, cuja amizade ultrapassou os 22 anos e que talvez saiba mais de mim, só menos que a minha própria mãe. Ele teve câncer umas quatro vezes na vida e continua firme. Por um lado, mamãe chorou de emoção quando eu me dispus a pagar parte de sua aventura, provavelmente por sentir que seu filho mais velho abriu uma brecha em sua vida para estar com ela numa “super viagem” exclusiva, que eu faria apenas com alguém muito importante para mim. Por outro, levo um amigo que nunca saiu do território brasileiro. Pouco fala inglês e que, depois de ter passado por uma temível doença algumas vezes na vida, terá a oportunidade de romper fronteiras comigo. Até parece que estou sendo altruísta com esses gestos, contrariando meu discurso do começo do post. Mas não: ir exatamente com essas duas pessoas para tal lugar, NYC, é estabelecer um contato íntimo e pleno comigo mesmo, com ambos indivíduos que mais me conhecem fora eu mesmo, na cidade que me apaixonei desde a primeira vez.

Tenho olhado para os aplicativos e para a minha “pequena” lista de contatos no Whatsapp, estabelecidos nesses meses de vida solteira. Vejo dezenas de gays, cada um manifestando seu jeito de ser e de ver o mundo. Com alguns eu transei, com outros estabeleci um começo de amizade e, com outros nem cheguei a estabelecer um contato pessoal. Essa fase, do fervor de uma “função” para ter companhia ou uma foda nas horas vagas, passou. Deve voltar, assim como esse momento tranquilo se estabeleceu de novo. E esse ritmo, de fases, me lança para fora de um caldo de hipocrisia e me legitima como ser humano, mesmo sabendo que meus extremos, as vistas alheias, pareçam ser tão antagônicos ou sujeitos às “críticas das caixinhas” (carolas VS. putas).

Enquanto isso, tenho estabelecido contato com dois ou três deles que se mostraram dispostos a criar situações nos finais de semana sem intenções sexuais ou afetivas. Todos numa mesma frequência que a minha: vida diurna, restaurantes, caminhadas e conversas boas com pausas longas de silêncio. Estão acima dos 30 anos, numa tentativa consciente de minha parte de ver se me pego atraído por um cara mais maduro ou, que tenha uma idade próxima a minha.

Alguns dos jovens que se dispõem na lista, carregam aquela jovialidade bonita de se ver, das expectativas e do depósito de esperança de viver muitas coisas que não se viveu, notando um cara de 38 anos como um “mar de experiências e segurança”. Para eles, tenho falado algo de diversas formas diferentes: “eu sou menos da metade do que você pode esperar. Me tire do pedestal”.

Se nesse contexto todo, me faz falta um cobertor de orelha? Faz sim, principalmente para alguém que esteve acostumado com um durante tantos anos. Mas quando me deito numa noite de uma segunda-feira, como hoje, olho para as coisas do celular, desligo a telinha e me ponho sozinho na imensidão da minha cama, as fantasias por alguém não tem cor de cabelo, de olhos, de pele, nem tipo físico. Não existe o desespero ou amargor por não ter alguém. Tampouco não estou numa função de criar situação, a todo momento livre, para passar meu tempo na cia de alguém, de amigos ou de uma pessoa que complemente o meu “vazio”. É a primeira vez que tenho consciência que, nesse vazio, eu estou muito mais conectado comigo mesmo.

E para quebrar um pouco do glamour do texto, na falta de sexo, punheta.

E esse cobertor de orelha? Ah, há de ser bem diferente de todos que conheci! Não porque eles não prestaram ou porque estou fazendo pouco caso, quase arrogante, naquele velho clichê bobo de que “quem escolhe muito acaba sozinho” ou “cuspindo no próprio prato em que comeu”. Mas porque eu tenho mudado bastante e relacionamento para mim, hoje, precisa entrar em outro lugar na minha vida, diferente dos lugares que, repetidamente, o coloquei.

É muito provável que esse texto não faça nenhum sentido para quem está começando a vida gay agora, seja com 18 ou 50 anos. Mas cá está para aqueles que se identificam.

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