Jedis e o lado negro da força

Mês que vem o Blog MVG completará quatro anos, período inclusive que durou meu namoro mais longo e, nem pelo efeito do tempo, me sinto desgastado ou na monotonia com esse tal de MVG, num relacionamento íntimo no qual me exponho sem medir muito o julgamento alheio, e que acabou virando um ponto de referência para os leitores (gays, g0ys, bissexuais, trans, gouines, machos e variantes) que se colocam a dar uma espiada.

Do dia 15 de maio de 2011, quando lancei o primeiro post, para hoje, minha percepção sobre a diversidade sexual mudou consideravelmente. E é sobre essa diversidade que gostaria de refletir hoje. Diversidade que vejo por aí e que reside dentro de mim também.

De fato, minha opinião a respeito do tema mais do que mudou; eu incorporei novas referências por intermédio de contatos que fiz por aqui e por situações que vivi na real. Posso pincelar alguns exemplos, que são bem firmados hoje como pontos de vista pessoais:

Bissexuais: durante praticamente metade do tempo do Blog, tinha como certo que a bissexualidade não passava de um estado em transição, da indecisão do gay que preferia se intitular como bissexual para amortizar o peso de preconceito, do autopreconceito e de possíveis rejeições. Em parte, não deixa de ser verdade. Basta ver celebridades que historicamente acabaram lançando uma bissexualidade para, depois, trazerem à tona a homossexualidade. Eu mesmo, um pouco antes dos meus 23 anos, idade que resolvi cair de cabeça para fora do armário, preferia me sentir bissexual. Era psicologicamente menos desconfortável. Mas foi aí que a vivência com o Blog e as experiências pessoais me fizeram incorporar novas percepções: há homens (e possivelmente mulheres) que transitarão sexualmente (atração e desejo) por homens e mulheres sempre. Dando nome aos bois (apesar de muitos evitarem títulos), o que seria isso, senão o bissexual? Assim, deixei de compreender tal conceito de forma rigorosa, como se fosse uma camuflagem psicológica exclusivamente. A abrangência da bissexualidade, a mim, me trouxe muito mais lucidez;

g0ys: quando tal conceito veio à tona no ano passado, já tinha percorrido mais de três anos de MVG. Já tinha conversado com bissexuais, machões e outras derivações. Ao mesmo tempo, já tinha terminado meu relacionamento mais longo e estava por aí, me permitindo a desenvolver um novo olhar sobre as variantes sexuais. Livre, sem barreiras. Quando o g0y ganhou destaque na mídia, li sobre o assunto para tomar minhas próprias opiniões: notei muitos gays tirando sarro, ofendendo e rejeitando tal “categoria”. Entendo que a minha posição é polêmica, para um gay que (teoricamente) tem certa obrigação de defender o time por ser “formador de opinião”, mas não. O que eu percebi é que o gay, naquele contexto, era odioso assim como o heterossexual foi para o gay no passado (ou em muitos casos ainda hoje). Compartilhei do termo “gayismo”, o que nada sugere um partido ou uma contra-causa, mas um manifesto de repúdio exagerado do gay perante esse “fragmento” denominado g0y ou qualquer outro fragmento que possa ofuscar a integridade do homossexual. Não achava e continuo não achando que cabe ao gay justificar o g0y, assim como o hétero faz (erroneamente) com o gay até hoje;

Refleti inúmeras vezes sobre as dualidades entre “ativos e passivos” e “afeminados e masculinizados”. Pelo que eu vi dentro e fora do MVG, tais dilemas permearão a nossa normatividade por longos e longos anos. Ainda é uma minoria que trata com baixa distinção certas diferenças entre afeminados e masculinizados, ativos e passivos. Tais dilemas farão parte do nosso vocabulário por um período incontável. Não será difícil também ter como normativo, por um bom tempo, a dualidade de gays que adoram as lésbicas e outros que sentem certa repulsa. Em todos esses casos, sim, estou falando em extremos, estereótipos de si, e contando com milhares de gradações entre um polo e outro. Essa necessidade binária, dual, me parece humana.

O Blog MVG e em paralelo as experiências de minha vida, fez abrir a minha cabeça, para pegar mais leve comigo mesmo (e consequentemente com os outros). Estou aprendendo a desgrudar de determinados alicerces culturais que, de fato, não me garantem segurança nenhuma. E não afirmo, de maneira alguma, que a vivência para todos seguirá pelo mesmo caminho que o meu, por favor. Meu objetivo não é destruir a “família feliz” (ou o ideal que cada um carrega).

No passado já considerei sites de relacionamento e aplicativos artefatos pavorosos. Até lembrar e relembrar que o meio, em si, nunca foi o problema. A questão sempre paira na relação entre o emissor e receptor. Lucidez? Não sei, mas me gerou desenvoltura para lidar com esses meios.

