Gay dos 37 aos 42 anos

Insight! Antes e depois

Acabei de ter uma ideia e, como o Minha Vida Gay traz relatos pessoais desde meus 34 anos (são 8 anos e mais de 2 milhões de visualizações por aqui), resolvi pegar um post antigo, “A vida gay de um solteiro – Quase 37 anos” e fazer comentários e críticas com meu olhar atual em cima do que eu escrevi e como eu pensava quando eu tinha 37 anos.

Eu há 5 anos e eu hoje

Mês que vem faço 37 anos e acho que é a primeira vez que o sentimento de se estar sozinho e solteiro não abre um buraco no meu peito, gerando aquela inquietação tão comum que também justificou os 11 anos somados de relacionamentos afetivos. Quando estaria solitário em casa, escrevendo um post no Blog as 18h de um sábado? Há alguns anos atrás compareceria na Praça Benedito Calixto, vivendo a intensidade e o calor da pré-balada.

* Então já são (em torno de) 5 anos que eu vivo uma prática (consciente e trabalhada em terapia e coaching) e exercício com a relação “me, myself and I”. Digo a vocês, queridos leitores do Minha Vida Gay: alcançar um outro nível de relação com a solidão e, mais, com o bastar com a própria companhia vale a metáfora: é como a gente pudesse respirar profundo um ar mais puro, com cheiro de natureza ou maresia. É algo de libertador.

Fica evidente, aqui pelo Minha Vida Gay, que o tema “namoro gay” é de longe um dos Top 3 dos posts mais lidos e procurados. Tem muito gay querendo criar a condição de um relacionamento sério e mais duradouro e confesso que relacionamento é um ponto de referência para muitas das minhas ações na vida pessoal. Quando também não influenciou a minha profissional, no momento que sabia que – ao final do expediente ou depois de um dia cheio e estressante – poderia contar com aquela pessoa certa para que no mínimo pudesse ouvir meus desabafos. Só um exemplo.

Isso está mudando bastante hoje em dia e atenção: para mim.

* Mudou tanto, quem diria! Mudou tanto que a ideia de me relacionar para ouvir desabafos alheios (ou desabafar) gera uma boa preguiça! Logo, ficar me relacionando-desabafando é algo que faço cada vez menos. Com isso, irremediavelmente, as pessoas que me interessam são cada vez mais específicas também. Já foi papo pontuado e conscientemente entendido nas minhas sessões de terapia: com esse tipo de autonomia emocional, o lado positivo é que eu posso viver com nitidez essa ideia de liberdade, citada acima, da não dependência de um terceiro; de bastar com a minha própria companhia. O lado negativo é que eu não fecho a conta da maioria das expectativas das pessoas que visam se relacionar comigo. Não que isso seja necessário – quantidade – já que estou namorando. Mas para o meu namoro avançar para quase 2 anos hoje, muitos outros nomes preencheram a lista e eu não entreguei aquilo que eles esperavam.

Aproveitando e complementando o post anterior (que gerou bastante polêmica e um monte de julgamentos sobre a minha pessoa – rs) resolvi contar uma história aqui do meu “Lado A” e do meu “Lado B”, considerando o “A” como o que é normativo, da conduta esperada pela sociedade, do tal do caráter e comprometimento com a própria vida e o “B” como minha faceta subversiva que transgride um pouco com os valores-macro-morais dessa sociedade que está cheia de expectativas sobre cada indivíduo. Tudo isso, narrado por alguém que vai chegar aos 37 anos, que é gay e que – na medida da própria vivência – sabe separar o que é “ser gay” de “ser qualquer outra coisa”.

* Eu e esses lados (RISOS). A bem da verdade é que qualquer indivíduo pode viver a ordem, as regras e leis sociais, claro. Devemos, para inclusive manter sociedades com um mínimo sentido de cooperação. Mas explorar e desafiar essas regras ou, minimamente, questioná-las – sem ser mais um boi da boiada seguindo o fluxo por osmose; maria-vai-com-as-outras – é ainda (e penso que sempre será) uma característica pessoal internalizada.

