Fora dos rótulos

Rotular e julgar são duas ações bastante convenientes e humanas. No ato do julgamento estamos impondo os limites da nossa “caixinha de valores”, por vezes muito limitadas. Fazemos isso a todo momento, principalmente quando determinado assunto ou contexto nos agride de alguma maneira. Quando agride, tendemos a nos apegar por uma definição rígida como justificativa.

Dentre tantos meios que existem por aí, baladas, bares, shoppings e chats (com e sem câmera), os aplicativos fazem parte hoje da normatividade hétero e gay. Entre os apps para o público gay, os mais conhecidos são: Grindr, Hornet e Scruff, sendo o primeiro o pioneiro do segmento.

Tais recursos beiram sempre a polêmica justamente porque, é por meio do celular, que os homens (gays, machos, bissexuais, g0ys e variantes) manifestam o desejo quase que exclusivo pela carne. Deixam bastante claro que a ideia principal que rola por lá é o sexo. Sexo pelo sexo. E nesse contexto que tantos outros gays idealizam o modelo mais romântico ou heteronormativo, que dizem transcender as necessidades fisiológicas, muita gente rotula os aplicativos como algo inútil, deplorável ou qualquer outro adjetivo excludente, como se o hábito de usar esses recursos não fizessem parte de certa normatividade gay.

A verdade é que ela faz e, a partir do seu surgimento, fará por longos anos, até que o próprio homem evolua para outras demandas, se isso realmente acontecer.

Por outro lado, mesmo com essa cisma de alguns gays em cotarem tais aplicativos como algo “podre”, conheço mais de um amigo que construiu os tidos “relacionamentos sérios” por meio de contato nesses apps. A outra verdade é que as pessoas que estão “dentro” dessas telas estão fora também e chega a ser absurdo fazer uma cisão, como se essas pessoas não existissem no mundo real. Elas existem sim, mas para a “tristeza” de muitos gays, tais caras permeiam aquelas outras variantes que exigem discrição e estão muito mais para a cultura heterossexual do que propriamente para a cultura gay.

A partir daí, o gay que não tem consciência ou não vê com naturalidade o contexto muito mais abrangente das sexualidades, tende a repudiar mesmo.

Todos os caras que ajudam a compor o cardápio dos aplicativos tem como finalidade um encontro real. Só que, sim, existe um fosso entre as fantasias pelo celular e a exposição cara a cara. Isso quase ninguém conta ou pensa a respeito. As vezes, conseguir um encontro com fulano do app parece tão difícil e processual como ter uma foda com uma mulher (os héteros que o digam sobre tal rótulo!). As vezes, o imediatismo do desejo bate e tudo acontece em minutos. E entre um caso e outro existe aquela liquidez de um número cada vez maior de opções, que deixa muita gente (1) assustada, (2) entediada, (3) perdida, (4) inconformada, (5) usada (6) entusiasmada e assim por diante, de acordo com o temperamento, personalidade, momento e paciência de cada um. Na maioria das vezes é um jogo, sim, de paciência. Pra mim, os que reclamam muito só não sabem jogar, ficando presos aos próprios ideais de comportamentos e pessoas. Nada mais do que isso.

No encontro real, colocaremos a prova a qualidade do sexo, o beijo, o tesão de pele e da conversa (quando se tem) e a química para ver o que será a partir dali. Alguns se contentarão com uma amizade colorida, outros podem até construir um relacionamento afetivo mas, uma grande maioria, terá apenas um ou dois encontros porque, a bem da verdade – seja por meio de aplicativos ou na tal vida real (a mim, tudo faz parte da mesma vida) -, a sintonia entre pessoas não acontece num estalar dos dedos, por mais que as nossas demandas careçam. Mas somos tão ansiosos e, por vezes, descontrolados, que gostaríamos que tudo saísse conforme as expectativas das emoções, dos desejos e das carências de nosso ego. No final, seja da maneira como entendemos, “do bem” ou do “do mal”, colocamos o outro como um objeto ideal de satisfação de nossas vontades. É o que esperamos.

Assim, num contexto onde as pessoas se mostram, em sua maioria, perfeitas ou perto dessa ideia, nos desumanizamos. E como quebrar essa fantasia? De fisionomias e corpos incríveis que se nutrem de um natural exibicionismo e narcisismo, tal qual os selfies (esses sim, curiosamente “aprovados” pela sociedade no geral)? Doa a quem doer, selfie no Facebook ou Instagram é a mesmíssima coisa que o narcisismo nos apps. Ou seja, somos mais “iguais” do que gostaríamos, todos necessitando de uma aprovação da imagem. A diferença é que nos aplicativos para o público gay estamos concorrendo entre desconhecidos. No Facebook ou Instagram as mesmas pessoas óbviais darão aquele tapinha em nosso ego.

