Iluminismo e Idade das Trevas

O poder das crenças e o poder da razão

A Ipsos, instituição de pesquisa, todos os anos traz a realidade de que o brasileiro está entre o segundo ou terceiro lugar entre o povo com o menor senso de realidade, perdendo – normalmente – apenas para a África do Sul.

A pesquisa não explica, mas cabe a um comunicólogo social como eu me meter a analisar. É um tema que me inebria e dá luz para meus pensamentos em tempos de quarentena.

Envoltos pela realidade da pandemia do COVID-19, vivemos um momento muito oportuno para compreender – na prática – a indissociável relação entre “Iluminismo” e “Era das Trevas”. O contexto global atual está muito propício a essa impressão ou entendimento.

Em linhas gerais, a “Era das Trevas” ou “Idade das Trevas” original foi o período de declínio e crise, nada mais, nada menos, do Império Romano que por aqui referenciei algumas vezes. Pode inclusive ser um mito já que há poucos registros sobre o período.

O fato é que o Império Romano acabou.

De todo modo, caracteriza bem a falência econômica, financeira, ideia da fome, atritos sociais, doenças, entre outros que – supostamente – o contexto atual de pandemia nos inspira.

Por outro lado, o “Iluminismo” original foi nome dado ao exato período posterior a “Idade das Trevas”, quando a razão / racionalidade tornaram-se principais fontes para guiar a sociedade. Razão e racionalidade materializadas em diversas ciências exatas, biológicas e humanas.

Resumidamente, enquanto a “Idade das Trevas” era assolada por crenças e sentimentos profundos de fatalidade (fatalismo Cristão), o Iluminismo era revolto pela frieza dos fatos, testes e experiências. Fatos resultantes das inúmeras práticas em decorrência das ciências exatas, biológicas e humanas.

Na “Idade das Trevas” o esforço é tentar conservar (converdadorismo) o que está se perdendo. No Iluminismo, o esforço é de descobrir, construir, reformar, renovar (progresso).

Dito isso, nos últimos anos, cientistas sociais (historiadores, filósofos, sociólogos, etc.) alertavam-nos por meio de artigos em revistas, livros, vídeos no YouTube, entre outros, sobre um novo sentimento de “Era das Trevas” que poderia se formar a partir da própria crise econômica e social. Vou citar alguns desses sentimentos:

– a crença de que as vacinas são fruto de interesses terceiros;

– a crença em um volume maior de asteróides possíveis em rota de colisão com o planeta;

– a crença de que pandemias apontam para o Juízo Final;

– a crença no nascimento de ditadores e ditaduras (de esquerda ou direita) ou o anti-Cristo;

– a crença na Terceira Guerra Mundial;

– a crença em conspirações, como terraplanistas, a de que o homem não foi para a lua, de que reptilianos alienígenas estão entre nós e uma volumosa parte do Congresso dos EUA é composta por esses extraterrestres;

– outras crenças facilmente agrupadas e pulverizadas a partir da Internet.

Segundo tais cientistas sociais, essas crenças são fenômenos gerados a partir de crises econômicas e sociais as quais, no caso da “Idade das Trevas”, levaram ao declínio do Império Romano.

No mundo de hoje, até a pandemia e acentuada por ela, era evidente que a crise econômica e social manifestava-se de formas bastante diferentes pelo mundo: mediante uma insatisfação latente da população havia um sentimento de que a vida tinha estagnado.

Movimentos mais radicais de direita começaram a tomar forma; a crise impactou a soberania da Globalização – aparentemente inabalável – a partir de retiradas como o Brexit, os coletes amarelos na França, intenções separatistas dos Bascos na Espanha e o movimento do Leste Europeu que trouxe grandes questões morais e éticas para a Alemanha.

Esse último merece destaque: Angela Merkel, a princípio, se mostrou firme em não facilitar a entrada dos sérvios até o conhecido incidente da menina, quando lado-a-lado com a primeira ministra em cadeia nacional, obteve de Merkel a dura e fria resposta: “isso faz parte da política” (ou algo assim). O choro da menina, em reação, gerou um efeito contrário que balançou a comunidade e fez a primeira ministra mudar de opinião.

A abertura foi concedida e, posteriormente, no mesmo contexto de crise, alemães passaram a questionar se aquilo estava realmente certo e se não era correto privilegiar os próprios cidadãos naturais, levando a Alemanha a outra crise.

As manifestações na rua, em 2013, colocava o Brasil e os brasileiros no mesmo vulto de pessimismo diante da crise econômica local e esse sentimento de estagnação. O mundo seguiu assim, concatenado.

Com todas essas crises, juntas e misturadas, eclodem as crenças. E temos agora uma pandemia, para dar mais cores para nossas fantasias de fim de mundo. “Misticamente”, vem para caracterizar bem o sentimento da Idade das Trevas do século XXI.

Por outro lado, como bem dizem a mídia qualificada, analistas, historiadores e a grande maioria da população, a luz da razão da ciência – por meio do comando da OMS e cientistas locais espalhados pelo mundo – assumiu uma grande parte do controle social a partir da pandemia.

