Gay, brasileiro e descendente de japoneses

Daqui, desse ponto de vista

Gay, brasileiro e descendente de japoneses. Talvez, muito menos pela influência de ser gay, mas por ser brasileiro de descendência de japoneses, minha mente tem pairado em pensamentos sobre a nossa sociedade.

Pulei das trivialidades e questões relacionadas ao público gay para algo que, pelo menos no meu imaginário, é mais abrangente. Quem acompanha o Minha Vida Gay, tem percebido esse processo de evolução ou involução (RISOS).

E claro que a grande temática, a partir de muita leitura e observação, é entender por quais motivos a nossa população – a partir da democracia, que a mim é uma força positiva inquestionável ontem e hoje – escolheu um indivíduo como tal, como o nosso presidente.

Daqui, desse meu ponto de vista (assumindo, aqui, conscientemente, um pouco mais da educação, cultura e raízes de origem japonesa), o povo que escolheu as representações do PT, num passado próximo, é o mesmo que escolheu o atual, para se posicionar na cadeira mais emblemática, que é a da presidência do país.

Esse emblema, contornos, formas e sentidos da posição de um presidente no Brasil são doados pelo próprio povo brasileiro. Ninguém mais.

Sem méritos ou deméritos

Não carregar nas entranhas (diga-se DNA também) a forte influência cultural latina não me traz propriamente méritos ou deméritos (a não ser para um terceiro que, hipoteticamente, possa julgar a partir das minhas ações). Mas me permite, com consciência (a que eu tenho, particularmente) a enxergar fora do “rolo psicológico” da maioria com mais nitidez.

Fora do rolo psicológico como alguém, cujos valores, posturas e visão, assume hoje (melhor) a base de formação na cultura japonesa e é “metido a botar para fora”, como um típico brasileiro (RISOS).

A grande questão, a partir desse meu olhar, é que para obtermos melhores representantes (e isso antecede Jair Bolsonaro) a qualidade da população deve mudar. Sim, qualidade da população. Seus valores, posturas, modos, hábitos, manias e maneiras.

Enfim, cultura e educação.

Ben zen

Certa vez, bem recentemente, um leitor comentou em um post sobre política, que eu andava “bem zen” diante das últimas declarações e posturas do atual presidente. E eu devia ter respondido assim: “Com certeza, bem zen! Afinal, não posso negar os valores da minha descendência que me influenciam nesse oceano de ações e reações latinas”.

Porque hoje (mais hoje do que ontem) me parece óbvio que os excessos da cultura latina, o excesso de coração, o excesso de emoção e o excesso de cordialidade, jogam – irremediavelmente – a população contra si.

Estou para ver um diálogo sobre política que termine em diálogo, seja em um grupo de classe média de executivos ou no boteco em frente da minha casa e a conversa não retroaja para algum ataque pessoal, para a ofensa e para certas discórdias-provocações que vão desde a exclusão de alguém no Facebook, a saída de um grupo do Whats ou a exclusão do indivíduo da vida. Vejam o drama: “a exclusão da pessoa da vida!”.

Ouvi muito disso nesses tempos… de descedentes de latinos, claro.

E o que é mais curioso é que o ser-latino-brasileiro acaba por autoafirmar esses gestos como algo grandioso, íntegro e legítimo. Principalmente quem se define de esquerda e, parece (repito, parece), tem um volume maior do pensar.

Sim, grandioso, íntegro e legítimo dentro de uma bolha latina, dos modos dessa cultura. Mas, certamente, passível de mudanças e revisões, se é que queremos – mesmo – governantes melhores.

Revisões

Na equação da sociedade-latina-brasileira-cordial, eu não vejo muita possibilidade de mudar a qualidade de um representante (hoje, um autocrata populista de direita, demônio para alguns e justiceiro para outros; ontem, um autocrata populista de esquerda, demônio para alguns e justiceiro para outros) se não modificarmos a qualidade desse coração brasileiro.

E quando digo qualidade, diz respeito ao recheio e não a forma.

O problema nunca será a ação com mais passionalidade ou com mais razão e a ideia não é descaracterizar a essência latina que aqui predomina, a mesma que em épocas boas se chama de “diversa” (positiva) e em épocas obscuras se chama de “incompatíveis” (negativa) e que – a mim – é a mesma coisa, só mudando o sentido conforme pulula a natureza latina, quando as coisas estão boas ou ruins.

Em outras palavras, não faz muito tempo atrás – quando a economia ia de vento e popa – a palavra “diversidade” explodia por aí em feitos e publicidade para enaltecer o ser brasileiro. Agora, com a economia abalada, o índice de desemprego alto e a desvalorização da nossa moeda, trocamos “diversidade” por “diferenças”. Mas essas, diversidade ou diferença sempre estiveram no mesmo lugar.