A única maneira de humanizar o outro é nos humanizando. Segue aqui alguns exemplos dessas experiências e referências, pessoais, para que a gente tire um pouco o mito ou reveja um pouco os rótulos dos aplicativos:

dialogo_hornet

conversa_grindr

 

9 comentários Adicione o seu

  1. Arthur Ribas disse:

    Adorei este post, ilustra bem a fase que estou vivendo agora. Como me mantenho fora de baladas e bares, me restam os apps e chats da vida. A gente coloca muita expectativa nesses meios de encontro, e depois que rola alguma coisa (quando rola), a gente (ou eu, pelo menos) se sente meio vazio. Hoje mesmo me encontrei com um cara que conheci pelo chat. Não botei fé numa relação duradoura, que é o que venho procurado, mas mesmo assim eu fui. Por que? Não sei explicar, algo no subconsciente me impeliu a isso. É claro que sabendo o que sei, não sairei com este cara específico novamente, já fiz isso várias vezes. Eu creio que dá pra encontrar o dito “relacionamento sério” nesse apps, mas tem que ter muita paciência e perseverança. Acho que mesmo na “vida real” não é tão fácil pra alguém que vive fora dos rótulos e das caixinhas. Dá vontade de se desligar desse universo virtual, mas eu sei que pelo menos comigo isso não vai acontecer. Faz parte dessa minha vida gay (e de muitas outras vidas gay) e o lance é saber ir levando. :)

    1. minhavidagay disse:

      É isso aí, Arthur. Aplicativos fazem parte do grupo de meios para pessoas se conhecerem, incluindo gays. Já que você tem certas restrições para adentrar pessoalmente no meio, é inevitável saber dançar no esquema dos apps.

      Quem sabe, quando você se cansar mesmo, não parta por outras frentes? Acho muito válido se permitir, rompendo paradigmas.

      Um abraço,
      MVG

  2. Liori disse:

    “Fora dos rótulos”
    agora vc quer “humanizar” os pedaços de carne presentes no “cardápio” dos apps ?!
    LOL

    Na boa, confesso que nao gosto muito de vc (nao sei, talvez sejam suas opiniões, mas como cadastrei meu email pra receber postagens novas invariavelmente ou monotonamente uma ou outra acabo lendo)
    e sério cara vc é muito iludo (e narcisista tbm), vc acha o que? que vai arrumar casamento nesses apps?

    olha no seu post sobre o relacionamento aberto com seu ex-japinha ja sabia que ia acabar em merda! era visível. E utilizando da mesma percepção e analise pela forma que vc se descreve nos textos, escreve o que to te dizendo: você vai se decepcionar muito nesses apps. Conselho cuidado com a auto-estima.

    ps: gostava mais qnd vc falava sobre politica e economia. Romance agente ja viu que nao é seu forte

    1. minhavidagay disse:

      Olha, querido Liori… se você se incomoda com o teor desse texto, vai querer arremessar seu celular quando ler o próximo. ;)

      Fique ligado! :P

  3. Leandro disse:

    Já participei de todos os aplicativos citados no post. Eu já sabia da fama de todos eles e eu nem esperava encontrar um namorado sério. Como na época eu tinha acabado de perder a virgindade, tava a fim de experimentar mesmo. O máximo que eu consegui foi ficar três vezes com um mesmo rapaz. Só não rolou namoro pq faltou interesse dos dois lados. Na mesma época, consegui ficar com outros rapazes interessantes, mas chegou uma hora em que eu acabei cansando e saí de todos eles, Tinha dias que eu não conseguia nada! Entrava no app, tentava puxar papo com vários caras e nenhum deles se dignava a responder um “oi”. Não é nem questão de estar ou não estar interessado, é uma questão de educação! Seja onde eu for, eu procuro nunca deixar uma pessoa no vácuo, pq eu sei o quanto é chato isso. Além disso, os caras q eu encontrava só queriam sexo casual sem repetição, sendo que eu sempre gosto de repetir o sexo, exceto quando realmente eu não curto mesmo a transa. Enfim, eu saí e fiquei mais de um ano sem entrar em nenhum deles. Voltei no mês passado, em um momento em muita carência, mas não aguentei um dia! Sei lá, acho q tô preferindo ficar sozinho mesmo. Os homens não são fáceis!

    1. minhavidagay disse:

      O ser humano é complicado mesmo, Leandro!

  4. Sérgio disse:

    Seu comentário foi excelente e descreve a realidade que vivemos nos dias de hoje, pessoas altamente mecanizadas, robóticas e vivendo nas nuvens das ilusões.
    Você poderia reunir alguns grupos dar algumas palestras, seria ótimo, pois todos os temas abordados são de grande interesse.
    Tenho em mente uma dúvida, a que ponto está chegando a humanidade..??
    Abraços

  5. Miguel disse:

    É dificil, mais difícil ainda quando temos nossos modelos pré-concebidos restringindo o número de interesses, até aí normal, daí encontros e encontros acontecerão, em sua maioria será apenas sexo , nem conversa depois ainda acontecerá. Minha primeira vez foi com um cara do grindr, eu tinha todo o estigma de que primeiras vezes eram sempre ruins, afinal era o que todos diziam, e simplesmente não foi, há pessoas com talento para serem príncipes, mas esse não era meu príncipe, foi um príncipe que eu peguei, talvez seja o príncipe do meu eu futuro, contudo não no momento, ele tinha que viajar para a França por um ano, até continuei a conversar com ele até que chegou um momento em que vi que estávamos em sintonias diferentes e preferi não insistir mais, desejei boa viagem e segui com a minha vida. Voltei ao grindr, não mais procurando príncipes, apenas deixando em aberto, transei com outros e tudo mais, alguns até conheci melhor e cultivei amizades, mas relacionamento mesmo, não será com qualquer um, beleza é importante, todavia sintonia, aquela sensação estranha de que aquela pessoa está no mesmo momento da vida que você, momento este de conotação abstrata que não quer dizer idade, situação financeira ou profissional, apenas num sentido indescritível, mas que olhares não conseguem enganar, ilusão.

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