Temos então uma situação na qual vivemos o furor das crenças de nossa “Idade das Trevas” e a luz dos fatos, frios e racionais, da ciência ao mesmo tempo.

O senso de realidade do brasileiro

É a primeira vez que o Brasil, permeado de crenças e fantasias das mais diversas bolhas e dimensões (principalmente as políticas agora) sofre o sentido autoritário de um novo poder: o do vírus. Autoritarismo e razão científica ao mesmo tempo em um país de cultura expansiva, imaginativa e rebelde.

As grandes instituições, como o FMI (ciências humanas, economia), OMS (ciências biológicas, medicina), entre outras que incluem as ciências humanas a partir de pensadores, historiadores e sociólogos (Yuval tem fritado hoje em dia para supor tendências sociais e auxiliar governantes) estão – a partir da luz da razão e dos fatos – criando métricas, cronogramas e gráficos estatísticos que influenciarão por no mínimo dois anos as economias, os hábitos, as sociedades e os indivíduos.

Neste contexto, podemos até levar nossas crenças em paralelo. A crença em Ogum (como eu), na força do Espírito Santo (como um Cristão), na solução imediata em injetar algum spray antisséptico, como sugeriu Trump e uns 100 cidadãos americanos tentaram, da onipotência de Bolsonaro e de seus doutrinados mais radicais, em Silas Malafaia ou em outras crenças, mas a realidade é que a razão da ciência – no caso – nos sugere comportamentos mais firmes, contidos e realísticos.

Claro que no meu caso, por Ogum, pelo espírito de desafio ou rebeldia, eu poderia me arriscar e levar comigo a crença de que uma força maior não me abateria. O alicerce do liberalismo local e mundial me colocaria para assumir os riscos e o liberalismo de um terceiro, imerso nas crenças de uma suposta oposição, poderia até manifestar a frase: “você não merece ter um respirador na UTI”.

O Brasil, nesse estado de conflito inédito entre crenças e fatos, crenças e ciência, não está somente aprendendo sobre a importância de nosso iluminismo frente as cobaias caricatas. Em outras palavras, é muito fácil aplicar o raciocínio explícito nesse post nas carreatas irracionais pró-Bolsonaro nos finais de semana. Ou em mim, se por ventura eu saísse e acreditasse em meu “corpo fechado” e rebelde.

Todavia, em aspectos mais sutis – o que não quer dizer menos influentes – somos loucos como eles por levar mais a sério nossas crenças do que os fatos. No mínimo, perdemos muito tempo e energia nas crenças, dando corpo à reputação do segundo ou terceiro povo mais alienado do mundo, deixando escapar os fatos práticos.

Tal aprendizado, da possibilidade de alcançarmos nossa luz da razão – que não a valorização de crenças personalistas, mas sim dos fatos – está em dezenas de sutilezas comportamentais que nos inundam; que inundam a cultura brasileira.

Para elucidar, ou não, um pouco mais sobre essa minha última colocação, deixo um texto publicado em meu Facebook:

As cinco faces de Moro

A crença faz tipos como Moro multifacetado. Já vi uns 5 tipos diferentes em 5 minutos rolando a timeline, personalidades criadas na cabeça, no bico da crença e nenhum desses Moros condiz com o outro. E tenho certeza que todo mundo está achando que a própria crença é a verdadeira.

Não é hilário? Eu acho.

É por essas e outras que o brasileiro está sempre entre o segundo e terceiro lugar do povo com o menor senso de realidade.

Por mais sem graça que sejam os fatos (não dá muito para apostar e ficar jogando na cara do adversário/opositor), apesar de frios, são os que fazem brilhar a luz (luz, Iluminismo, sabe?) da racionalidade / realidade.

Então, enquanto vocês cozinham suas crenças no peito e na mente, auto-afirmando para esposas e maridos, amigos do mesmo time, da bolha e da timeline, gerando infindáveis debates aparentemente frutíferos mas que só estão servindo para reforçar a própria crença (e o ego, vamos combinar), o STF está acelerado para caçar os idealizadores das fake news contra o próprio Supremo. Possivelmente, celeridade impulsionada pelos últimos fatos.

Tudo indica que até segunda-feira, o lombo do filho X do presidente estará mais quente. O Alexandre de Moraes, rapidamente, enquanto a sociedade estava presa as crenças sobre o Jesus Moro (aclamado e crucificado), blindou a polícia – da equipe do próprio ex-ministro – para dar sequência ao caso.

O curioso é que nenhum desses Moros criados é diretamente responsável por esse contexto. Se o filho do Bolsonaro vai (realmente) fritar a partir dessa próxima semana, a mão mágica vem direto do Supremo.

Se o Moro mandou um Whats, é crença.

Eu deixaria o homem pra lá. Posso imaginar o que é mais de 20 anos de trabalho sem muito descanso.

🤘&❤️

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