Ganbatte

Reflexões sobre modos e cultura japonesa

Para além das questões gays, andei tecendo muitas críticas e reflexões a respeito da cultura latina que é predominante e dita a normatividade no Brasil. Ando de saco cheio, já que é essa cultura que reverbera todos os dias, ainda mais polarizada do jeito que está.

Preguiça.

Talvez, em algum nível e por muitos anos a frente, haverá um limite mais claro e determinado entre culturas em nosso país e não somente com os negros, que é assunto famigerado por imprimir contornos claros e resistentes desde a época da escravidão, mas com os orientais também, em outros aspectos.

É notório que para a maioria branca, ou parda, ou até mesmo negra, a cultura oriental – e me refiro a japonesa neste caso, é compreendida – hoje – por meio da culinária, animes, games e, um pouco mais fracionado, a música.

Podemos considerar estes, como campos de entretenimento e diversão que não esclarece ou não traz à tona, propriamente, modos e hábitos do cotidiano social do brasileiro descendente de japonês.

Mas ainda é muito pouco por, talvez, o descendente de japoneses carregar uma natureza cultural de reservas, muitas vezes água e óleo em relação ao latino-pardo-negro.

Modos e hábitos japoneses

Estive ontem na Liberdade com meu namorado, fomos jantar no Espaço Kazu e o assunto veio da minha parte: “na sua percepção, apesar de eu ser brasileiro, quais características ou modos eu tenho que são nítidos de um japonês?”.

Ele, que desde muito jovem se envolveu com os entretenimentos citados (animes, culinária, música e games) mas que, também, trabalhou sempre com pessoas ou chefes de origem japonesa, vira uma referência para mim que, a bem da verdade, não fui educado pelos meus pais ou estimulado por eles para conviver a maior parte do tempo com outros japoneses – pelo contrário – e, assim, não sei quando apresento um comportamento mais de origem ou quando apresento modos mais brasileiros.

Viver e conviver com japoneses todos os dias faz a diferença e, a partir daí, meu namorado passa a ter um critério mais claro. Ainda mais sendo educador. Ele é descendente de espanhóis, ingleses e africanos.

A partir daqui, o julgamento de melhor ou pior, de superioridade ou inferioridade parte exclusivamente do leitor:

O primeiro ponto que ele me trouxe e que a mim é nítido são os hábitos em locais públicos. O restaurante estava cheio e predominantemente com famílias japonesas. Eu e ele conseguíamos conversar sem grandes esforços e nem precisávamos elevar a voz para nos compreender. Os japoneses (ao contrário dos chineses) falam mais baixo em locais públicos, não há aquela sinfonia de talheres, nem risadas ou vozes aleatórias completando o coro.

Achei engraçado pois é isso mesmo e já tinha reparado muitas vezes, mas não me lembrava. O ser cordial, no geral, “fala alto mesmo” e parece que cada vez mais. Não vou ao litoral em temporada há anos, mas parece que – hoje – as pessoas competem som em seus guardassóis com seus autofalantes bluetooth.

A mim, uma lástima, principalmente nos aspectos que atingem a natureza.

O segundo ponto levantado por meu namorado é que, para entrar ainda mais em concordância com a minha impressão do ser cordial, as pessoas no geral se relacionam para desabafar ou falar da vida alheia. O oriental não está isento dessa característica de Homo Sapiens, visto que meu pai – por exemplo – tem fortes tendências a falar de terceiros ou quartos que eu mal conheço.

Conversar-desabafando, então, nem se fala! (RISOS)

Mas, por exemplo, quando estou com a minha mãe, falo sobre a minha vida, ela fala sobre a vida dela e conversamos sobre as humanidades no geral, sem dar muitos nomes, sem aquele peso do desabafo, como se a vida estivesse pesada e, esse peso, precisasse ser compartilhado com um terceiro pois o indivíduo não está se aguentando.

Ganbatte!

Um terceiro ponto que meu namorado reforçou é que a cultura do “ganbatte” é muito predominante na maior parte do tempo do cotidiano do japonês e muito predominante em mim. “Ganbatte” em tradução livre, nada mais é do que “esforce-se” ou “coragem!”.

