Identidade de gênero

Festinha no apê

Vez ou outra me permito extrapolar as dinâmicas regulares de final de semana que é de acordar cedo sábado e domingo e aproveitar o pouco tempo livre que tenha com meu namorado em meio a diversas atividades, sempre em movimento. Estou ficando mais velho e a vontade de ficar na horizontal, deitado e pasmando tem se afastado do meu ser (rs). Perder o domingo dormindo me frustra. Já até fantasiei com a pílula que não precisasse mais dormir.

Madrugada a dentro tem sido evento raro, como foi no ano passado, quando virei a noite de sexta para sábado na D-Edge com amigos, munidos de aditivos especiais não alcoólicos e, neste final de semana, quando fui pregar os olhos, embriagado de “vinho dos bons”, às 4h30 da manhã.

Confesso que fui a festa de aniversário dessa amiga totalmente leve, visando a tranquilidade e o anonimato. No sentido de que os encontraria, mas não viria de mim, o assunto de política por exemplo. Para falar a verdade, eu nem imaginei que esse tema poderia vir à tona ou nem lembrei que, fatalmente, me encontraria em meio a uma turma evidentemente de esquerda, uma boa parte da comunidade LGBTQIA+. Talvez, como o assunto (conceitos, opiniões, posicionamento e expectativas) estivesse bem resolvido por dentro, não me dei conta que entraríamos em debates e, mais, eu seria meio que “objeto de estudo” por ser oriental.

Fui obrigado a lembrar que os orientais, no meio gay, pelas circunstâncias orgânicas e sociais no Brasil, mesmo em São Paulo, Capital, ainda estão encaixotados, rolutados e esteriotipados em um universo paralelo ao que é normativo as generalidades gays.

De Amazônia ao Machismo Oriental

Na ideia do anonimato, cheguei pontualmente na festa, como de costume e não demorou muito para habitar a área externa, com os gatos pingados que ali se estabeleciam e que, hipoteticamente, suportariam o vento gélido da cobertura.

Só que foi por lá que foi se estabelecendo, também, a concentração LGBTQIA+ que, a maior parte do tempo, manteve conversas amenas, boas risadas e assuntos aleatórios, cada vez mais aleatórios a medida que regávamos nossas taças.

E foi girando a bolinha da aleatoriedade que o assunto caiu na Amazônia. Da Amazônia e da gordofobia, apontou para Bolsonaro, de Bolsonaro para questões de identidade de gênero e de questões de identidade de gênero para o machismo oriental! Em outras palavras, eu virei objeto de estudo, notando um (estranho, weird!) contexto de que pessoas estudadas, formadas, com bons empregos, pouco tiveram ou não tiveram até hoje acesso a certos detalhes da cultura oriental, mais especificamente, da cultura japonesa. De que, por alguns ou muitos motivos, o oriental para o gay – fora a onda do sushi que já foi absorvido e que é querido no mundo devido a um movimento norteamericano – é desconhecido.

Relembrar que isso é um fato em um país, onde japoneses também são brasileiros, não é muito agradável.

Amazônia, Redes Sociais e Bolsonaro

Tenho as opiniões formadas sobre todo contexto social e político o qual se estabelece hoje. E, talvez, meus maiores guias para ter essas definições, não foram as redes sociais ou o amigo da bolha, torcedor do mesmo time que o meu, mas as obras “A Cabeça do Brasileiro” de Alberto Carlos Almeida e “Sapiens” de Yuval Noah Harari. Foram leituras necessárias para trazer uma paz sobre o contexto que nenhuma opinião alheia ou noticiário midiático estavam conseguindo trazer. Olhar para a política é entender o povo, a humanidade, e esse foi meu norte para estabelecer minhas ideias atuais sobre política.

