Goiano pai de família

Nesse final de semana, no domingo, estive com o EA, leitor que inspirou o post “Relato Gay – Marido, pai de dois filhos e gay“. Por um lado assumi a “função MVG”, de concretizar mais um encontro com um leitor com a sua história, relatos e questões por ser homossexual. Por outro, tudo indica que o goiano poderá ser mais um amigo que irá somar as minhas próprias referências, no exercício de troca e intimidade que define uma amizade entre gays. Deixemos a naturalidade das coisas reger…

Quando lancei a chamada do post dedicado ao EA no Facebook, o grande motivo do desagrado dos gays que se colocaram contra a esse “tipo” de homossexual – que constrói uma vida heteronormativa, casa com uma mulher, tem filhos, constrói uma casa “florida” e vive a vida da “família da propaganda da margarina”, atendendo todas as demandas sociais tradicionais e esperadas – é que todos perfis de gays assim, como o EA, como o Gustavo que já apareceu por aqui um tempo atrás e como milhares de outros que ficam escondidinhos espiando o Blog MVG sem se pronunciarem, são promíscuos e traidores.

Não me prestei a argumentar na timeline do post, lá no Facebook do MVG. Preferi ouvir as opiniões que, graças a Deus, se dividiram. Mas um momento agora: quantos são os gays “totais”, aqueles que não viveram da heteronormatividade por anos, que também não são igualmente promíscuos, traidores e galinhas? Fato comprovado: na sequência de posts do Face nesses dias, uma galerinha assumiu sua tendência à galinhagem, à rotatividade que, para o gosto de cada freguês – aceitando ou não -, é sinônimo de promiscuidade.

Se existem gays enrustidos, vivendo a heteronormatividade, que são promíscuos, putos, galinhas e acumulam suas três ou quatro marmitinhas para comerem nas horas vagas, eu não tenho dúvidas! Eu mesmo conheci um punhado deles na sauna 269, especialmente aos domingos. Mas generalizar, e dizer que todos são assim, é o mesmo que assumir que todos os gays são vadios. Me tirem dessa, com a devida licença! :)

Na mesma proporção da generalização/preconceito, o que dizer dos gays que adoram e tentam arduamente converter seus amigos heterossexuais? Naquela tentativa fantasiosa, digna também de um divã de psicólogo (porque pra mim, terapia é bom para todo mundo, principalmente para aqueles que acham que não precisam e vivem tais contextos) tais gays querem de alguma maneira homens como o EA, não é curioso a contradição?!

É evidente, a mim, que gay tem preconceito com gay – de maneira até massiva – e estão aí as reflexões para provar. Os paradoxos morais se manifestam na medida de nosso oportunismo. A verdade é que as pessoas não estão pensando e refletindo sobre uma linha de conduta, uma retidão. Vale o que nos parece conveniente. É conveniente taxar e criticar o homem hétero/gay casado. Mas se ele for o sonho de beleza, sensibilidade e conduta, e for gentil comigo, vou querer pra mim!

Ai que vontade de vomitar…

O encontro com o EA foi saudável e muitos insights vieram, tal qual as linhas descritas acima. Muitos gays cobiçam o amigo heterossexual, buscando aquele “pêlo encravado” para justificar a desconfiança, para tê-lo a qualquer custo. Mas aí, surgem tais homens gays que vivem a heterossexualidade e, na prática, são gongados e preconceituosamente definidos como sacanas.

A sacanagem me parece estar, de fato, na traição perante a figura feminina da esposa, no choque social e na reputação da própria imagem do gay. Mas e quando o gay é galinha e trai tanto se não mais, outros gays. Aí pode?

Como relatado em posts anteriores, parafraseando nossa presidente, a gente joga com “dois pesos e duas medidas”. Isso é um tanto conveniente e, a mim, até irritante pois demonstra uma lucidez do tamanho da circunferência do umbigo.

