Labirintos do Amor

Insights

Vivendo novamente uma história em boas sintonias, lembrei de algo que vivi anteriormente, seja por reações de algum ex ou minhas: certo frio na barriga, receios e dúvidas sobre a emoção da entrega ou, até mesmo, o medo de amar. Não que isso esteja acontecendo comigo atualmente. Mas como esse “medinho” é bastante comum em inícios de histórias de relacionamentos, achei interessante devanear sobre o tema para os leitores do Minha Vida Gay. Talvez seja útil ou não (rs), mas vale o registro de qualquer forma.

Vou começar de maneira lúdica, pelo zodíaco: dos 12 signos, posso afirmar que – como ariano – eu sempre me joguei bastante (rs). E antes, quando uma história vinha com desafios ou obstáculos, me sentia mais motivado para a conquista. Mas entendo que uma grande maioria das pessoas vai devagar, tem cautelas e prefere o passo-a-passo. O amor, por ser algo tão abstrato e subjetivo, não tem forma, nem cor, nem cheiro. Essa falta de materialização da coisa acaba nos enchendo de curiosidade e, ao mesmo tempo, incertezas. Como narrei em alguns posts no MVG, o ego está e estará sempre presente e, como proteção, busca evitar ao máximo situações de recusa, da não aceitação e da rejeição. Pode-se dizer que se envolver por alguém é sempre um risco? Em alguma medida sim. Simbolicamente, expor nosso coração nos torna frágeis e vulneráveis.

Com o passar dos anos, com a vivência, com a superação de possíveis traumas, a gente tende a aprender algo importante: o reconhecimento do entorno do nosso ego ou, em outras palavras, nos conhecemos muito melhor. Autoconhecimento. A tendência aí é que as coisas do amor sejam mais claras e simples e, quase que fatalmente, entendemos que amor visa a simplicidade. Visa a queda de inúmeras barreiras de nosso ego e passamos a compreender, aos poucos, que somos dotados da capacidade de amar e, vejam que incrível: de ser amado.

Quando a gente sabe que está sendo amado? Acho que a melhor resposta para essa pergunta viria com uma outra: “quando a gente está preparado para ser amado?”. Porque, de fato, sejam barreiras do ego (conscientes ou inconscientes), dúvidas, incertezas ou desconhecimento sobre como agir perante o novo, para algumas pessoas fica aquela dúvida se são dotadas de características, virtudes ou qualidades suficientes para serem amadas. Posso dizer, como já disse algumas vezes por aqui, que beleza não banca relacionamento. As vezes, até pelo contrário, pessoas extremamente belas (de acordo com os stardards midiáticos de beleza, que no meu entendimento foram criados originalmente no Renascimento) tendem a ser individualistas por serem (altamente) paparicadas desde pequenas.

O fato é que para se atingir uma percepção de amor, com toda subjetividade contida no tema o qual nem poetas e artistas conseguiram parametrizar até hoje, muitos de nós – sejamos gays ou heterossexuais – carregamos algumas ou muitas camadas de proteção.

Ao mesmo tempo, não existe um termômetro-mágico que nos indique o nível do gostar do outro por nós. Se você já pensou a respeito disso, saiba que é o seu ego desejando uma similitude ou um pouquinho mais do outro gostando de você. Tendemos a buscar garantias, sinais, gestos e atitudes que sugiram (supostamente) que o outro está gostando igual ou um pouco mais para que o ego se sinta confortável. Mas já aviso, por aventuras e desventuras próprias, que se fixar nessa ideia é cair na inércia da neurose. Já falei sobre esse assunto alguma vezes e trago aqui novamente.

Mas o que eu não falei ainda e me veio como um insight, é que – ao contrário de uma certa maioria que entra numa função de querer saber o quanto o outro está gostando para se garantir uma segurança – existem pessoas que, talvez, não se sintam dotadas de ser amadas. O post de hoje é especialmente para elas. Não me refiro propriamente sobre amor de mãe ou amor de pai (somente), mas o amor de alguém que se entende ou se idealiza como companheiro. Sugeri essa ideia umas linhas acima e continuo: desde questões mais superficiais como a estética, até características, jeito e pensar, me passou como um sopro pela mente que alguns de nós, no caso gays, não nos sentimos interessantes o suficiente para sermos amados porque, em algum lugar de nosso imaginário, simplesmente nos sentimos deslocados. Tal característica não subentende necessariamente uma baixa autoestima ou carência e poderia dizer assim: “não nos sentimos interessantes o suficiente para que pessoas se atraiam”, mas dessa maneira fica muito atrelado a ideia da estética e que, no final e de qualquer forma, normalmente subentende o interesse sobre algo mais profundo e vinculado.

Por um lado, das superficialidades mais óbvias, não podemos querer reinventar a roda! Se a gente foge (ou acha que foge) muito dos padrões e ainda idealiza um “príncipe” ao nosso lado, é querer forçar a barra (rs). Algum mínimo esforço é necessário, nem que a gente passe um tempo a frente do espelho e comece a gostar de alguma coisa de si. Nem que se faça uma dieta ou exercícios físicos e, de fato, não tem muito como ficar de mi-mi-mi. Por outro, e mais profundo, por algum motivo que a gente nem sabe dizer qual é, surgiu um dia na cabeça a ideia de que não somos dotados de sermos amados e, mesmo quando alguém traduz no verbo ou na atitude os interesses que vão se formando, fica aquela sensação de falta de credibilidade. Não propriamente da falta de credibilidade do outro, mas de si. Assim, ficamos preparados para que, a qualquer momento, haja um iminente distanciamento.

As vezes, para algumas pessoas, amor tem muito de aceitar que é possível ser amado. E quando se aceita, imagino eu, o sentido de relacionamento se transforma.

1 comentário Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Perfeito. Boas reflexões. Parece papo de auto-ajuda quando a gente não entende muito isso e ignoramos por vezes esse tipo de reflexão, mas com a consciência, mesmo que parcialmente disso tudo, a coisa passa a fazer um sentido absurdo, e modifica muito a nossa forma de ver e entender o mundo, não apenas como parece, mas definitivamente como ele se apresenta para nós.

    Um dos meus erros em relacionamento é justamente o de delegar ao outro, aquilo que eu não faço/fazia por mim satisfatoriamente, ou seja, delegar ao outro a função de oferecer o amor que eu não dou pra mim, chega a ser ‘esquizofrênico’ isso (com todo respeito, claro).

    A lógica do eu te amo (mais a vc do que a mim mesmo) e você me ama de volta e assim vivemos felizes é perversa. E que quando o outro não pode oferecer esse amor do jeito que idealizamos, parece que o ‘mundo acaba’ (rs). Esse é o tipo de ‘amor banqueiro/bancário’ que muitos de nós aprendemos, que ‘deposita’ e quer ‘sacar’, e não é assim que as coisas são e funcionam.

    O cerne principal da questão neste tipo de situação não é especificamente amar o outro, mas antes saber que tudo começa no processo de amar a si mesmo, e amar não uma questão apenas de enaltecer as qualidades que temos, mas passa também por aceitar os defeitos, as debilidades, melhorar e aperfeiçoar o que for possível, claro, mas sem esquecer que ninguém é perfeito mesmo, e muito menos precisa ser.

    Só tem uma coisa, no que depende de mim ninguém precisa fazer regime pra ser mais atraente :) (eu gosto assim, não somente, mas assim também – rs).

    Abraços e bom final de semana!

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