Lado A do MVG

A sociedade cobra, exige ou simplesmente pede para seguirmos num ritmo de vida. São os estudos, as expectativas dos pais, o trabalho, o crescimento financeiro, a realização pessoal, o relacionamento duradouro e comprometido, a fidelidade perante as pessoas, o cuidado com a saúde, as amizades, a retidão, a conduta transparente, dentre outros valores morais, culturais, filosóficos (e religiosos). O meu ritmo é mais ou menos esse, resumidamente:

– Sou formado desde o final de 1999 pela ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo. Sou bacharel em comunicação social e comecei a vida profissional como estagiário não remunerado no Estúdio de Vídeo da faculdade. Fui o melhor aluno de criação da minha turma durante os 4 anos, o que me garantiu indicações de emprego nas empresas de ex-alunos e professores antes de montar a minha própria;

* Eu realmente era (e sou) “sangue nos olhos” quando o assunto era e é trabalho. Provavelmente vem dessa herança cultural japonesa – a qual percebo hoje mais em detalhes – de querer me esforçar ao máximo, ser “o melhor”, me destacar ou, no mínimo, como meu tio disse um dia desses furtivamente, me apresentar ao mundo de mandeira distinta (e essa vontade de distinção, acaba chamando a atenção). Modestamente, eu nunca pedi emprego e, o mesmo, sempre veio até a mim. Então, no contexto brasileiro-latino que tanto tenho colocado em conteste, como o post anterior (e que, no meu sincero ponto de vista, faz nossos governantes serem o que são e faz a sociedade latino-brasileira ser o que é), quem não vai a luta e não procura, não acha. Mesmo.

– Antes de escolher por uma profissão, sabia que minhas opções estavam entre humanas e biológicas. Acreditem: prestei para arquitetura, publicidade e veterinária. Mas como eu tinha aquela boa preguiça para estudar, passar na ESPM seria a última esperança no ano do vestibular. Lembro bem dos testes e da redação. Testes incríveis de conhecimentos gerais, de Ginger Rogers e Fred Astaire a filmes de Bernardo Bertolucci. Assuntos que sempre me envolvi. Passei;

* Filmes, música e, hoje, mais leitura, sempre me acompanharam em grande volume. Ter entrado numa faculdade que a época era conhecida por 2 a cada 10 pessoas e que trouxe a minha frente uma prova de vestibular lúdica foi bastante simples. Mais simples ainda quando meu pai, no período do nascimento do Plano Real, pode pagar 230,00 ao mês e terminar pagando 350,00 depois de 4 anos. Sabiam que um pacote de miojo, no contexto dos meus 27 anos, custava 15 centavos? E que com 100,00 era possível fazer a compra do mês (geral) para um casal? Pois bem, foi o Brasil que o FHC entregou para o Lula. E desculpem, eu vivi dessas benesses ao vivo e a cores. Se você não, pautado apenas em livros de história, falatórios de grupelhos de esquerda, jornalecos sindicais espalhados em escolas, não me traga churumelas.

– Embora os estudos nunca tivessem sido o meu forte até o primeiro ano do colegial (só não fiquei de recuperação no pré porque era impossível – rs), desde pequeno sempre tive aptidão para desenhar e escrever. A música (principalmente o piano) sempre foi algo que me atraiu. Quando meu pai percebeu que eu era capaz de tirar alguma canção de ouvido, comprou um dos melhores instrumentos na época e me colocou para estudar. A regra era o seguinte: “te dou o teclado, mas você vai ter que se esforçar para ficar bom nisso”;

* Curioso como essa parte do post cai como uma luva para reforçar (com fatos reais vividos) as ideias que tenho colocado nos textos mais recentes…

– Jovem ainda, com 13 ou 14 anos, via minha mãe na cozinha, preparando almoços saborosos e morria de vontade de aprender a fazer meus pratos prediletos: arroz e feijão. De tanto que insistia, aprendi com essa idade a fazer comida, hobbie que se mantém até hoje, claro que com pratos bem mais variados;

* Bom, não precisa dizer como a minha comida fica boa hoje em dia, não é? (RISOS). Nada como o treino, a prática, errar para acertar. Detalhe que minha mãe deixou eu pegar numa panela de pressão por volta dos meus 18 anos, apenas.

