Gays no ambiente de trabalho

Parece que é capa da EXAME um tema parecido e foi o leitor Gabriel, jovem gay carioca que tive também oportunidade de conhecer pessoalmente, que solicitou meu ponto de vista sobre o assunto.

Posso afirmar hoje, consciente, que um dos impulsos para me tornar empresário foi o fato de ser gay. Por um lado, poderia evitar todos aqueles coleguismos e tentativas de intimidade em ambientes corporativos (ou nem tão corporativos assim) me afungentando daquele fatídico dia de ter que me assumir como homossexual, ou passar todo tempo assumindo um papel de assexuado e desinteressado sobre assuntos da vagina, ou bancar uma de hétero e falar sobre a rachadura! Por outro lado, existia um desafio para me provar e, na imatura época, provar para os outros que eu poderia ser um gay muito mais autosuficiente como profissional.

Tendo esse impulso e outros, na falta de uma empresa, ajudei a estruturar três. Descobria, em paralelo a todo esse processo de autoconhecimento, que ser empreendedor era uma outra vocação, além de ser gay.

Até um período da minha vida, que findou há aproximadamente três anos atrás, assumir claramente a minha homossexualidade para as pessoas de meu convívio diário e profissional (sócios e integrantes de equipe) era uma obrigação. Épocas que a minha necessidade autoafirmativa, para enaltecer a ideia de “um gay no comando”. Inconscientemente joguei muito por esse viés em reuniões com sócios e orientações de equipe. Nem sempre fiz bem, confesso.

O tempo dessa necessidade durou à medida que a minha maturidade foi se estabelecendo e à medida que fui aprendendo a me aceitar como gay, reforçando a ideia de que sair do armário não é somente a formalização da realidade sexual para os outros, mas, principalmente, o início de uma jornada para a vida toda da autoaceitação.

O fato é que existem gays em todas as áreas profissionais. Ao contrário do que muitos pensam (porque é o que transborda com mais normatividade) homossexuais não preferem áreas das artes, moda, comunicação, arquitetura, letras e outros que a cultura brasileira trata com certa obviedade “coisa de gay”. E notem: é a cultura brasileira pois nos EUA não se faz essa correlação de haver mais gays na arquitetura, por exemplo. A realidade é que, aqui no Brasil (e no mundo), existem gays em engenharia, na área do direito, da administração, no marketing, na medicina, em TI e nas mais diversas áreas que aparentemente representam mais os pilares másculos da heteronormatividade.

O que muda é a maneira que os gays se apresentam nas mais diversas situações. Como na cultura brasileira determinadas áreas, principalmente de humanas, tem como convenção uma hipotética tolerância aos homossexuais, há uma tendência maior das pessoas sentirem-se mais a vontade para sairem do armário, declarar. Outras, aparentemente mais rígidas, tradicionais e rigorosas, sugerem que os homossexuais que as frequentem mantenham a própria sexualidade em quatro paredes.

Mesmo assim, isso é uma ideia geral do que nos parece convencionado. Torna-se uma realidade paralela no momento que há gays que fazem diferente. O cara que é advogado ou engenheiro e quer, hoje, expor sua sexualidade o faz. Talvez, encontrando mais resistências externas ou não pois, como eu busco dizer: “nós somos a maneira que entendemos o mundo”. O quanto somos capazes de articular (ou queremos articular) mediante um came out no trabalho é algo totalmente pessoal e, como tenho dito, não há “o certo”.

O certo para mim hoje é não precisar expor a homossexualidade a quatro ventos, coisa que já fiz exaustivamente. Mas para um outro leitor, comissário de bordo por exemplo, o certo é mostrar sim que é gay! Assim ou assado não quer dizer melhor ou pior, ou, pode até querer dizer, dependendo do nível de mentalidade de cada um.

Que ainda existem mais etiquetas em determinadas áreas isso não se duvida. Graças a Deus eu nunca precisei usar gravata. Mas por que um médico não coloca uma tatuagem numa parte do corpo que, durante seu ofício, não aparece? Não só coloca hoje, como se exibe na mesma toada dos selfies, quando retira o jaleco e ostenta seu corpo torneado e desnudo na beira do mar. Conheço alguns médicos, advogados, tatuados e gays.

Ao mesmo tempo, o mundo corporativo hoje tem entendido que o respeito à diversidade no ambiente de trabalho é uma garantia de pontos tanto para o público interno como para a imagem de marca. São transições ainda? Claro. Mas alguém duvida que essa corrente não se estabelecerá como normativo? Eu não duvido e é questão de tempo.

Como comentei no post anterior, assuntando basicamente sobre normas culturais (dentro da caixinha), a sociedade é orgânica e, vira e mexe, revê suas regras.

Mas, acima de tudo, seria ideal que orgânica fosse a mentalidade. Dos gays, no caso.

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