Gays ricos, gays pobres

“Fulano de tal além de preto é gay. Esse está duas vezes mais ferrado” – tal frase define o universo cultural ao qual pertenço, o contexto brasileiro. Quem pronuncia tal frase, seja branco, amarelo, preto ou azul exerce o preconceito, este que generaliza e associa etnia e sexualidade ao mesmo pacote dos “fodidos”.

O Brasil é um país que tem disso. Certamente não é o único, mas todas as civilizações que delongaram demais com a cultura da escravidão, perpetuam essa forte raiz mental da desigualdade: “se é ruim ser pardo, que bom que sou branco. Se sou pardo, não deveria ter menos possibilidades que o branco”. Eterno conflito.

O primeiro ponto é que ser rico ou pobre é diferente de ser branco ou preto. Sobre um vôo mais alto, cujo olhar é mais amplo, entendemos que as pessoas costumam a pensar assim, por aqui, pois à nossa volta existe uma bolha chamada cultura brasileira. É como se estivéssemos presos a ela e, na dimensão que existe dentro dessa bolha, é assim que parece funcionar. Em nossa cultura, em muitos casos está convencionado que ser branco é ter mais condições de prosperar e, ser negro, o oposto. Esse jeito de pensar, soldado firmemente ao fluxo de educação dos brasileiros, afeta no final todas as “cores”, por assim dizer. Isso acontece há séculos.

Se num país como o Brasil é permitido pensar desse jeito e assim o fazemos por décadas, de que determinada “cor” tem mais condições de prosperar do que outras, e tal maneira de pensar está rigorosamente fixada em nosso inconsciente coletivo, isso passa a ser uma verdade paralela. Sair dessa bolha, caixinha ou prisão mental é um exercício para aqueles que conseguem romper com paradigmas, ultrapassar contextos familiares, de tipos de amizade e de lugares que se frequenta. É o exercício de olhar o contexto do outro que é diferente nesses aspectos e não temer. É entender que o mundo mesmo é muito maior do que a nossa própria bolha e que, sim, existem muitas outras “verdades paralelas”.

Minha ida aos EUA, por exemplo, me fez ampliar a minha “visão mental”, e vou dizer que só se amplia quem quiser: lá existe sim as diferenças e separações étnicas: negro é negro puro, branco é branco puro, na maioria das vezes. Mas negro, branco, amarelo ou azul tem acesso comum a grande maioria dos bens de consumo. Só é mendigo quem não aguenta a rotina do modelo: trabalhar, trabalhar, estudar, estudar e lazer. No mais, quem trabalha, do vendedor de loja de departamento ao executivo do coração de Manhattan, pode ter a maioria das coisas que se compra com o papel moeda local. O que não quer dizer que o valor que recebem seja igual mas, com o mínimo, se pode ter muito mais.

O vendedor da Best Buy (tipo uma loja Americanas por aqui), rapaz que por sinal nasceu no Brasil e chegou nos EUA ainda bebê, tem casa, comida, um iPhone, os três videogames da última geração, um Macbook Pro customizado, da maneira que lhe interessava personalizar e pretendia fazer faculdade de produção de vídeo. Me diga qual vendedor das Americanas consegue comprar um Macbook turbinado que aqui valeria 30 mil reais?

Detalhe que, ele sim, como o bom brasileiro, era mulato. Saiu da bolha Brasil e sua mestiçagem não quer dizer não poder ter o que deseja. A ideia de riqueza e pobreza para esse menino é diferente, diferente de quando entramos em nossa bolha de novo.

Voltando para o solo brasileiro:

Se num país como o Brasil a nossa cultura faz o negro ser pobre e o branco ser rico, “o fulano que é mulato e gay está fodido”.

Porque aqui no Brasil ser gay recebe uma outra parte da carga cultural: o machismo. Junte ao machismo outra carga cultura: o extremismo Cristão que repudia a homossexualidade.

Enquanto alguns franceses liberam o “fio-terra” para suas esposas, na cultura brasileira o cu do homem é selado, lacrado e só abre para a passagem de saída. Não é assim que, vulgarmente, a brasilidade se expressa?

Ao mesmo tempo, tem pastor e padre pregando de maneira emocionada a bestialidade que é a homossexualidade. É assim que funciona, também, dentro da nossa bolha.

Qual a saída?

A educação, que é libertadora, é capaz de desassociar poder capital, etnia e sexualidade. Porque de fato, num nível de pensamento que ultrapasse as condições de nosso país, poder capital, etnia e sexualidade são conceitos distintos. O homem que se liberta desses vínculos reducionistas, se sente motivado a seguir em frente sem amarras porque, na verdade, elas nunca existiram.

A educação, que é libertadora, não vai condicionar um indivíduo a um extremo, qualquer que seja o extremo. Porque quando nos fundamentamos em bases profundas de conhecimento, aprendemos a ser muito mais elásticos com valores e muito mais abertos à diversidade. Aprendemos a entrar e sair das mais diversas caixinhas sem medo. Aprendemos a nos tornar pessoas mais lúcidas, fazendo das diferenças uma fonte de cultura e não as tratando como o muro que divide as próprias pessoas.

A educação libertadora, em nosso país, não está nas salas de aula nem nos livros, infelizmente. Porque enquanto a educação pública vira uma fossa, uma boa parte da educação privada faz parte da uma fábrica de diplomas.

A educação libertadora no Brasil é repleta de desafios, muito maiores do que para o cidadão da Noruéga (se fosse simples assim comparar).

A educação libertadora, aqui, é solitária.

 

 

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