– Os meus 23 anos foram um grande marco na minha vida, inesquecível. Foi o ano que iniciei minha empresa, foi ano que assumi a minha homossexualidade a mim mesmo e foi o ano que tive meu primeiro relacionamento afetivo que durou quase dois anos. Tudo junto e misturado;

* Esse “mim mesmo” está feio! (RISOS). Já passou bastante tempo essas vivências aos 23 anos e confesso que, se o Flávio aos 37 ainda vivia as sensações dos 23, eu hoje com 42 vêm com uma lembrança muito mais vaga. É como se eu realmente tivesse virado a página e situações mais emblemáticas tivessem tomado lugar de destaque no campo das emoções.

– Os meus 27 anos também foram outro grande marco na minha história: foi o ano que chispei da casa dos meus pais, assumi um “casamento” de morar sob o mesmo teto com outro homem. Meu pai ficou um ano sem falar comigo (não porque eu era gay ou estava “casando”, mas porque estava saindo de casa contra a sua autorização) e meu sócio sairia da empresa para trabalhar com a esposa no Japão. Eu tinha exatos R$ 3.000,00 na minha conta, apenas;

* Vejo as pessoas que me conhecem hoje e pensam que eu nasci “pronto” assim, com 42 anos. Que eu sempre fui seguro, sempre preparado, sempre estável financeiramente, sempre de bem com meu físico e assertivo nas respostas. O que eu realmente sempre fui, foi gostar de ver o mundo cor-de-rosa! (RISOS). Isso, sim, provavelmente, fez aquele menino de 27 anos fazer valer uma situação de 3.000,00 em conta e chegar no “patamar” em que me encontro hoje. E de hoje para amanhã, certamente. Não tenho dúvida alguma que pessoas que percebem o entorno e o mundo mais “cinza” tem menos chances de prosperar. Porém, contudo, todavia, dicas e puxões de orelha não faltam por aqui. Achar que não dá para mexer e mudar é da natureza do cinza. Do vitimismo. Do fatalismo Cristão.

– Sou empreendor há praticamente 14 anos. Não satisfeito com uma empresa, montei uma escola de música que está lá, firme e forte, com mais de 100 alunos e uma produtora de áudio que também segue para seu sétimo ano de vida;

* Foi uma fase importante de me provar que eu era capaz de empreender, fazer as empresas se estruturarem e, mais, garantir um futuro mais estável para pessoas que – as épocas – tinham padrões de vida menos estruturadas que a minha. Alguns deles talvez sejam mal agradecidos até hoje (RISOS), mas essas materializações ninguém tira da minha linha da vida.

– Dos meus 23 anos para hoje são praticamente 11 anos somados de relacionamentos homoafetivos. Sempre fui namorador, sendo que o último namoro durou praticamente 4 anos. Fomos referência de casal até para amigos heterossexuais. Éramos exemplo de amizade, companheirismo e desmistificação para a sociedade geral e tradicional do que é “ser gay”. Hoje em dia, ser referência de casal para quem é heterossexual não é nada sobrehumano: a juventude no geral não sabe namorar;

* Adoro desafiar regras, esteriótipos, julgamentos óbvios e preconceitos embutidos nesses jugalmentos. Estou hoje com um rapaz de 23 anos (temos uma diferença de praticamente 20 anos) e eu sei que essa relação (próxima para completar 2 anos) é a minha mais próspera. Nunca ninguém me entendeu tanto e, vamos combinar, se relacionar comigo não é um simples jogo de damas. Não é ordinário nem medícore, nem arroz-com-feijão e tenho essa consciência.

– Comprei a minha casa própria há dois anos, tenho carro, trabalho, tenho renda, cachorro e dezenas de despesas, funcionários, novo sócio (que começou como “voluntário” aos 16 anos – é irmão do meu ex-sócio – e continua comigo desde então), tudo, subsidiado pela estrutura que construi, sem depender de ninguém;

* Tudo isso e eu estava autoafirmando para eu poder lançar o “Lado B” logo abaixo (RISOS). Mas é bem por aí: o céu e o inferno habitam o mesmo lugar dentro da gente. Achar que um desses está fora é a expressão consciente ou não de um Cristianismo internalizado, da cultura latina.

