O gay da direita

Agustin Fernandez talvez tenha sido o gay mais atuante a favor da direita, este que representou milhares de outros homossexuais de um novo grupo emergente que, até então, era improvável: o gay da direita.

Partindo da realidade de que o Minha Vida Gay aponta para o estranho, termo muito utilizado na Psicologia para caracterizar o que é diferente, inusitado e fora dos padrões e “caixinhas” que tanto foram referenciados por aqui, o gay da direita – talvez agora – seja um objeto mais compreensivo ao contexto ordinário.

A ordem ainda é está: gays são de esquerda e heterossexuais são de direita. Mas o fato, real, palpável e mensurável, a partir de Agustin Fernandez é que o gay da direta está entre nós e não vai conceder seu voto para a esquerda. Pleonasmo.

E o que fazer com isso?

O ordinário, a regra, a massa, tratará com a repulsa clássica pois a aparente ilógica ou falta de sentido repelem. Batalhamos tanto para aprender a lidar com nosso sentido de rejeição por sermos homossexuais numa ordem heterossexual para – num impulso atestado inclusive pela nossa confortável bolha – a nossa ordem rejeitar, negar, diminuir e excluir quem pensa diferente.

***

Ser gay da direta é como se fosse um movimento contra uma certa natureza de ordem e, ordem, representa uma maioria e, maioria, tende ao ordinário. Mediocre.

Mas depois de 7 anos levando a frente do Minha Vida Gay, por meio de experiências práticas pessoais e por meio dos mais variados relatos de homossexuais, trans, lésbicas, gouines, “brothers”, HSH, bissexuais, dentre outras particularizações que formam a matiz da sexualidade, caminhei por uma estrada que, se eu voltar, me traria um sentimento de retrocesso intelectual e sensorial. Uma estrada que, de fato, não tem volta.

Nem que eu quisesse, que não é o caso.

A partir da realidade adquirida e exercitada, transcender mentalmente as “caixinhas” se tornou hábito. Me arrancou, um pouco mais do que a média, da fraqueza do julgamento ao outro (não ao julgamento aos meus atos, que são altamente críticos). E, assim, é muito mais natural meu interesse ao estranho, sem perder meu senso dos limites sobre o que é um estupro em suas mais diferentes e assustadoras formas, da realização de atos com terceiros por intermédio da força, da covardia ou da manipulação.

Então, absorver um gay de direta, não quer dizer que eu tenha, propriamente, simpatia por seus pensamentos, mas muita curiosidade para entender seus sentidos.

E é assim que, nas minhas redes sociais, ao contrário de uma maioria, mantive bons relacionamentos com todas as alas, das extremas aos mais alheios. Só não continuou nas minhas redes quem, literalmente, não aguentou meus pensamentos expressos por lá. Quem comentava com a trivial provocação polarizada e não colhia a reação esperada. Esses me excluíram.

Foi por lá, nas eleições de 2018, que me dei a oportunidade de viver esse estranhamento perante o gay da direita. Eu, curioso, passei a seguir o Agustin Fernandez sem a onda “de querer saber as merdas que ele fala” ou “de querer elogiá-lo compulsoriamente por se tornar meu representante”.

Consigo identificar os ex-colegas das noitadas, dos meus tempos glórios de “sexo, drogas e pista”, entre outros gays que passaram a me seguir por motivos diversos e que se expressam abertamente favoráveis (ainda) ao atual governo de Jair Bolsonaro, dessa “nova” direita que até ontem era materializada pelo tucanato.

***

Um longo prefácio para dizer que, inicialmente, eles não me assustam. Eles não são necessariamente afeminados, masculinizados, não atuam em áreas profissionais específicas e tampouco pertecem a uma determinada casta social, nesta famigerada pirâmide brasileira.

Eles são explícitos como Agustin Fernandez ou anônimos como um dos colegas que está se especializando em Artes Cênicas fora do país.

Pode ser de Artes Cênicas e não ser de esquerda? Pode.

Pode ser também aquele outro colega que batalhou para conseguir o Green Card norteamericano e hoje atua como policial em Nova Iorque, toca diversos instrumentos musicais e fala três línguas.

Pode ser policial gay? Pode.

Ele é também aquele que resolveu sair do Brasil para conseguir pular para fora do armário, está estudando inglês na Austrália e exercendo sua sexualidade com a devida autonomia a qual, na sua crença mental fantástica, só funcionaria longe de tudo.

Precisa pular para outro continente para ser feliz? As vezes precisa e precisa de bastante descolamento, outra característica que me desperta a curiosidade.

Ele é também um dos meus ex-namorados que voltou do Japão recentemente. Estava por lá a trabalho e, embora tenha votado no Bolsonaro, política não é um dos seus assuntos favoritos.

Pode ser gay de direita e não querer falar de política? Vejam só, também pode!

Ele é um conhecido que veio de um outro aplicativo, nada correlato a pegação, é Pernambucano e de classe menos favorecida. Canta lindamente.

Pode ser de um extrato menos favorecido? Pode.

Todos eles, pertencentes a um grupo composto por milhares de outros, fazem igualmente parte de uma pluralidade, do estranho, dessa diversidade que dá contornos à humanidade.

Então, a mim, fica mais uma vez a certeza de que minhas escolhas fizeram eu trilhar um caminho sem volta. Da curiosidade pelo desconhecido e do interesse pelo diferente (estranho). Por mais que alguns teimem, imersos a cultura da polarização que nos impregna sem notar, este post não é uma ode ao gay de direita, mas apenas a confirmação de que eles existem, podem estar arrependidos ou não pelo governo ao qual concederam o voto e que vamos nos esbarrar mais de uma vez pela vida.

E está tudo bem. Pelo menos para mim que enxergo as coisas do “lugar” onde eu cheguei. Pior do que um indivíduo de esquerda ou direita, que muitas vezes estupra o outro pela ausência absoluta de empatia, é o julgamento.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.