Gianecchini assume relações com homens

Sem gaveta

Ele preferiu se referir a gavetas. Eu digo caixinhas. De todo modo, Reynaldo Gianecchini confessou há algumas horas em mídias, como a Isto É, que já teve relações homossexuais, mas diz não erguer bandeiras da homossexualidade.

Não se diz bissexual, nem gay, nem hétero… e, vamos combinar, que no exato contexto social, 2019, Brasil – sobre sexualidade e gênero – há uma abertura para essa não rotulação e uma forte pulverização do conceito.

Talvez, quem sabe, quando alcançar a idade de Marcos Nanini, ele resolva trazer uma realidade gay a público e aceite ser rotulado como tal. O que não dá para negar é que até essa não-rotulação, mediante a política partidária e a publicidade, pode ser uma artifício de proteção para suas verdades já que vivemos ainda em um país que reduz oportunidades quando um símbolo de masculinidade, como ele, desencanta seus fãs por esse fato.

Quem viveu com intensidade e frequência o “meio gay” há 5 ou 10 anos, quando o politicamente correto estabelecido não condenava o termo “meio gay” como condena hoje, sabia de diversas situações de Giane com homens. Tão óbvio como achar que Diego Hypolito não fosse.

A maneira que Gianecchini trouxe à tona a mídia, lembra muito quando, nos anos 70 (atenção, 50 anos atrás), Elton John expôs – parcialmente – suas verdades relacionais. Talvez a gente viva em um país cuja abertura mental se equipare aos EUA daquele tempo.

De todo modo, a intimidade só a Gianecchini interessa.

Gianecchini em prol da resistência?

Na verdade, a mim, tanto faz e é claro que uma das alas vai afirmar – categoricamente – que sim.

Esse post de hoje acaba como uma extensão exata – em cima de fatos – do texto “A vida gay com Bolsonaro presidente”. Sobre minhas reais percepções sobre nós, gays, no contexto atual, numa tentativa de retirar as camadas e a fumaça que pairam diante dos olhos de uma maioria, independentemente de nível de escolaridade ou conteúdo intelectual.

Um temor profundo da oposição-polarizada – e se polarizada é míope – de que viveríamos hecatombes, de que os gays se pulverizariam no espaço com a chegada do atual presidente. Que gays voltariam para o armário, com direito a lacre e cadeado, que a vida gay no país, até mesmo em São Paulo, seria reduzida ao ostracismo, para quem fosse.

Apocalíptico. Esse era o discurso emblemático da histeria para que eu, inclusive, votasse do contra.

Os termos exatos talvez não fossem esses, mas o ufanismo apontado para “bem x mal”, maniqueísta, regado de uma cultura Cristã (curiosamente de não gays) próximos a mim, obviamente de adoradores “daquela” esquerda, era formado por um tipo de terrorismo como desses (e não vou cansar de registrar, pelo menos por um tempo a frente).

Mais um fato – Gianecchini assumindo relações com homens – soma-se a uma realidade em que acredito, fruto inclusive do trabalho no Minha Vida Gay: de que a comunidade LGBTQIA+, principalmente gays e lésbicas, está com uma autonomia definitiva que independe de sistemas partidários da pior categoria (como das últimas eleições), muito menos de sistemas sociais que nos polarizam e que acham que sabem tudo.

Giane, além de indivíduo em sociedade, é igualmente porta-voz de uma classe que compõe esse “bolo orgânico” que é nossa comunidade e, mais além, envolve mídia, integrantes da sociedade civil, instituições, grupos privados, judiciário e, ok, determinados políticos.

Saldo positivo

O ano de 2019 do primeiro mandato do “dito” está acabando e, desde janeiro para cá, a começar com Diego Hypolito, seguindo pelo STF, beijo trans na Globo e, agora, Gianecchini, o período somou feitos representativos para quem quiser enxergar. Aqui, ninguém é forçado a nada.

Repito: quem quiser enxergar. Pois o crente “daquela” esquerda que não se diz radical, nem manipulador, nem ufanista, dono inclusive de grandes verdades universais, não está lá muito animado com todas essas manifestações.

Vou dizer que o STF, este ano, durante o mandato de Bolsonaro, decretou uma lei tão importante, impactante e influente em nosso cotidiano (se não mais) de quando o casamento fora autorizado em épocas de Dilma. “Casamento gay”, o primeiro post aqui, no MVG.

De lá para cá, as coisas só melhoraram pra gente, meus queridos leitores gays. Só enxerga o lado vazio do copo quem acredita em demônios.

Ou deuses. Dependendo de quem está ou estará no poder.

Esses, no final, são tão medíocres ou ordinários como todos nós. Mas há quem deposite fé nesse paganismo todo.

Estou orgulhosamente fora dessa gaveta.

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