– Tive uma relação intensa e conflituosa com meu pai do dia que me dei conta de nossas diferenças até meus 32 ou 33 anos. Mas com muita insistência e com muita terapia, revi toda maneira de enxergá-lo. Ele fez o mesmo e minha mãe também se reposicionou perante a família. Hoje, deixei minha mãe no aeroporto de Congonhas. Foi para o Rio visitar meu irmão e passei o dia inteiro com meu pai. Ganhei um almoço e estivemos horas juntos conversando sobre a vida e vendo algo que comumente nos apetece: eletrônicos. Hoje, ele se conforma com a minha sexualidade. Foi praticamente uma década que levou para essa conformidade, o que não quer dizer aceitação. Mas, a mim, enxergando um cara de mais de 70 anos tolerando assim, já está de bom tamanho para quem se é pai, descendente de japonês e com essa idade;

* Em relação a minha sexualidade, olhando para trás, a minha postura mais acertada foi esperar o tempo do meu pai entender e internalizar a realidade de um dos seus filhos ser gay (o primogênito que, para a cultura japonesa, tem uma representatividade). As pessoas hoje, as vezes, cobram pulos de alegria ou uma naturalidade imediata. Se a gente quer respeito a gente precisa emanar respeito.

– Tenho o Blog MVG que, como digo por aí, é meu lado social exercendo uma função de trazer clareza e referências para aqueles gays que não se entendem direito.

* E está aqui, firme e forte.

Lado B do MVG

Estar solteiro, emancipado, praticando exercícios físicos (há uma década) que me garantem uma saúde, resolvido com meus pais, resolvido com a minha própria sexualidade, fazendo terapia há anos-luz, com um emprego que vai crescer a medida que eu mesmo botar lenha e dinheiro no bolso, me sinto livre para exercer meu papel no “Lado A” da vida mas, também, me dá autonomia para me aventurar no “Lado B” que – do ponto de vista da emancipação do gay perante a sociedade – pode me “sujar” de esteriótipos e preconceito. Mas como disse, sou um livro aberto e, enquanto a sociedade nos cobra para virarmos “modelos de conduta”, apresentar e vender nosso “Lado A”, eu também me canso, discordo e preciso de minhas válvulas de escape para fugir da “caixinha”, rever meu senso de moralidade, principalmente agora que estou sozinho, sem namorado.

Daí é assim:

– Sou formado desde o final de 1999 pela ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo. A parte “bacana” está destilada no Lado A do texto. O que nem todo mundo sabe ou gostaria de saber é que foi na faculdade que experimentei pela primeira vez a maconha e o loló (lança perfume). Boa parte dos meus amigos da ESPM (e fora dela) mantém o hábito da marijuana semanalmente. Esse hábito não nos faz melhor ou pior, mas creio que a área de humanas e – principalmente – a faculdade de comunicação, te aproxima um pouco dessa subversão aos modelos (brasileiros). Eu e meus amigos entendemos a maconha desse jeito, simples assim;

* Essas experiências foram importantes para eu desafiar certos limites e regras sociais que, a época, eram muito relevantes para minha vida. Alguns desses amigos da faculdade enveredaram hoje para uma “linha” de uso de drogas para “pontes” com a espiritualidade. Em nada me identifico com essas formas, talvez porque desde criança já existia essa “ponte” sem aditivos. O uso de entorpecentes na minha vida praticamente se anulou. Hoje tenho clareza que a utilização – naquele contexto – me botava (também) na condição de pertecimento ao grupo. Um saco adolescente que, talvez, seja ritual por longos anos entre os juvenis Homo Sapiens.

