Aprendizado aos 42 anos

Gay japonês – tempos de resgate daquilo que nunca fui atrás

Aprendizado aos 42 anos e quem fala é um gay japonês: ando com certa “compulsividade” por trazer conteúdos e reflexões sobre a cultura japonesa e, me antecipando (acho essa próxima autoafirmação importante para quem lê), a ideia não é ficar enchendo de vanglórias uma cultura mas, se assim o leitor permitir, trazer referências “externas” ou um tanto desconhecidas e que – no meu olhar de ser social e político – ajudam a nós, brasileiros, a entender porque nosso país se configura da maneira que o reconhecemos hoje.

Olhar para a cultura japonesa é olhar para partes de mim pela primeira vez com outros olhos. Fui daqueles descendentes de japoneses, gay e nascido no Brasil, que durante toda minha formação e relações sociais carreguei uma postura preconceituoso e reativa contra a própria cultura japonesa (e digo japonesa mesmo porque, quando refere-se a cultura oriental, japoneses, chineses e coreanos são bastante distintos!).

Neguei a cultura porque foi a forma que as brincadeiras do “olho puxado”, “filho do pasteleiro”, “come de palitinho”, “pau pequeno”, “cdf” entre os diversos outros que eu ouvia até uns 30 anos (coisa da minha geração, pelo menos) reverberaram no jovem, pré-adolescente, adolescente e pós-adolescente – gay – que não queria ser estranho a maioria e queria fazer parte do “mesmo lugar de todo mundo”.

Como abandonar a pequenez?

Fui me tornar um cara de humanas. Tenho diploma de comunicação social e tenho uma empresa, o que pressupõe (invariavelmente) uma capacidade mínima de comunicação, exposição e persuasão para atrair parceiros e clientes. Japonês consegue isso?

Sou vaidoso, cuido da minha alimentação e malho toda semana. Tenho plena clareza (e o Smule Sing utilizado com vídeo é, também, um ótimo exercício para isso) da minha auto-imagem e da reação perante a minha estética. Japonês pode ser bonito?

Praticamente na totalidade, mantive amizades com ocidentais para, talvez, não lembrar que eu era japonês!

Mas mais do que esses valores superficiais-estéticos, durante a minha juventude, compulsivamente, para superar certa deficiência por ser japonês em um cenário de maioria latina-negra-parda, fui preencher meu “fosso imaginário” com milhares de músicas brasileiras: de Antonio Carlos Jobim à Zé Ramalho.

Não saberia que, com eles, aprenderia a ser brasileiro (embora sempre fosse), do swing sofisticado da bossa, do gingado do samba do Chico, mas como também das vivências remotas a minha realidade como em “Meu Guri”, das loucuras da vida de Rita Lee, da nordestinidade de Geraldo Azevedo e das intensidades de Elis Regina. Tremenda brasileira.

Gay japonês conhece bossa nova e música brasileira?

A mim, então, com um sopro divino (e algum sofrimento), a sensação de ser “menor” do que os outros brasileiros por ser japonês, me levou para caminhos que eu, no meu imaginário, poderia ser grande. Arrisco a dizer que uma boa parte do Brasil que eu percebo, aprendi com esses determinados artistas.

Primeiro me resolvi como gay e agora, parece, estou me resolvendo um pouco mais como japonês

Ser “do olho puxado”, “china”, “pau pequeno”, “filho do pasteleiro” , “cdf”, “jiraya, “jaspion” (ainda por cima, gay!) e etc. me empurrou para querer autoafirmar (ou buscar) minha identidade brasileira com muita intensidade. Para isso, eu negava olhar grupos e hábitos japoneses com afeição e abertura e, parece que agora – depois inclusive do fato narrado, recente, na festa de apê da minha amiga – essa busca virou algo consciente e propositado.

Posso dizer com tranquilidade que faz anos que me resolvi como gay, embora – a medida que a sociedade vai se remodelando e se transformando – novos pontos serão objetos de novidade.

Assim, na minha busca pessoal (incessante) do autoconhecimento, veio a luz, hoje, um reencontro com nuances da cultura, se não, o primero encontro consciente, como nunca antes.

O poder da negação

E estou gostando. Isso é uma mudança. O seriado “Terrace House” recém lançado no(a) Netflix do Brasil é um banho de valores culturais, nuances e detalhes comportamentais em sociedade (japonesa, jovem e atualíssima) que vem preenchendo de respostas as diversas percepções que sempre tive sobre a cultura japonesa, mas – talvez – de tão internalizado sem eu me dar conta, não saberia explicar se um descendente de latino-negro-índio brasileiro me questionasse. Como ocorreu recentemente.

