Faroeste Brasileiro

Personagem 1 – O homem do povo

Há aproximadamente um década atrás concluiu-se uma epopeia do “homem do povo”, digno das projeções de Glauber Rocha. Um cara humilde, semi-alfabetizado, operário e pobre construia sua carreira política enfrentando o preconceito e certa marginalização. Lembro da minha mãe comentar algumas vezes: “não dá pra votar no Lula. O homem nem sabe falar português direito” – vindo de uma professora da língua, tal colocação seria dobradamente legítima, pelo menos naquele tempo em que selecionávamos nossos líderes por, no mínimo, ter autonomia da própria língua.

No começo da década de 90, ele perdia a eleição para seu opositor, de uma classe intelectual embora professor de sociologia. O Fernando Henrique foi Ministro da Fazenda na gestão anterior e junto com sua equipe de economistas, trouxe a URV que, depois, se tornaria o Real. A tão sonhada estabilidade econômica, que era desejo para os brasileiros que tinham alguma consciência naquela época, se realizava. Dificilmente o homem do povo ganharia aquelas eleições. Antes de qualquer avanço social, o brasileiro precisava de um “chão firme” para se estabelecer. E foi o que aconteceu.

Mas o homem do povo, depois de muito batalhar, conseguiu alcançar o estandarte. Votei nele no ano em que foi eleito e pude dividir um pouco daquele sentimento, praticamente romanceado, de um brasileiro das camadas mais baixas alcançar o cargo de maior representatividade para o país. A população saiu as ruas! Lula tornava-se o presidente do Brasil!

Embora o segundo mandato do FHC tenha deixado a desejar, os alicerces econômicos estavam firmes e estabelecidos. Não fui daqueles que desdenhou o homem, mas havia uma energia social explodindo e o Lula era o cara para conduzir aquela fase do país. Já estava mais “esperto”, aprendia a elaborar mais suas frases e se rendeu a planos de marketing político do Duda Mendonça que num futuro tornaria-se seu amigo.

Lembro de ter lido nas páginas amarelas da Veja – que naquela época não tinha esse repúdio juvenil e reacionário – uma entrevista do Fernando Henrique, um ou dois anos depois, na primeira gestão do Luiz Inácio. Ele deixava bem claro como sociólogo, intelectual e estrategista como era, que o Lula seria uma consequência inevitável para o Brasil que havia se estabelecido. E realmente eu concordava com aquela reflexão. Eram os tempos certos para o investimento no social, quase que uma consequência óbvia, depois que a economia do Brasil encontrava-se estabilizada: se estava entrando dinheiro com frequência, se estávamos livres da pavorosa inflação e se as finanças mantinham-se organizadas, era hora de distribuir renda e benefícios de uma maneira mais igualitária.

O homem do povo, líder carismático que era, seguiu seu percurso como o homem de toda uma nação. Mas as vistas alheias, ao mesmo tempo em que o movimento social se estabelecia por meio de sua gestão, nos bastidores, uma máquina de interesses de poder – um verdadeiro emaranhado de alianças estranhas – eram igualmente entrelaçadas. O tempo passaria e, em tempos atuais, a mídia daria a esse emaranhado de interesses o nome de Lulopetismo. O poder também subiu a cabeça daquele homem que outrora era humilde, honesto e que, numa primeira instância, recusou os préstimos do marqueteiro que viraria seu amigo. Quem poderia imaginar que Luiz Inácio se perderia em meio a um mar de corrupção sob suas literais barbas? Mas para perpetuar seu legado, garantindo seu status, trouxe a frente uma mulher, sua esperança para manter os modelos estabelecidos, as alianças estranhas e seu legado.

Personagem 2 – A primeira mulher no poder

Com um teor tanto quanto romanceado pelo povo, Luiz Inácio passou seu cajado para sua cria. De conceito altamente popular, a liderança de uma mulher mexia com o imaginário emocional da população brasileira, principalmente em se tratando de alguém de aparente pulso firme, que se dizia de personalidade forte, autoritária e até mesmo masculina, e que – para completar o enredo – havia sofrido das angústias e traumas de uma ditadura militar. Atributos interessantes para formar uma heroína.

Já inserido no contexto do marketing político moderno, o Lula pediu ao amigo Duda Mendonça para alastrar os atributos feministas da mulher, da mãe, da herdeira legítima e genuína dele mesmo, que era pobre e que alcançou o estandarte anteriormente. A mulher forte que sobreviveu as torturas de uma ditadura. Assim, jogou-se em segundo plano a capacidade administrativa, estratégica e de liderança que um presidente deveria ter como regra em seu histórico profissional e lançou-se a frente o apelo emocional, da primeira mulher a liderar o país, da guerreira sobrevivente da ditadura, da mulher indicada pelo o homem do povo. Prato cheio, novamente, para as minorias. Quantos não votaram na Dilma por serem gays, minoria e feministas, desprezando uma reflexão mais ampla focada em questões estruturais? Não acho que a desculpa óbvia da Dilma teria que ser o Aécio, não acho mesmo, mas realmente entendo que a presidente eleita nunca esteve preparada para comandar um navio com o mar revolto. E sabíamos que a tempestade viria, embora para uma maioria, tal tempestade era vista como um surto de pessimismo na época das últimas eleições.

Personagem 3 – O justiceiro

Ano que vem tem eleição para prefeitura. Aqui em São Paulo, nas prévias, dá Russomano e Datena quilômetros a frente de Marta e Haddad. Bruno Covas nem entra no mapa. Russomano e Datena são também o que a maioria espera para a cidade de São Paulo. É a vez, agora, dos justiceiros entrarem em cena, nesse faroeste que é o Brasil em pleno século XXI. O Haddad, coitado, conseguiu ganhar um altar daqueles jovens “neo-hippies”, fazendo ciclovias, lançando música ao longo da Avenida Paulista aos domingos e é tido como visionário por essa mesma juventude. Tentou trazer civilidade e cultura de maneira jovial e primeiro-mundista. Mas o que a grande maioria precisa, digo do paulistano que não é o jovem de classe média, é dar continuidade a essa saga romanceada que é o Brasil. São Paulo parece precisar de justiceiros, capazes de acabar com a violência, capazes de serem articuladores vorazes, radicais e tão populares quanto o homem do povo e a mulher no poder.

A democracia brasileira, seja as vistas da população ou do lado dos candidatos, carece ainda de personagens emblemáticos, símbolos ou ícones quase que extraídos de um conto de um livro envelhecido. Precisamos de heróis, heroínas e justiceiros. Conhecimento em administração, estratégias e planos não fazem parte de nossas preferências quando o assunto é política. Não conseguimos enxergar o Brasil, os estados e as cidades como “empresas” a serem conduzidas com planejamento, estratégias, estrutura e manutenção. Priorizamos ídolos que vendem uma ideia da solução quase que imediata, que nos pegam pelo coração e nos sugerem uma reviravolta digna de filmes.

Esse é o meu lugar que eu amo, esse é o meu lugar que eu odeio, onde “o bem e o mal”, fatalmente, vem e virão das mesmas personagens. Ainda precisamos acreditar em heróis e bandidos. Eu não, mas uma maioria.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.