– Solteiro, me permito aproximar de pessoas e situações diferentes das expectativas do meu “Lado A”, da “caixinha” esperada e bastante valorizada por aqui. Eu tenho uma sede particular de conhecer pessoas diversas. Nesse período de 3 meses, transei com um bissexual, revi algumas pessoas da noite – que o Lado A costuma chamar de “underground” ou “alternativo” -, estou revendo o conceito que atribui até hoje para o “macho” (homem que gosta de transar com homem e não se sente gay), tive momentos que saboreei alguns “aditivos” além da maconha, fui a sauna, usei metodicamente o Grindr/Hornet no segundo mês após término, transei, revisitei algumas das baladas mais “gayistas encaixotadas” que São Paulo pode oferecer e estou repetindo um pouco de tudo isso a medida que tenho vontade, a medida que as coisas vem ou vão;

* A parte sexual está muito mais amena. A taxa hormonal é outra agora e aquela sede por ter/possuir aqueles que eu desejava foi bem explorada. O aplicativo Sing (Smule) virou um meio global e eficiente de construir amizades diversas, me permitindo dar vazão a essa vontade de conhecer pessoas diversas e diferentes, vontade que não cessou.

– É claro que nesse período não estou apenas subvertendo, negando meu “Lado A” para exaltar meu “lado B”. Seria dispensável dizer que tenho passado muito mais horas com meus pais, farei uma viagem para conhecer a casa do meu irmão e da minha cunhada no Rio, vou assistir de novo o Show do Elton John por lá e, no Carnaval, vou fugir do circuito-das-carnes que prevalece na capital para um canto escondido e solitário, em meio a natureza, cachoceira e ar puro de Minas Gerais.

* Olha eu “passando panos quentes”, numa ideia de que o leitor poderia me interpretar mal e me julgar por trazer essas vivências tão abertamente! (RISOS). O fato é que se você pende demais para um lado da balança, convém buscar se reequilibrar. Mas é só isso.

Mas o que acontece é o seguinte: estou com quase 37 anos – o que equivale a 37 anos de vivências – e o problema não é o que subverte. Os problemas são dois:

1) Daqueles que vivem e adentram o “Lado B” individual, viciam, tornam-se compulsivos e descontrolados e não conseguem sair para rever seu “Lado A”. Perdem a autonomia, perdem-se de si. Desses já falei aos montes por aqui no MVG, com uma postura moral rígida e a maioria dos leitores tende a concordar. Para esses não há “luz” no “Lado B”. Quando o “Lado B” se torna o único, a vida passa a ser obscura, mesmo. Mais até que obscura, diria que suas vidas tornam-se extratificadas, segregadas e limitadas. Mas essas pessoas existem, estão lá nas ruas, nas saunas e nas baladas;

* Continuo achando que explorar nossos limites, contestar regras, dogmas e doutrinas são ações que dão sentido (também) para a vida. Somos gays e, se a cartilha heteronormativa não traz identificação, temos toda autonomia e liberdade para explorar. O que talvez falte para as pessoas é (1) iniciativa, (2) criatividade e (3) segurança.

2) Daqueles que temem assustadoramente o “Labo B” pela convenção social (que notoriamente conforta e manipula), são até “cabaços” ou ingênuos e que não fazem ideia da visão de mundo que adquirimos quando nos deparamos com essas experiências. Nunca ou quase nunca estiveram lá para falar, mas temem incondicionalmente porque a sociedade (por intermédio de dezenas de ferramentas) vendem essa imagem do que pode ser perigoso, discriminatório, periférico. Podem se sentir culpados se permitirem essas entradas e, as vezes, se sentem sufocados por esses medos e outros.

* Verdade. Para podermos sair de nosso quadrado confortável (com as benesses e as chatices), precisamos – de novo – de: (1) iniciativa, (2) criatividade e (3) segurança. Se você esperar alguém estender a mão para você se motivar, a chance é de se frustrar. Ou essa “mão” não virá ou tende a te largar no meio do caminho.

Eu transito entre o Lado A e B com autonomia, agora solteiro. E gostaria de viver algumas dessas intersecções, mesmo namorando. É isso, somente isso e nada mais do que isso.

* Nem sei mais se quero disso como propósito. Mas estou naturalmenta aberto ao que vier.

