Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre a felicidade

O que realmente nos traz felicidade? É a aceitação individual e coletiva do fato de sermos gays? É um namorado? É dinheiro? Trabalho garantido? Poder de compra? Intelecto? As amizades? São viagens para dentro e fora do país? É uma relação equilibrada com a família?

Poderia ser um pouco de tudo isso, não fosse a ilusão de projetar no externo as nossas realizações. Não fosse também a cobrança alheia, nos dizendo para ser “assim” ou “assado”. Felicidade é uma busca eterna assim como o autoconhecimento e é, sobretudo, individual.

Diria Raul Seixas: “queria ser burro para não sofrer tanto”, sugerindo que as pessoas realmente felizes são aquelas que têm déficit de consciência, sensibilidade ou intelecto.

Citando novamente Christopher McCandless, aventureiro que partiu por áreas selvagens e inóspitas, “felicidade só faz sentido quando é compartilhada”.

Tantos no passado, no presente e no futuro tentam e tentarão definir a felicidade numa pura prática filosófica de estabelecer um contato mais próximo com a mesma, quando a resposta encontrada gera a própria felicidade. Metido que sou (rs), faço aqui o meu ensaio no Minha Vida Gay:

Eu como um profissional de marketing, não posso me entregar a todas condições da área e tenho que ser o primeiro a contestá-la (ou revê-la). A propaganda, a moda e o marketing, por intermédio das mídias, vivem criando “bolsões passageiros de felicidade”. De maneira maciça tendenciamos a entrar nessas bolhas para nos sentirmos felizes, ou melhor, inclusos pois o próprio sentimento de inclusão supre algumas de nossas carências e momentaneamente nos traz a tal da felicidade. Então, quando comparecemos em algum bloco de rua – rotulado pelas grifes as quais o patrocinam – estamos corroborando para manifestações populares que nos últimos anos já foram amplamente corrompidas pelo mercado de consumo, em sua grande maioria. Outrora, carnaval de rua era uma efervescência autenticamente cultural. Hoje, me parece muito mais uma ação panis et circenses que terá um ápice, a cultura geral não se apropriará e perderá a força fazendo com que as pessoas devorem um próximo bolsão construído e manipulável. No submundo onde vivemos, a grande massa (mesmo a classe média) precisa extravasar e se deixa influenciar por pura ingenuidade. O “efeito marionete” funciona muito bem em terras brasileiras, não somente no norte e no nordeste!

Poderia citar também as baladas, o culto ao pop sertanejo, o Big Brother Brasil, entre outras produções. Mas o carnaval acabou de ter seu fim e está fresco na mente da maioria.

Mas felicidade é uma projeção mesmo. Enquanto do circo gritam: “venha até a mim para ser feliz e se você não entrar a tempo será excluído”, eu hoje diria: “olhe para dentro e se questione. O que realmente faz você feliz?”.

Por um lado, a alienação traz uma certa felicidade e vou concordar com as palavras de Raul Seixas. Enquanto “boiada”, a medida que vão nos atirando “pão e vinho”, vivemos aquele êxtase passageiro de que a vida está linda e estamos livres de nossos problemas. Por outro lado, com muito esforço existe a condição de desviar do circo, de todos os espetáculos visuais e sonoros e afastar, limpar, separar e dividir boa parte das influências, comparações e assédios para encontrar de maneira mais autêntica o que nos traz felicidade. Felicidade é simplicidade.

Imagine, por um breve instante, que você renasceu adulto junto com mais quatro pessoas, nesse exato mundo que existe hoje. Imagine que nesse renascimento, as cinco pessoas passaram por um tipo de formatação mental e, assim, as referências dos pais, dos amigos, da Internet, dos estudos e das mídias no geral nunca se formaram em sua mente e você está lá pronto para começar a descobrir tudo com mais quatro (poderia ser cinco ou seis. Mas imagine um pequeno grupo). Nesse mundo existe apenas os cinco afortunados a recomeçar toda a história. Não se estabeleceu o que é legal ou o que é prazeroso. Não se estabeleceu o senso de classe. Não se estabeleceu o que se faz mal, nem que a heterossexualidade seja a norma. Deus deu a oportinidade de recomeçar sob o critério individual, pelas próprias experiências e personalidades, a construção do que é prazeroso ou doloroso, o que traz alegria ou tristeza e assim por diante.