O respaldo que tenho, e que me alivia muito, é que eu nunca trai e talvez nunca traia, a não ser que – agora – traição se conceba fantasiando, vendo filme pornô ou batendo uma punhetinha.

O EA, entre idas e vindas com a esposa, vai se separar em breve. Vive sofrimentos e alegrias como qualquer indivíduo que tem uma grande bucha na mão (e temos várias delas durante a vida) e está disposto a “desconstruir um castelo” para começar a montar um outro novo, com novas pessoas, situações e histórias. Tem feito bastante terapia e está virando a vida 180 graus, como todos que conheci pessoalmente pelo MVG.

Porque o EA está terminando com a esposa? Não, ele não termina com ela por ser gay. Se dermos esse foco, aplicamos uma energia da condenação justamente naquilo que entendemos como normalidade. Ele está terminando porque o envolvimento acabou, o modelo construído com a sua esposa perdeu o sentido. Foram 9 anos e, dos 34 para os 35 anos ele tomou a consciência, com nitidez e coragem, que é gay.

Até tal idade, a sensação era que lhe faltava alguma coisa. Todo gay sabe que é gay? Não, não sabe, e está a entrevista na Rádio MVG com o Tiago (que nunca transou com uma menina, por sinal) para não me fazer mentir. Mas acontece que, se para a gente a nossa sexualidade acontece de uma maneira “X”, a gente entende que essa maneira é uma regra quase que absoluta. E não é! Se sexualidade fosse algo compreensível, fácil e consciente numa mesma dimensão e frequências para todos, estaríamos experimentando necrofilia, zoofilia, entre outras vertentes difíceis e bizarras! Os contornos da sexualidade são particulares e merecem respeito. Esse é meu ponto de vista, irrefutável.

Não gosto e acho traição uma enorme, dantesca fraqueza para eu ter que praticar ou vivenciar de um parceiro. Mas observando o outro, o EA, que vi que é igual a mim no sentido da homossexualidade, lanço mão da minha rigidez moral, abstraio (do sentido de pensamento abstrato), e o trago a um mesmo universo de pertencimento. Ele quer e já entendeu que deseja viver esse novo sentido de pertencimento. Por que negar? Porque eu acho que TODO gay desse “tipo” é safado? Acreditar nessa ideia é assumir uma mentalidade simplista, parcial, egoísta e reducionista. Teriam mais dez adjetivos depreciativos para tal mentalidade. Mas me basto.

As entrelinhas e detalhes dos acertos e erros entre ele e sua esposa são intimidades que ninguém, absolutamente ninguém, tem que se envolver. Problemas e buchas têm vários nomes. Inventamos muitos deles na medida de nossa tolerância emocional. Poderia ser uma crise com um nome de “falta de grana”. Poderia ser “o filho viciado em crack”. “O acidente de carro”, “a perda de um ente próximo e querido”. Mas o problema, nesse caso (e vai deixar de ser, porque logo menos o EA vai começar a construir seu novo castelo) é a sua “homossexualidade”.

Homossexualidade é problema, gente? Não vamos fazer de uma ameaça aquela pimenta que não arde em nossos próprios olhos. E quer saber: o gay que topa esse “tipo”, tem que ter clareza sobre onde está entrando, lembrando de que “o que um não quer, dois não fazem”.

No mais, terapia urgente!

8 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Os caminhos de cada um nessa vida são singulares, com este acontece de ser enrustido e ter dificuldade para expressar a sexualidade, com aquele já é a dificuldade de se envolver com alguém, um outro trai compulsivamente, um terceiro se casa com uma mulher para sufocar, “curar” desejos estranhos, proibidos.
    São muitas histórias, muitas vivências, penso que o importante é ter alguma certeza sobre o que se quer e então sair para viver essa aventura que é a vida gay, ter uma certa ética de não se machucar e nem machucar os outros e procurar sempre através da vida ir ampliando esse horizonte.
    No inferno social sempre haverá as pessoas que apontam, murmuram e intrigam, como feras numa selva, sedentas de sangue todavia se o sujeito tem seus princípios, bons amigos e estratégia (que bem pode ser a terapia que o MVG fala tanto) dá pra se criar um campo de proteção de resiliência contra os vampiros sociais.

