Lá vem os 38

Estou quase lá, me aproximando da esquina dos 30 para os 40 anos. Quando tinha uns 20 e poucos, minha imaginação me fazia acreditar que os 40 era motivo de aflição e o consolo era saber que tal marca estaria bem longe. Mas a estrada corre muito mais rápido do que a gente imagina e cá estou, a menos de uma semana para completar 38 anos.

Para dar um gosto especial a esse novo ciclo, ao contrário de uma boa parte de fenômenos econômicos e políticos de alta do dólar, inflação deixando sua marca, desgosto pelos governantes, intrigas partidárias e corrupção, queda evidente em alguns segmentos industriais, demissões em massa e tudo que os “pessimistas” previam e que agora tem sido tratado como realidade, na minha bolha existencial a minha empresa terá nesse mês, do meu aniversário, os maiores ganhos de sua história. Precisei trazer à equipe dois novos profissionais e, se eu quiser, poderei me dar um belo presente!

Mas não é por isso que estou feliz com a política brasileira. Ver a pessoa ao lado perder o emprego ou ter mais dificuldades para fazer sua compra de supermercado, mostra o quanto os governantes estão perdendo a mão desse grande navio que é o Brasil.

Entretanto hoje não vou delongar sobre política. A consciência ou não fica a cargo de cada eleitor ou a maneira que cada um faz ou não suas reflexões sobre os fatos que estão sendo consumados. Apaixonados por partidos ou políticos não arredam o pé com facilidade, até a hora que o pai ou eles mesmos percam o emprego. Afinal, brasileiro, na maioria, só aprende com a água batendo na bunda…

Nesse contexto de turbilhão de trabalho, o que me fez voltar os olhos atentos a minha empresa, e diferente dos altos e baixos de 2014 (cuja soma dos 12 meses foi positiva, mas só pude validar no final do ano passado), meu tempo tem ficado no gargalo para trazer inspirações ao MVG. Sinto falta dessa terapia.

Cá estou dispondo de um tempo que não tenho no momento, para trazer ao Blog mais um texto.

Meu Japinha está regressando de seus estudos no exterior no começo de maio. Falta pouco e com ele vem na bagagem certas expectativas de como será a partir de agora. Foram apenas dois meses de namoro presencial, serão seis meses de relacionamento à distância e nesse tempo, nossas rotinas seguiram individualizadas e distantes.

De fato tem sido uma baita experiência a mim, daquelas que envolvem sentimento, razão e valores sobre o acordo verbal que fizemos. A palavra tem uma responsabilidade incrível quando se é responsável.

Sobre a minha vida gay… bem… tenho cada vez mais concordado que é simplesmente “minha vida”. O “gay”, que faz parte do nome desse Blog, serviu até hoje como um referencial de encontro daqueles semelhantes que se procuram entender.

Chego aos 40 anos cada vez mais esquecido que ser gay faz parte de mim. Sobre o tema, questões existenciais não há mais e, quando surgem, me parecem derramar no colo da própria vida. Mesmo quando resolvi sair do “altarzinho” o qual alguns leitores me colocavam, e trouxe o assunto das intenções de um relacionamento aberto, não sei se isso tem obrigatoriedade de ser “coisa de gay” ou, simplesmente, “coisas da vida”.

Que existem nuances entre ser gay, ser lésbica e ser hétero eu não duvido. Mas creio que eu já esteja tão familiarizado e aberto às nuances de ser humano, que fica cada vez mais difícil querer comprimir a minha caixinha para ser gay.

O que de fato existe, nos influencia nas mais diferentes esferas e muitas vezes relutamos para aceitar é a heteronormatividade. Doa a quem doer, ela ainda é nosso referencial, nosso principal pilar para dizer das coisas certas e erradas, boas ou más. É nela que reside o machismo, machismo este que pode residir em um gay. É nela que reside o tradicionalismo, tradição muitas vezes cultuada por um gay. É nela que surgiu o feminismo, movimento erguido por tantos gays. É nela que se formaram os modelos, as convenções e cartilhas, que tantos gays desejam estar contidos e outros tantos desejam passar longe.

Cabe a cada um aprender a se posicionar diante da própria vida e o julgamento só se faz valer quando um ultrapassa os limites de respeito pelo outro.

Podemos pendurar uma melancia no pescoço, andar de salto alto ou pintar a cara de vermelho. Mas a cultura heteronormativa está além da aparência. Está fixada dentro da cabeça e é e será ainda um referencial positivo ou negativo para ser seguido ou repelido.

Chegar aos 38 anos, hoje, e saber onde me colocar perante a sociedade, sem aquele sentimento de “rabo preso” ou intriga, é definitivo para a minha vida. Chegar aos 38 anos sem me sentir vítima da heteronormatividade ou das “condições peculiares da vida gay” é um alívio. A gente perde muito tempo em conflitos consigo, embora entenda que o conflito seja necessário. A gente perde muito tempo reclamando ou resmungando pelas dificuldades externas e, a mim, isso é sim perda de tempo.

Ter a autoria da vida talvez seja para uma minoria. Mas um texto como esse, na minha opinião, serve para aqueles que querem tentar.

Aqui cheguei com 38 anos. Venci o meu medo de ontem e pretendo vencer o que será amanhã.

4 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Parabéns desde já MVG!!!! Boa reflexão sobre o totem da heteronormatividade presente em cada vida gay que se ergue, sobre os contrastes presentes na vida e de como nossa existência pode ser uma obra de arte nessa intersecção.

    Muita sorte, força e luz na sua caminhada e sucesso sempre, baby!!!

    Abraços

    do seu amigo

    Le Beadle

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Le Beadle!
      Bom ter um comentário seu novamente.

      Um abraço,
      MVG

  2. Adônis disse:

    Parabéns MVG! Estava sentindo falta dos seus textos. Eu adoro a postura que você tem aqui no blog de trazer a público suas vivências das mais nobres às mais ” profanas”, e com isso conseguir estimular entre seus leitores uma cultura de paz e reflexão. Neste sentido, você está no meu “altarzinho ” . Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Adônis!
      Desculpe pela demora em responder. É a correria!
      Agradecido pelo ponto de vista e pelo compreendimento da abrangência que somos!

      Um abraço!

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