Esse valor ou modo está, realmente, bastante internalizado em mim e acho que transpiro esse jeito de diversas maneiras aqui, no Blog Minha Vida Gay. Quem “ganbatte”, está condicionado – desde pequeno – ao exercício da superação, a agir, a aprender a levantar, a tomar as rédeas e buscar uma construção do sentido de autoria da própria vida a partir do esforço próprio.

Pelo menos, foi por esses caminhos que a ideia do “ganbatte” me conduziu, particularmente.

E, acima de tudo, descobrir e redescobrir o prazer que há na prática do ganbatte. Se há prazer, me refiro, basicamente, a esse sentido etéreo que é a felicidade.

O latino tende a aplicar esses valores no esteriótipo do “macho-alfa” e a mulher não é dotada dessas características. Na cultura japonesa, todos – homens, mulheres e especialmente enquanto crianças – devem incorporar esses valores em exercícios constantes de superação de obstáculos da vida. E tais valores passam bem longe de qualquer juízo de valor de gênero.

Afeitos a esportes, possivelmente, me entenderão com nitidez.

Mundo cor-de-rosa

Penso que muito do “mundo cor-de-rosa” que tantos amigos (curiosamente latinos/ocidentais) criticaram ou criticam venha dessa cultura que eu transpiro. E estou conseguindo compreender somente agora.

Eu não deixo a peteca cair e não me rendo a compulsivos desabafos quando as coisas não vão bem. O mal estar da vida, eu resolvo escrevendo, cantando, cuidado das plantas e indo à academia. Não acho certo tratar a orelha do outro como latrina e é assim que entendo as pessoas que me trazem compulsivos desabafos.

Eu adoro trabalhar (e não vejo trabalho como uma obrigação que pesa; este seria até mesmo um quarto ponto pois muitos seres cordiais sentem um peso de obrigação no trabalho).

Eu vou a fundo em tudo que me proponho e se, por exemplo, eu cozinho bem, minhas plantas estão vívidas e bonitas, o Blog Minha Viga Gay está repleto de conceitos e conteúdos, eu canto bem e, ainda, comando uma empresa há 18 anos, é porque os resultados e conquistas a partir do envolvimento com o caminho (sem objetivar a finalidade de modo fácil, de mão beijada), a partir da prática do esforço, me gera prazer.

No caminho estão estudos, práticas, técnicas, repetição, mais estudos, mais práticas, mais técnicas repetidas vezes para chegar em algum resultado.

Talvez, a partir dos relatos do meu próprio namorado (estamos há quase dois anos e esse fator é relevante) a cultura do ganbatte seja um dos mais evidentes, particularmente, que trago das minhas raízes japonesas.

Cooperação e ordem

Um quinto ponto que merece destaque é um espírito de cooperação e ordem. Muitos latinos-cordiais confundem certo cooperativismo japonês com machismo: no sentido heterossexual da palavra, em um ambiente familiar heteronormativo, homem e mulher (ou esposa e marido) batalham para manter a estrutura familiar equilibrada, com dinheiro poupado, comida na mesa, roupa para se vestir e o mínimo de conforto para, quando der, uma regalia ou outra.

A regalia ou outra virá sempre como consequência, quando for possível. E, quando possível, muito internalizada. Mas mediante ao cumprimento dos deveres antes. Nessa ordem, no geral.

Por vezes, a mulher cuida de casa e o homem traz o sustento financeiro com o trabalho. Mas quem dá a ordem e destino à grana é, normalmente, a mulher. Focam (severamente) nos estudos dos filhos e na emancipação financeira e material dos mesmos e tendem a creditar o papel de cuidado, quando estiverem mais idosos, ao filho mais velho.