    1. EA disse:

      Boa tarde, lebeadle.

      Só queria deixar claro que no contexto do casamento não havia a consciência, de minha parte – como tenho hoje – de que era gay . Não me casei para sufocar um desejo; casei porque gostava de uma pessoa e estava num relacionamento legal . Sabia que tinha desejo pro homens – mas isso era um detalhe desconfortável meu . E achava que esse plano de vida – casamento , etc – era compatível com minha idéia de futuro e relacionamento . Algo que não vejo mais como meu caminho .

      Abraços !!

      1. lebeadle disse:

        Oi, EA

        Vi agora o comentário. Entendi teu posicionamento, é que a consciência foi se desenvolvendo com o tempo, a coisa se desenrolou quando vc já estava comprometido, veja só! Fico pensando na dificuldade de afirmar isso quando um outro está envolvido, se já é difícil sozinho avalie ter de dar explicações a um cônjuge…

        Abraço

  2. Gustavo disse:

    Olá MVG
    Oi EA

    se tem uma coisa que minhas descobertas me fizeram enxergar, ainda com muito mais clareza do que sempre tentei na minha vida, é que ninguém sabe / sente o que se passa na vida e no coração dos outros, e portanto, não cabe a ninguém julgar.
    Conheci o EA através do blog MVG , e tive a tremenda sorte de me tornar seu amigo. Conheci, sua historia, ele conheceu a minha (tb já inseri o tema “tenho um lado gay” na conversa com a mulher!), semelhantes mas diferentes, e isso não impediu – pelo contrario, diria que impulsionou – nossa amizade. E agora ele até já conhece um outro grande amigo que fiz nessa caminhada “gay”, com história totalmente diferente da nossa, mas uma pessoa igualmente linda!
    Digo isso só pra reforçar que cada um sabe da sua historia, e dos dramas e alegrias que ela encerra, e no fundo tá todo mundo no mesmo barco: tentando se encontrar e ser feliz! Sem julgar, fazendo o mínimo possível de estrago pra si e pros outros, tentando, enfim…
    E nessa caminhada, que diferença faz, pros outros, se vivo uma vida 100% gay, se sou hetero-enrustido, se sou azul ou amarelo?!?!
    Pra mim, cada vez mais, faz menos diferença. Se nao engano e nao magoo ninguem de proposito.
    Somos pessoas. E cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!!
    Bjs pra vcs, EA E MVG
    do “macho” gay casado perdido tentando se encontrar… rsrs

    1. minhavidagay disse:

      Olha só! Apareceu a “margarida”! :P
      Por ter um contato seu, Gustavo!

      Bjo,
      MVG

      1. gustavo disse:

        Rsrs
        A margarida tá sempre aqui queridao!!
        Só que quietinho… rsrs
        Já Fiz dois grandes amigos graças ao blog, e continuo tendo muito prazer em ler seus textos… portanto, largo isso aqui mais não!! :-D
        enquanto isso, sigo aqui buscando meus caminhos… (Mas afinal, quem não está, né?)
        Bj grande pra vc

  3. Ferreira disse:

    Olá MVG,
    Muito legal esse post, de uma lucidez incrível.
    Concordo plenamente com os comentários de lebealde, EA e Gustavo. Estou começando essa caminhada ruma a felicidade. Nunca consegui sentir atração por garotas e não conseguiria ter uma relação afetiva com mulheres, mas JAMAIS julgaria alguém que tenha/tivesse.

  4. minhavidagay disse:

    Boa Ferreira! Assim você segue a vida gay com uma mente com menos travas. Vai te ajudar bastante! :)

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