Gays que vivem no interior

Gays do interior fazem o quê?

Reescrevendo, de novo, um dos posts de mais acesso no Blog Minha Vida Gay. O fato é que, para ter divagado sobre esse tema “A vida gay no interior” – algumas vezes – tive que fazer um exercício de abstração e me colocar no lugar. Aliás, o MVG muitas vezes é uma prática dessas, superando a minha própria caixinha, meus valores e minhas opiniões formadas.

Nasci e cresci em São Paulo, uma das cidades mais urbanizadas e cuja capital é ponto comparável à Nova Iorque e Tóquio. Influências, tendências e novos hábitos, aqueles que transgridem modelos vigentes, normalmente brotam de lugares como esses. Não seria diferente para quem é gay, muito pelo contrário.

Assim como os Estados Unidos, talvez pela imensidão territorial, o Brasil tem meia dúzia de centros urbanos concentrados, sendo São Paulo e Rio de Janeiro os maiores em termos de produção, e possui um “grande interiorzão” espalhado em um vasto terreno. Sabe quando a gente visita pequenas cidades e a igreja na praça central é um ponto de referência? Pois bem, tal marco subentende a presença das tradições e do Cristianismo nessas terras. A religião é totalmente influente ainda na maioria das cidades.

A realidade, nua e crua, é que – certamente – a vida de um gay no interior, na maioria das vezes, é bastante distinta em relação ao gay que mora em São Paulo. Em minhas dezenas de viagens para Minas Gerais, por exemplo, foi frequente e comum notar a existência da “bichinha da cidade”, concentrando as mais diversas manias, hábitos e costumes relacionados ao estereótipo. Ser gay no interior, no geral, é ter esse perfil, pelo menos às vistas da heteronormatividade presente que é bastante leiga, cristã, machista (e ingênua).

E a lógica mental não para aí: “você dá ou come?”, porque se você comer costuma ser “menos pior” no imaginário. É assim ainda em São Paulo, inclusive entre os próprios gays, e imagine como não deve ser no interior? Taí a influência do externo.

Sugerir para que esses jovens gays trabalhem, economizem e tentem construir a vida em capitais é bastante comum. Talvez, realmente, seja a saída mais óbvia e/ou definitiva. Mas e aqueles indivíduos que, pela própria personalidade, são apegados à família e as rotinas, ou acomodados, ou até mesmo amedrontados por tudo que a cidade grande inspira?

Daí, vem a influência do interno, de como funcionamos:

O fato é que, além de gays, temos as mais diversas personalidades e é a nossa própria que irá nos conduzir perante a vida. Quem somos e como enxergamos o mundo, desde as pequenas coisas que nos rodeiam a aquelas maiores e mais distantes?

A exemplo disso, trago o referencial de um amigo hétero que, com a minha idade (quase 40 anos), é solteiro e mora ainda com os pais. Mora também em São Paulo. Curiosamente, ele não tem problemas com questões financeiras. Não precisa se desdobrar de segunda à sexta, para garantir o ganha pão no mês seguinte. Ajuda a administrar alguns imóveis da família e faz bicos como advogado. Neste contexto, poderia trabalhar duas vezes por semana e folgar os outros dias.

Aparentemente, para a maioria das pessoas com 40 anos, meu amigo teria a “vida feita” dessa forma.

Mas não. Anda triste e em depressão. Reclama muito do pai, que critica suas ideias sobre seus empreendimentos. Reclama muito da mãe que, nessa rotina diária dentro de casa, quer saber – no auge de seus 40 anos – com quem sai, quando sai e a que horas volta. Reclama muito de uma ex (que as vezes volta e depois é ex novamente) de que ela não muda e, desse jeito, não tem como levar uma relação a sério.

Não se acha atraente por ser obeso, mas não busca resolver isso com roupas (que pode comprar) ou com exercícios físicos e/ou dieta para emagrecer (que poderia pagar).

Depois de anos conversando com ele sobre esses problemas (provavelmente mais de uma década dando toques, quando não “brigando”), o que hoje me presto e faço com maestria e vontade é, simplesmente, oferecer a minha companhia. A amizade pura e simples, embora nem sempre esteja aberto para seus resmungos (rs).

Assim, o que diferencia o gay no interior que vive as dores de suas condições daquele outro que partiu da cidade? A nossa desculpa, para sermos livres como gays, pode ser as dificuldades que temos numa cidade do interior com hipotéticos 100 habitantes. Mas poderia ser outra, como a vontade de ganhar mais dinheiro em um outro lugar urbanizado, sair da rotina monótona ou buscar ampliar os horizontes. Tantos faz. E tanto faz ser heterossexual ou gay nessas horas. A diferença, na real, reside em nossa personalidade, dentro de nossa cabeça. É o mind set, como diria uma amiga. Coragem para mudanças precisaremos sempre aqui ou acolá, embora “empurrar com a barriga” ou ficar desviando sejam igualmente possibilidades.

As vezes a gente é tão duro no interno, que o externo faz pouca diferença. Quem é você quando o assunto é a sua realidade?

2 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    É, acho que você acertou de novo rsrs.

    É isso mesmo MVG, não importa se você está em uma cidade do interior, ou em Nova York, o que importa mesmo é a tua cabeça estar aberta para a vida.

    Sou como teu amigo, e sei como é difícil viver assim, embora pareça que temos de tudo, mas o sentimento interno é o de que falta tudo, e de que a gente não é feliz se tivermos aquilo que nos falta, mas mesmo sentindo isso não temos a capacidade de lutar pra alcançar, tudo parece impossível, porque não temos autoconfiança e por consequência nossa autoestima é abaixo do nível do mar.

    Viver, amar, essas coisas da vida humana, são para quem sabe, e para quem é capaz de aprender. Fui um bom aluno na escola, mas na vida minha nota é negativa hehehe. Pessoas como eu e ele (teu amigo) temos que aprender a desapegar, aprender a não se importar, perder o medo de errar, de perder e de arriscar, porque é assim que as coisas funcionam.

    Infelizmente acho que somos mais sensíveis que os outros, eu costumo dizer, o que era pra ser interno (em termos psicológicos mesmo), tornou-se externo, e assim nos tornamos fragilizados diante das dificuldades que a vida nos impõe. As soluções não são fáceis, e podem demorar anos e anos, ou talvez a vida inteira.

    Ser gay no interior não é fácil, isso no Brasil inteiro, que é um país formado em grande parte por uma população ignorante e extremamente ligada às práticas religiosas. Mas ser assim como eu e ele, é muito pior, mas isso não é concurso de quem é mais miserável hehehe, mas sim de que todos podemos mudar e fazer da nossa vida o que quiser, e isso é verdade. “Quem sabe faz a hora…” não é isso que dizem?

  2. Paulo disse:

    Realmente ser gay numa cidade do interior é extremamente difícil. Vejam minha situação. Saí de uma cidade média (350.000 habitantes), pra uma cidade 1/3 menor, para assumir um cargo num concurso público. Assim que cheguei aqui, comecei a namorar um cara, discreto como eu, ficamos juntos 1 ano e 3 meses. Ele era muito complicado, sem amigos e minha vida acabou orbitando em torno dele. Resultado, terminamos tem pouco mais de 1 mês e estou sozinho, longe da minha família, sem amigos. Não tive alternativa e tive que recorrer aos aplicativos pra ver se conseguia sentir um pouco menos de solidão.

    Mas independente disso, estou em paz comigo mesmo. Sabe porque? Independente de ser hétero, homo, bi, seja lá o que for, o que importa é que você tenha consciência de quem você de fato é. Da pessoa que você é. Isso é o que importa!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.