E tudo isso é difícil para se compreender por causa do senso moral individual. Faz tempo que tenho falado do exercício de abstração e eu, nessas práticas, tenho lançado minha moral para longe para ver o que pode vir de novo.

* Mais do que moral, é abrir mão de regras de conduta. E, também, abrir mão do próprio julgamento. Quem julga demais tende a viver uma vida mais enquadrada.

Quando vivi meu Lado B conscientemente pela primeira vez, foi um efeito de negação. Foi um término de relacionamento que me machucou, que me desestabilizou e que me fez sair do eixo, como disse mamãe (vide post do “Céu e infernos”). O momento que estou vivendo hoje é parecido, mas o fato de não existirem feridas ou orgulho (ou serem muito menores) faz tudo ser muito mais ameno.

* Isso é um fato: a dor, o orgulho ferido, o ressentimento, a raiva… são sentimentos fundamentais, muitas vezes, para nos tirar do lugar, nos transformar e nos colocar perante o mundo de maneira diferente. Não sou do tipo Cristão (embora creia em Deus) que considere essas emoções diabólicas e negativas. Elas são essenciais para nos movimentar. Ao passo que, a serenidade – com base mais na razão e no controle – também pode nos tirar do lugar, da zona de conforto. Mas, penso que – enquanto estamos aprendendo essas etapas descritas – é inevitável nos deparar com a dor, orgulho, ressentimento, raiva, frustração e etc. A gente não amadurece se não aprender a conviver com essas emoções.

Estou passando por um momento de mudanças, dentre tantas outras que já vivi. Estou revendo valores morais, as instituições (principalmente as familiares) e, talvez, depois desse processo eu volte a ser como era. Ou não: mude bastante e me reencontre sob outros novos valores. Já vivi do meu “Lado B” de quarta a domingo e cheguei a gastar R$ 1.000,00 em um final de semana entre baladas, bebidas, drogas e jantares. Não me orgulho disso e não é a mesma coisa que estou vivendo hoje, pelamordedeus!

* Olha, o Flávio dessa época talvez não se orgulhasse disso, ou talvez estivesse dizendo assim para enrustir certo moralismo. Não vou saber dizer – agora – qual foi a intenção (RISOS). Mas relendo esse trecho e relembrando da vivência, foi necessário e só me trouxe frutos positivos. Estranho seria se ainda fosse assim… ou não.

Para aqueles que se preocupam, estou bem longe de passar pelos meus “infernos de 2009/2010”. Fiquem tranquilos! Eu estou!

* Puf! Que ridículo! (RISOS!)

Para aqueles que se incomodam mediante a uma imagem/reputação criada pelo MVG a frente dos leitores eu digo: tenham paciência ou conformem-se. Isso é uma fase e o tom dos posts podem seguir assim por um tempo. “O ‘x’ do navegador é a serventia da casa” – simples assim.

E para aqueles que conseguem abstrair das próprias moralidades (e do apego ao “MVG Lado A”), sabem que tudo isso aqui é um processo de autoconhecimento. Uma busca interior, um reconhecimento, um processo pessoal de crescimento. Tenho 37 anos e aprendi a transitar entre Lado A e Lado B faz um tempo. Mas esse é um modelo particular.

Repito: sou humano, homem, gay, japonês, estou solteiro agora e é assim que funciono. Drogas, no caso, é só bode expiatório.

* Um final cheio de dedos. Morrendo de medo dos julgamentos do leitor (RISOS). Talvez, por longos anos, o papel do Minha Vida Gay foi de ser algo de “bom samaritano”, mas sem deixar de trazer um lado “sombrio” que ronda o interior do Homo Sapiens. Hoje, eu me sinto com essa mesma energia, de lançar visões da minha realidade, do meu entender, mas com muito menos necessidade de amenizar algo depois para me poupar de julgamentos. Isso só pode significar que o meu “Lado B” não está em teste mais e, sim, definido. Ele é real, faz parte de mim, talvez hoje não tenha tanta importância como em meus 37 anos, mas é o que faz o meu “eu completo”. Não preciso mais ter cuidados para afirmar: “sim, ele é real, mas veja bem… eu sou legal”.

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