É declarado, por meio de uma volumosa pesquisa que povoa o livro de Almeida, que a grande maioria dos brasileiros – por mais que sinta-se livre ou desapegada dos valores Cristãos – carrega na forma de pensar, internalizada na formação, o fatalismo Cristão. As reações nas redes sociais e no tête-a-tête não me deixam mentir: se outrora a maioria dos homens acreditava no poder de Deus, representante máximo capaz de nos promover alegrias ou tristezas, a bola da vez hoje é a crença profunda e internalizada de que nosso representante supremo-máximo, o presidente, tomou esse lugar divino.

E para a grande maioria dos meus amigos de esquerda, neste caso, Bolsonaro é o demônio. Não dizem isso, mas se a gente detalhasse suas características com os argumentos de esquerda para uma criança, provavelmente ela diria: “Ah, é um monstro!”.

Quando se iniciou a conversa sobre a Amazônia, de que ela ia acabar, logo me veio a cabeça a notícia que li na semana passada de que a NASA avaliou as queimadas atuais e constatou-se na média dos últimos 15 anos (aqui, de 22/08/2019). E no dia seguinte a notícia de que, segundo a mesma NASA, a queimada se equiparava a uma que ocorreu em 2010 (diga-se de passagem, quando Lula passou o cajado para Dilma). Aqui, de 23/08/2019.

Lancei esses comentários e disse ainda que entendia que a questão não era as queimadas, globais e recorrentes todos os anos, mas a postura de Bolsonaro diante do fato, incitando certo populismo. Mas não deixei de expressar que – no meu definido ponto de vista – o populismo (paixão e ódio por uma representação) não se faz somente por aqueles que clamam e idolatram, mas também e, se bobear, principalmente, por aqueles que manifestam a inconformidade ou o ódio. Falar sobre, publicamente em redes, é o combustível de maior octanagem aos representantes, todos eles. E essa queimada está longe de cessar pois é internalizada, cultural, do fatalismo cristão e (belamente) configurada e institucionalizada a partir de Getúlio Vargas.

Ou, quem sabe, Jesus Cristo!

“Quanto mais a gente falar do Bolsonaro, para bem ou para o mal, mais a gente está cumprindo nosso papel nessa coisa que é o populismo. E com as redes sociais, então, de uma maneira muito mais acelerada”.

Identidade de gênero e o Machismo Japonês

Talvez as pessoas esperem de um gay de esquerda como a maioria do gay de esquerda, o mesmo afã de negação ao presidente atual, ou a hecatombe na Amazônia. Mas não de mim. Não expresso essas autoafirmações para acalentar corações alheios porque, no meu ponto de vista (outro bem formado), política deve ser tratada com informação e racionalidade.

Citei ainda que, neste mesmo plano de Bolsonaro, o Diego Hypolito – famoso ginasta – se assumiu. A amiga aniversariante teimou que foi antes das eleições, mas sugiro a vocês darem um Google para tirar a teima. A ordem cronológica, a mim, está transparente e faz toda diferença.

Comentei ainda que o STF equiparou a homofobia a crime equivalente ao de preconceito racial, sob as barbas do Bozzo.

E tudo isso, para sugerir que, como é o Diabo que está governando o país, a gente não enxerga; cegueira, vendas nos olhos. Se fosse um Deus de esquerda, estaríamos entregando de mão beijada (literalmente, de mão estendida e beijada, ou lambida) os créditos a ele! Fatalismo cristão, mode on.

E foi aí que na aleatoriedade, pintou a conversa de gênero e eu, com o tema aberto na roda, disse assim: “fui no Shopping com meus pais há um tempo atrás. Me separei como de costume, eles fizeram as coisas deles e eu as minhas e combinamos um horário para nos encontrar. No horário marcado, fui chegando próximo deles e notei uma sacola grande que meu pai carregava. Era época da Copa e meu pai estava com uma bola oficial da FIFA. Daí perguntei: ‘ué, mas para quem é essa bola?’. E meu pai prontamente: ‘para sua sobrinha, a Mari’. E eu na sequência: ‘mas bola de futebol?’. E imediatamente depois, meu pai: ‘ué, Flávio… bola é bola'”.