Terrace House tem audiência fortíssima entre os ingleses.

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Alguns aspectos relevantes os quais naturalmente fizeram parte de meus modos, hábitos e comportamentos perante meus pais e amigos (em geral) determinam a influência das minhas origens nipônicas e, com esse seriado do tipo “Big Brother” tenho pasmado com tantas identificações.

“Como é que eu não tinha percebido isso ou aquilo antes? Não é a primeira vez que me coloco a assistir filmes, seriados e programas japoneses. Para onde apontava meu olhar?”

Essa autossabotagem me cegou em outros aspectos, como em um passado remoto, quando eu não me aceitava como gay: meu olhar apontava para a crítica, para o julgamento, para a negação. Qualquer referência maior que eu tivesse, eu desdenhava e me mantinha na superficialidade popular: culinária e animes.

Sabem quando dizem que japoneses…

…matam um tipo de baleia (que estava se extinguindo) apenas para saciar seus desejos específicos culinários? É verdade. Ou que entre a população japonesa há um alto índice de suicídio devido a pressões por desempenho, reputação e realização? Também é verdade.

E começo por esses aspectos negativos e populares da cultura japonesa sem negar. Mas afirmo também, sobre o suicídio, que morre no mundo mais gente (igualmente por suicídio, fome, doenças, vícios, dentre outras precariedades) pela ausência de meios que o coloquem em um fluxo de desempenho, reputação e realização. Em outras palavras, japoneses se matam porque foram demitidos ou porque não cumpriram bem um papel na hierarquia de seu trabalho? Sim. Mas morre mais gente pela ausência de estruturas mínimas em uma sociedade, como o próprio trabalho.

***

Meu olhar aos 42 anos finalmente se afastou de uma turva camada de preconceito e julgamento para enxergar nuances que sempre estiveram dentro de mim, como um japonês (gay). As percepções frente ao seriado Terrace House, têm me permitido materializar novos sentidos. Mas para conseguir trazer essas observações aos leitores, sigo antes com uma breve descrição do programa: Terrace House é tipo um Big Brother, porém os 6 participantes podem ir e vir seguindo com seus trabalhos e afazeres rotineiros. Moram juntos em uma grande casa e estão lá com o objetivo desafiador de encontrar sua cara metade.

São 3 mulheres e 3 homens de 20 a 31 anos (nessa temporada que há no/a Netflix).

O propósito do programa vai de encontro a uma das grandes dificuldades dos japoneses: encontrar a cara metade, o par, alguém especial para namorar, casar e seguir em frente assim. Eis uma das características marcantes da sociedade japonesa atual: as pessoas conseguirem se relacionar afetivamente/romanticamente. Não que no Ocidente isso também não ande complicado, principalmente para uma maioria dos 20 aos 30 anos, mas os motivos no Japão são outros: a proximidade afetiva, sexual, tátil e emocional entre japoneses é mais difícil. Eis um outro ponto negativo, assim como (1) a problemática das baleias e (2) o alto índice de pessoas que se suicidam.

Mas o que há de nuances positivas?

Comecei trazendo as negativas para que nenhum leitor (chato, com complexo de inferioridade) faça questão de me lembrar. Eu já sei.

Vamos então a pequenas nuances do cotidiano, das quais percebi por ter identificação:

