Gerações gays: aos 20 anos, aos 40 e próximo dos 60 anos, 2a. Parte

As gerações gays: eu tenho 42, meu namorado tem 23 e seu tio, casado, passou a marca dos 50 anos. Somos gays e, de tempos em tempos, nos relacionamos.

Eis uma continuação do post sobre Gerações Gays iniciado aqui.

Gay aos 20 e poucos anos

A começar pelo namorado, ele concentrou a grande maioria de vivências sexuais até os 16 anos. Até que tardia, para sua geração, já que outros conhecidos de sua idade tiveram algo de experiência aos 13 anos. Seu tio, entre os 50 e 60 anos, foi – de forma total e abrangente – sua “trincheira” para viver todos conflitos, dilemas, culpas e desafios perante a avó e os irmãos.

Brinco com ele assim: “sua família até que carrega traços conservadores e a gente sabe, né? Principalmente a sua avó que é a líder da família tradicional brasileira, como tantas outras espalhadas pelo país. Não fosse seu tio, talvez, o caminho não estivesse tão aberto a você (…)”. O fato é que meu namorado é (totalmente, ou perto disso?) bem resolvido quanto a própria homossexualidade “desde sempre” e não precisou enfrentar os desafios comuns dos contextos familiares.

Não deixou de sofrer bullying no âmbito escolar, durante anos, mas provavelmente pela personalidade e características intrínsecas, não traumatizou, não resolveu manifestar bandeiras e, as dificuldades da vida gay, praticamente não são assuntos entre nós, o que é um enorme alívio para mim que, se tivesse que deparar com os velhos e bons discursos sofridos de um namorado, teria no mínimo uma preguiça!

Dilemas da vida gay? Obrigado, não

Há mais de 10 anos eu faço terapia, cursei um importante intensivo de Coaching e me relacionei o suficiente a ponto de falar “meu namorado” algumas milhares de vezes. Não tenho nada contra a quem vive os dilemas da vida gay, dos temas mais sacramentados aos mais inusitados. Pelo contrário e o Blog está aqui para ser um dos exemplos. Porém – a mim em um contexto de convívio frequente e compromissado, minha vida com um companheiro – basta dessas problemáticas. Ser gay não pode ser mais do que 5% dos meus assuntos íntimos, no meu ponto de vista hoje.

Meu namorado é aquele cara nascido em um contexto digital e percebe as dores do mundo muito na pele. Da precariedade do Nordeste do país até a caça pedratória de determinadas baleias no Japão ou o assombro que foi Chernobyl; o estrago que faz beber Coca-Cola e comer McDonald’s (embora não deixe de consumir o segundo de vez em quando). Já foi vegetariano; da importância absoluta da Educação no país, valor triplicado por ser professor. De como o ser humano é um “bicho inferior” e toma todas as porradas e mais por certo merecimento.

Sofre, as vezes, de muito ansiedade e vira-e-mexe eu o questiono: “em que parte do amanhã você está agora, com esse olhar distante?”. Com isso eu convivo bem, talvez, porque se é para sofrer, que seja olhando para o futuro e não para o passado.

Gerações gays: Gay que passou dos 50 anos

Seu tio foi aquele que viveu a juventude numa fase de Brasil e de mundo em que eu peguei na pré-adolescência: Barão Vermelho, Legião Urbana e o rock nacional expressava em alto e bom som os fervores internos dos jovens dos anos 80. Época de Guerra Fria e o muro que divida a Alemanha estava em pé, firme e forte. Os produtos de ponta ainda eram Made in Japan e nem se cogitava qualquer movimento de Globalização. Tigre Asiático? Só em sonho uma China pobre, populosa e de um povo sem Educação poderia se tornar uma potência.

Madonna e Michael Jackson aguçavam as fantasias de seus fãs em eventos musicais que eram os primórdios dos grandes espetáculos.

O tio esteve presente nas primeiras Paradas Gays (na época era Para Gay e não essa porrada de siglas identitárias de hoje) e entende que “aquilo sim era movimento políticos de qualidade”. Uma parte de mim, que pegou a rabeira dessa geração, concorda.

Naturalmente, o tio acaba valorizando o passado e acha a juventude de hoje apática, quase que zumbis que andam para lá e para cá sem empolgação, sem saber – internamente – as verdadeiras sensações do que é entusiasmo. Da alegria! Ou da raiva!

Diante tantas intensidades, acabou pagando e paga até hoje pelos excessos.

É casado há mais de 10 anos, se não me falha a memória. O marido foi casado, heterossexualmente falando. Tem um filho para lá de adolescente e, todos, incluindo pais do marido, filho e ex-esposa, convivem harmoniosamente. A mim, é uma boa referência de comportamentos descolados no convívio prático e real.

Quando sobra dinheiro, o tio não exita em ajudar a família. Por um lado, um certo altruísmo. Por outro, uma necessidade de ter o controle.

Casal gay X Casal gay

Não temos propriamente um convívio constante, casal com casal e confesso que acharia bastante estranho seguir algum tipo de protocolo familiar ou, quem sabe, heteronormativo relacionado a isso. O que é mais protocolado são as festinhas de aniversário de primos ou tios do meu namorado. Daí a gente se encontra. Ou não.

Eu me divirto bastante nessas ocasiões pontuais. O tio consegue ser intenso, agitado, escrachado e alegre a todo momento. É impressionante! Mas nem tudo que reluz é ouro: a frequência de convívio traria a mim o sentimento de invasão, comportamentos infantis fora de hora, uma necessidade dele de controle e de ser o centro de atenções na maioria do tempo. Egocentrismo, narcisismo, tudo de um pouco e misturado. Basicamente o que eu busco, ao contrário, hoje com 42 anos.

Temos alguns amigos em comum (quase que óbvio): as ex-donas do saudoso Bar Gourmet em São Paulo são amigas de longa data do tio. Tenho alguma expectativa de encontrá-las neste contexto.

***

Sobre mim, creio que tenho dissertado bastante nestes “novos” posts em 2019, fora as dezenas de textos que lancei durante os anos. Fica aí a prática do leitor para me enxergar a partir das leituras que faço desses queridos e amados rapazes.

Encerro assim o “Gerações gays”.

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