Já considerei abominável qualquer experiência vinculada aos GPs, os tão conhecidos garotos de programa. Já desqualifiquei certas amizades que, por ventura, sugerissem algum contato com saunas gays ou com o autorama. Para mim, qualquer “resíduo” desses universos era tido como promíscuo, pecaminoso, amoral e execrável. Mas o tempo foi passando, os movimentos da minha vida foram tomando novas formas e me peguei questionando: “ok, promíscuos. Mas qual a diferença em relação a beijar cinco caras na balada?”. Percebi que me tolhia (e tolhia aqueles que praticavam) por uma pura e injusta divisão entre as normas culturais (dentro e fora da cartilha): beijar dois ou mais na balada é permitido culturalmente. Curtir um GP, muitas vezes, é condenável. Permitido de um lado, condenável de um outro e a barreira nada mais é do que da cultura implantada, desde muito pequeno: lembro quando bem novo, antes dessa história de “ficar” surgir (sim, sou do tempo anterior as pessoas ficarem), que mamãe achava o fim da picada a juventude ficar beijando sem compromisso. Tratava, sim, como promiscuidade (e tinha razão!). Antes da minha adolescência, um casal que se beijava era para (diretamente) configurar namoro. Mas aí a nossa estimada sociedade absorveu essa cultura, a do “ficar”, o tempo foi passando e “PLIM!”, normatizou, o que faz a grande maioria achar normal. Eu acho normal e ótimo. Vejam só como ficou: beijar cinco carinhas numa noite é hoje ato “invejável” para muitos. Jovens, gays e heterossexuais, até contabilizam em concorrência e mexem com a autoestima positivamente daqueles que conseguem e negativamente daqueles que não catam. “Ficar” antes ficava fora da caixinha. Agora entrou. GP, sauna e autorama beiram transgressão para muitos por mera convenção, modelos, padrões. E é como eu penso, sem obrigação de colher devotos nem desafetos.

Estou com certo bode do Jean Wyllys, nesse momento que ele tem focado mais energia nas rivalidades partidárias. Até parei de segui-lo no Facebook. Mas quando ele prestava a se focar em suas causas, estava lá tentando normatizar a prostituição. Porque garantir direitos trabalhistas para “jovens do sexo”, nada mais é do que a inclusão na caixinha. Entenderam?

Hoje percebo que na maioria das vezes o problema para as pessoas, no caso os gays, não é a promiscuidade em si, mas o medo. Medo de sair do eixo e se descaracterizar em relação aquilo que a convenção diz que é “certo”, daquilo que o outro espera e acolhe. Medo de darem espaço para suas fantasias, fetiches e desejos e serem, de novo ou mais, repudiados pela sociedade. Eu não tenho mais esses medos. Até mamãe leu meu livro, aprovou, gostou e comentou. Mas não quis dar cinco estrelas! :(

(Alto lá e vejam bem: não estou falando aqui de permissões para pedofilia ou qualquer ato que caracterize o abuso de força de um em detrimento da inconsciência do outro! O discurso tem limites).

O ponto final que coloco em questão é da nossa grande e assustadora dificuldade em aceitar que “ser gay” é tudo isso a exceção do parágrafo anterior. Ser gay não é somente a faceta heteronormativa “família margarina” que, sim, está enraizada em nossa educação, em nossas idealizações e costuma ser a primeira (e as vezes única) referência de um acumulado de condutas até o falecimento. Ser gay é também a prática do “animalesco”, não do animalesco do “ficar” o qual a sociedade entende hoje com bons olhos, mas daquele animalesco que culturalmente a maioria entende como tal, proibitivo. “Ambos lados” são legítimos, são de nossa natureza, e apenas explorados em maior ou menor grau na medida do entendimento de cada um.

(Doenças sim, tratam-se de limitadores naturais para que, se a gente resolver dar vazão, que faça com proteção. Esse ponto é indiscutível).

Eu, Flávio, MVG, sou Jedi mas também assumo e vivo o lado negro da força. Minha questão existencial continua sendo (e vale o gerundismo): existe um ponto de convergência entre os dois? Estou a procura, na prática. É a minha busca. Solitária talvez, mas quem disse que tais jornadas se fazem acompanhado? Talvez se faça uma hora…

May the force be with you. Always.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Leandro disse:

    Antes eu era assim tbm: via com maus olhos ficar com GPs. Hj em dia, eu não condeno quem queira sair com GPs. Eu mesmo perdi a virgindade com um, pq eu não tava aguentando mais esperar “o cara certo”. Resisti muito até chegar a esse ponto. Não foi uma experiência ótima (já que foi minha primeira transa), mas tbm não foi ruim. Foi mais como uma porta de entrada para o “mundo do sexo gay”, por assim dizer.
    Hj em dia, continuo nesse processo de autoaceitação. Cada experiência nova com outro homem é uma conquista, pois eu não sou lindo, não sou sarado, não tenho dinheiro e sou um homem cheio de inseguranças. Agora estou buscando meios de me valorizar e me sentir mais atraente. Vou entrar na academia, em breve devo estar pagando uma consultoria de imagem para melhorar meu visual, tô tratando os dentes, que estavam mal-cuidados, vou toda semana pra terapia, tô investindo na carreira…
    É a vida que segue, né?

    1. minhavidagay disse:

      Leandro,
      apesar de seu depoimento ser curto, resume pontos que considero tão fundamentais e definitivos. Primeiramente, sem dramas e nem caprichos, você se coloca de maneira muito honesta, com uma consciência de si. Logo em seguida, mostra ações, práticas, movimentos que se resumem em ATITUDES para modificar um “modelo”. Em outras palavras, você está investindo em si para se sentir melhor.

      Vou te dizer que tal postura é definitiva para a vida.

      Obrigado por um relato tão simples, mas tão valioso.

      Um abraço,
      MVG

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