  • identidade de gênero: é um alívio poder perceber que eu não fui o único descendente de japonês (até então) com uma sensação de que meu pai, por exemplo, não me educou com o estigma da identidade de gênero latina, a clássica “homens jogam bola e usam azul; mulheres usam rosa e são femininas”. Logo, nos primeiros episódios de Terrace House, é notável que homens também elogiam a beleza masculina de outros homens, com uma fluência natural e ser interpolações reducionistas ou piadas. Inclusive, um dos participantes da casa ganha de uma das meninas um kit de cremes pós-sol e essa metrossexualidade flui com tranquilidade entre eles;
  • sentido cooperativo: homens e mulheres dividem naturalmente funções na cozinha, de preparar os alimentos, lavar as louças, retirar da mesa, guardar nas estantes e etc. Nada fica sujo ou desorganizado pois, neste fluxo, subentende-se a cultura de deixar o ambiente limpo e harmonioso para o próximo. Uma característica marcante, mais menos importante para a essência do Minha Vida Gay, é que japoneses costumam comer bastante. Sou a prova material disso;
  • harmonia como desfecho: como seres humanos, japoneses também tretam, brigam e se desentendem. Se ofendem, falam certas verdades de cabeça quente e etc. Invadem o espaço do outro para incomodar. Mas ao contrário dos latinos que, muitas vezes buscam encerrar as ofensas e desentendimentos nas próprias, guardando remorsos, orgulho, culpas e arrependimentos para anos a frente (ou atrás), os japoneses tendem a finalizar com diálogos e algum tipo de entendimento, sem manter a situação no capítulo das dores do ego. Sem envolver terceiros e quartos querendo formar “times” e dar voz a razão a partir de jogos emocionais;
  • não há status de trabalho: todo trabalho é digno (ou honrado), desde o pintor de casas ou pedreiro até o executivo de finanças. Logo, não importa a profissão do indivíduo, mas o quanto há o esforço e envolvimento. Em Terrace House esse aspecto é bastante evidenciado: a participante mais velha, com currículo internacional de estudo e trabalho, se envolve pelo rapaz que faz dezenas de bicos, desde pintor de parede a ator de filme pornô. Fica evidente que ambos são os mais vividos e amadurecidos e esse tipo de sintonia, de vivências e maturidade, é o que os aproxima;
  • a vontade de melhorar: já falei da “cultura do ganbatte” e no programa é possível notar essa ideia, de uma cobrança interior de se superar e melhorar. O menino mais novo da casa, com 20 anos, é aconselhado por todos para ser mais atitudinal, assumir comportamentos mais adultos e se afastar de uma posição/papel passivo, de ser servido. Assim, ele resolve aprender a cozinhar e, como gosta de dormir até tarde – para compensar – assume por atitude própria o papel de tirar os lixos e deixar toda cozinha limpa durante as noites;
  • não há expressões como “graças a Deus” ou “se Deus quiser”: nem por força do hábito os japoneses costumam projetar o sucesso ou o alcance de alguma conquista nomeando um terceiro. Religião no Japão, no geral, não influencia o cotidiano de um indivíduo. Voltam-se mais para a cultura do ganbatte que, em tradução livre, tem muito de “la garantia soy jo”;
  • educação: a polidez e educação do japonês – de uma maneira geral para a percepção de quem não é – são características marcantes da cultura. Em Terrace House, as nuances de polidez e educação se manifestam nos pequenos e grandes detalhes para quem quiser entender com mais nitidez sobre essa tal de “educação do japonês”. Não é somente uma fumaça soletrada ao vento, nem uma lenda urbana.

Eu

Perceber que esses pontos acima estão interiozados e enraizados no meu cotidiano tem sido novo. Eu não achava que tais valores, modos e hábitos fossem necessariamente vindos da cultura japonesa e, sim, da minha personalidade.

Agora, inclusive, com um pouco de mais clareza eu entendo o por quê de me posicionar contra a polarização social e política banhada em nosso país, expressando (inclusive com julgamentos), a vontade da não-polarização, ou da hamornia, por assim dizer.

Sendo gay, percebo o quanto meu pai ter me educado alheio a cultura de gênero-latina (poderia, afinal ele também é brasileiro) me favoreceu a ter um olhar diferente em relação a grande maioria e, por consequência, a me manter em um posicionamento diferente.

Neste aspecto sobre gênero, me questiono: “sou eu que tenho que ter empatia para entender a realidade da maioria latina-negra-parda ou é a maioria que precisa ter empatia com a minha realidade para, quiçá, se desprender com mais integridade das amarras dessa cultura de gênero?”. Penso que um pouco dos dois, salientando que da minha parte, de compreender a forte influência da cultura de gênero na educação das pessoas, sou diariamente bombardeado pelos meios LGBTQIA+. Tenho esse Blog também para meu auto-esclarecimento.

E o oposto? Será que tem se dado a oportunidade de se descolar de sua “realidade” ou o magnetismo da cultura de gênero-latina está “codificada no DNA”?

Cadê o brasileiro com a vontade de superar e vencer para, inclusive, sair das velha opinião formada sobre tudo, com o ar constante de lamentação?

Eu, particularmente, estou adorando me descobrir japonês. Com 42 anos, assim como confessou o chefe dos pedreiros para o jovem de 20 anos da Terrace House, a vida sempre vai trazer novos desafios e surpresas, independentemente da idade.

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