[Este diálogo até virou post aqui no Minha Vida Gay]

Narrei esse fato entre eles, com bom humor e dando risadas, no sentido de que eu fui pego desapercebido com a minha própria cultura de gênero internalizada. E que aquele homem, meu pai, certamente (ou sem a minha lembrança) nunca me educou com essa cultura de gênero institucionalizada entre os latinos, no geral: “bola para menino, vestido para menina”.

Sem querer, aticei uma energia mais coletiva. Uma dúvida voraz (?) de tentar encontrar essa cultura de gênero na cultura oriental (?).

“Gente, eu não sei se isso foi algo específico da minha educação, mas meu pai nunca me influenciou, ou eu não me lembro, dele ter imposto essa cultura de gênero na minha educação. Pelo contrário, eu penteava Barbie com uma amiga que tinha um monte de Barbies e acessórios, meus pais espiavam e nunca falaram nada. Meu pai notava que eu tinha certa aptidão para piano e desenho, do que ele entendia de aptidões herdadas da minha avó, e era meu principal incentivador para cursos nessas áreas. No geral, eu não lembro de amigos orientais sofrerem esse tipo de colocação, de não poder fazer isso ou aquilo por sermos homens ou mulheres”.

Essa colocação encheu a turma de… “indignação”, talvez? “Assombro”? “Sentimento de inferioridade”? “Inveja”? “Inconformismo”? “Competitividade”? Não sei até agora e teria que conversar um a um para entender. Algo que não vai acontecer, mas eu definitivamente passei a me sentir invadido (?) ofendido (?).

O fato é que uma das reações imediatas da aniversariante da casa foi: “Japoneses são machistas também!”.

E eu disse: “sim, com certeza machistas. O problema do machismo é algo mundial. Mas eu não vejo relação entre o machismo com a cultura de identidade de gênero, que é essa latina”.

E o namorado do meu amigo, repetia a mesma pergunta: “mas em algum nível, simbolicamente, nas nuances, deve existir uma correlação entre a cultura de gênero com o machismo”.

Eu eu respondia: “não que eu perceba”.

E ele reforçava a pergunta de forma diferente. E eu respondia: “Não sei. Acho que não tem ou eu não lembro de ter sofrido!”

Sensações de bêbado

Falo por mim: na altura do campeonato, final de festa, eu estava bêbado como eu queria estar, ciente ainda de que eu seria politicamente incorreto para voltar para casa junto com meu namorado, relembrando os velhos tempos em que meu alterego me conduzia tranquilamente para casa, dirigindo. Quantas vezes não fiz disso!

Assim, muito bêbado, a mim ficaram dois sentimentos:

(1) certa frustração de perceber pessoas estudadas, formadas e bem empregadas, como dita a normatividade de status “classe-média-intelectual-da-capital”, com uma falta de conhecimento sobre certas nuances da cultura japonesa, sendo que japoneses permeiam a sociedade brasileira há séculos! Não os julgo totalmente neste ponto (e em nenhum outro para falar a boa verdade) porque a própria cultura oriental é mais reservada e se bota reservada mediante (também) as manifestações latinas. Mas longe de ser a magnânima desculpa, já que – por exemplo – existem novas gerações muito interessadas que conhecem mais a fundo sobre a servidão dos imigrantes japoneses quando chegaram ao Brasil. O processo é lento e a mim, fora dos esteriótipos citados, caio na chuva para me molhar.

(2) algo mais egóico para não perder o rebolado: preciso atualizar com a minha terapeuta meu entorno psicológico, algo que eu já havia notado estar diferente (ou em outro lugar) em um outro encontro que aconteceu em julho.

Minha ideia, na boa, era curtir o anonimato nessa festa de aniversário! Com o perdão do desabafo: puta-que-o-pariu!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.