Não tenho dúvidas que nesse contexto ficaria muito mais claro para todos nós o que efetivamente nos traz felicidade individualmente. Precisaríamos de muito pouco, a bem da verdade.

Esse tal mundo de cinco pessoas não existe. Mas, nesse ensaio sobre a felicidade, eu sugeriria a todos que experimentassem retroagir em detrimento as normas familiares, as influências dos amigos, ao que a mídia e a moda dizem o que é ou será legal, para um exercício do que cada um, individualmente, entende como felicidade.

A grande complexidade é que somos altamente influenciáveis e existem 360 graus de estímulos sugerindo que tais e tais caminhos, conceitos e doutrinas nos levarão à luz. Mas eu sugeriria esse esforço, de aparar as arestas, de nos aproximar da simplicidade. De evitar comparações, entender com menos sofrimento as expectativas que os outros depositam para seguirmos nossas próprias vidas com mais autonomia.

Claro que, se você tem aquele tipo de personalidade que só faz as coisas “empurrado”, sob a cobrança dos pais, do professor, do chefe, dos amigos ou do namorado e – se dependesse de você preferiria dormir o dia inteiro – tende a funcionar muito bem nesse modelo social vigente. Você está aceitando sua condição de “boi” num pasto infindável, que leva “chicotinho na bunda” para andar para cá ou para lá e demandará possivelmente – por longos anos – de uma eterna voz de comando que se substituirá de tempos em tempos.

Ou, talvez, numa iluminação e no próprio despertar de consciência, você entenderá que a autoria da própria vida – que inclusive te permitirá a entrar e sair dos “bolsões de consumo” sem viciar – é o que vai garantir uma felicidade predominante. Mas, amigos leitores, exige esforço.

O que realmente nos traz felicidade? É a aceitação individual e coletiva do fato de sermos gays? É um namorado? É dinheiro? Trabalho garantido? Poder de compra? Intelecto? As amizades? São viagens para dentro e fora do país? É uma relação equilibrada com a família?

Não dá para ser feliz sem resiliência (e, no meu ponto de vista, vivendo a dependência dos outros). Nem os nascidos em berço esplêndido. A glória no passado desse país não se revelou até hoje. A paz no futuro me parece de bom tamanho.

2 comentários Adicione o seu

  1. eri disse:

    Deixo a definição de felicidade para os filósofos, artistas, pensadores no geral. Já pensei demais sobre isso e não me agregou em muita coisa. Na verdade me fez até mal. O melhor é aproveitar os momentos, reter o possível da vida, trabalhar em cima dos sonhos, crenças e/ou motivações e seguir assim até envelhecer; E então morrer, sem conclusão nenhuma. Se fui feliz, é muito mais uma questão linguística/interpretativa do que prática/funcional.

    Mas concordo que a felicidade sobre a sombra da ‘verdade’ imposta não vale a pena. As trajetórias são semelhantes, mas nunca iguais. Sem fórmula pronta, falta coragem para reger a própria vida. Vai ver por isso religião atrae tanto, simplifica tudo.

    O que quero dizer é que não se trata de ser burro, como sugere Raul, mas sim esperto o suficiênte para compreender que nossas quase 100 bilhões de células cerebrais são limitadas e nem tudo podemos definir. Ao menos é como enchergo. Excelente texto, adorando os ensaios! (E o blog em si, visita obrigatória)

  2. Andri disse:

    Acho tudo que é postado aqui muito válido e de muito bom gosto. Sempre acompanhando …

    Bom… gostaria de, humildemente, acrescentar a este ensaio dois pensamentos relacionados aos argumentos abordados, a saber:

    1. “Conhece-te a ti mesmo” contido no templo de Apolo, em Delfos;
    2. “As convicções são cárceres” de Nietzsche.

    Anulando tudo que é imposto pelo senso comum, seria possível alcançar um estado de liberdade absoluta de pensamento. Atingindo assim a plenitude, a mente seria capaz de decodificar todas as nossas reais vontades. Então, só haveria a verdade.

    Enfim … é claro que é pura utopia. As regras práticas para se alcançar a felicidade, segundo meu ponto de vista, são:

    1. Fazer o que se gosta, sem machucar/enganar ninguém;
    2. Se doar e ser retribuído proporcionalmente (válido para todas as relações interpessoais);
    3. Alcançar o sucesso profissional e, em seguida, praticar boas ações (paráfrase – Sócrates/Platão).

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