Esse aspecto cooperativo, que é ainda muito evidente entre os descendentes japoneses residentes no Brasil, talvez não se aplique mais a casais jovens de Tóquio, por exemplo. Tais contornos são bastante conservadores e que se perpetuam por aqui, mas, a cultura de cooperação é quase que nítida e imediata para quem se presta a notar essas nunances: no tsunami de 11 de março de 2011 no Japão, foi quase que instantâneo a ordem e o sentido cooperativo para reestabelecer as regiões afetadas.

Em um ano estava tudo reestabelecido.

Na intimidade, meu namorado fala que eu trouxe esse sentido em pequenos detalhes do dia-a-dia: alguém cozinha, outro lava a louça. Se suja algo, limpa para o próximo, se usa o banheiro, deixa organizado para o próximo, se usa a máquina de café, joga fora a cápsula para o próximo usar. E assim por diante. Um ajuda a manter pelo outro e assim sucessivamente, para que o ambiente, de uso em comum, se perpetue “positivo, em ordem e organizado” para o próximo.

Na cultura em que eu me criei, lavar a louça não é coisa de mulher, enquanto o homem espera ser servido de ponta-a-ponta. Essa representação de gênero, talvez, seja menos relevante do que o sentido cooperativo, de deixar a situação em ordem para o próximo.

No Japão, em tempos atuais, não existem garçons nos restaurantes. Assim, sobre cada mesa fica um pano tipo “perflex” para que o cliente que esteja terminando limpe a mesa para o próximo cliente e, assim, sucessivamente.

Organização e positividade se interseccionam e parece que agora o latino-cordial começa a compreender essa ideia.

***

Meu sócio, um dos mais típicos brasileiros-latinos-cordiais que eu conheço (e que convivo de segunda a sexta!), que toda semana tem algum ímpeto passional na fala, que vive altos e baixos emocionais constantes (as vezes chega na empresa com um mau humor que só por Deus!), adora fofocar (RISOS) e se eu der brecha conversa-desabafando a toda hora, namorou por anos uma amiga minha, descendente de japoneses.

Ele aprendeu muito dessa ideia colaborativa nos pequenos gestos do espaço compartilhado: fumante nato, faz questão de deixar o cinzeiro de estimação sempre limpo ao ir embora da empresa. Eu reparo nesse gesto e isso me gera um prazer, quando noto.

Em termos de ordem, ele tem um chão pela frente, quanto a própria vida. Por mais que confrontemos nossas diferenças no cotidiano, sei que ele se inspira para chegar em algo próximo ao que eu faço da minha vida, ordenada.

Por fim, mais de gambatte!

Na cultura do gambatte, o fatalismo cristão e o espírito cordial não têm muito espaço. Se eu sou a pessoa que precisa batalhar e me esforçar para encontrar o prazer da superação e de conquistas, em diversos aspectos da vida (se não todos), fica muito (muito mesmo) distante a crença de que um terceiro, representante (hoje Bolsonaro, ontem Lula) ou Deus são tão importantes ou relevantes assim para fazer por mim, para meu bem ou para meu mal.

Acreditar em Deus e carregar consigo a espiritualidade, é diferente de achar que estamos fadados a seres ou líderes “super-poderosos”.

Ainda neste sentido de espiritualismo, eu confio bastante na lei do retorno. Haja positivamente ou negativamente que o Universo recompensará com as mesmas cores. Deixe de agir e aguarde e o Universo vai deixar o indivíduo sentado e esperando.

Ao finalizar esse post de hoje, ficou bastante claro – a mim – de onde se originou a ideia de autoria da própria vida que tanto busco transmitir por aqui e que, durante os anos, foi se refinando por meio de terapia, Coaching, exercícios físicos, dieta, leituras, viagens entre outras buscas pessoais.

***

Torço para que você não termine esse texto achando que a ideia aqui foi de enaltecer a minha cultura japonesa. Mas se você terminou o texto com essa sensação, possivelmente, sua natureza latina-cordial faz você se sentir inferiorizado.

O latino-cordial tem uma maior incidência a carência, sendo carência a manifestação da dependência do outro (seja em atitudes, gestos ou opiniões). Existe, assim, muita expectativa depositada em terceiros.

O que não quer dizer que não seja possível mudar, quem estiver a fim.

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