O anjo e o demônio é o mesmo, mas vai depender do estado de espírito do ser latino. Para um ser-japonês, como eu, sempre esteve no mesmo lugar, nem todo mar, nem todo deserto.

Para um gay, brasileiro e descendente de japoneses, minha percepção é nítida quanto a isso. Existe uma conveniência latina e, possivelmente, com fortes origens e raízes cristãs que dão tempero ao ser-latino desde os tempos mais remotos, mesmo quando – hoje – um indivíduo passa longe de qualquer templo ou igreja. Está enraizado, no subconsciente.

Como é possível o povo amado das épocas glórias de Luiz Inácio, ser objeto de ódio em questão de anos?

Só por Deus, sendo latino! /o\

Nem certo, nem errado

Daqui, desse ponto de vista, de um gay, brasileiro e descendente de japoneses, a conexão com um representante (para festejar ou sofrer) é igualmente uma característica latina.

Somente em países com essa origem as pessoas se prestam a ir para as ruas para celebrar a vitória de um presidente, fazer festa. Beber cerveja. Sujar as ruas. Sujar mais um pouco e ter serventes para limpar. Pirar o cabeção e chorar (isso mesmo, chorar) porque o ídolo venceu.

Foi assim com Lula, foi com Bolsonaro e, possivelmente, será com os próximos quatro ou cinco a frente pois, a força de vontade de mudança não parece ser uma característica que pulsa na cultura latina.

Gostoso é chorar pelo herói e, clamamos assim, por representantes autocratas, ou, semi-deuses. Ou semi-demônios. Vai depender, de novo, do olhar conveniente do latino: se o tal olhar por nós, felizes ficamos. Se ele soltar algum cuspe e respingar por aqui, ele é o bélzebu.

Pode ser uma grande piração da minha cabeça, afinal, esse ponto de vista não subentende somente acertos (japoneses matam baleias, se suicidam e tem dificuldades de tocar outras pessoas romaticamente), mas me parece que, depois que os romanos fizeram a devassa pelo mundo (os legítimos ancestrais dos latinos) e depois que os mesmos invadiram territórios como o Brasil, acabando com civilizações locais (me refiro aos navegantes portugueses e espanhóis, latinos e possivelmente a maioria dos leitores tem uma dessas descendências), o latino resolveu tirar as botas e sentar no sofazinho.

Lula ou Bolsonaro

A mim, duas faces da mesma moeda, frutos da nossa terra-brasilis. Filhos escolhidos pelo mesmo povo, das paixões, da cordialidade, do coração que precisa falar mais alto a todo momento porque se deixar de falar deprime.

Falar não… gritar! Gritar por representações autocratas que, no imaginário latino, transmutem para um Deus!

***

Se eu estou “bem zen” é porque eu não sou latino. E afirmo: consigo ser gay, brasileiro e descendente de japoneses não porque a cultura latina é afável e acolhedora. A bem da verdade, quando uma mulher-latina vai ao mercado e compra 20 sacos de arroz em época de paralisação de caminhoneiros, o fulano-latino para seu carro entre duas vagas de estacionamento, o cicrano-latino fura a fila e o beltrano-latino lança uma lata de cerveja pela janela, é o latino sendo latino: bem individualista: naquele momento conveniente a sua necessidade, o espaço público é dele.

O ser cordial está longe do senso desenvolvido de coletividade e cooperação (a polarização é outro exemplo transparente dessa falta e se você faz parte de uma das alas, não me venha com churumelas) e basta ver como se tem tratado nos últimos tempos.

Mas consigo ser gay, brasileiro, descendente de japoneses e estar bem com tudo isso nessa terra por, justamente, não ser latino e ter meus valores aplicados em meu entorno. Isso basta para quem não precisa usar megafone ou amarrar uma melancia no pescoço, simbolicamente.

O consolo ao brasileiro-latino é que existe pontecial! Aquele mesmo consolo que eu ouvia na minha infância nos anos 80.

PS: esse texto foi a minha maneira (mais uma) de me expressar contra essa pressão (ou terrorismo), ainda persistente e que “flutua pelo ar”, para eu tomar partido e me nivelar aos comportamentos comuns a polarização.

Dessa necessidade latina de querer apontar o dedo para a minha cara e dizer: “você também está nesse naufrágio”.

E estou, impossível não estar. Mas, primeiramente, não entendo como um naufrágio (não sou latino) e, se é para me impor nessa onda, o meu colete salva-vidas está no meu pescoço faz tempo. Japonês é preventivo. Mas não me refiro a uma prevenção material para os “anos obscuros”.

É uma prevenção moral mesmo.

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