Lastro

Um post nada sobre gays hoje

Em 2006 me reuni a dois meninos que seriam meus futuros sócios de um estúdio para bandas. Assim começaria minha segunda empresa, eu com 29 anos, o “M1” com 24 e o “M2”, caçula, com apenas 17 anos. De fato, conheci o M2 com seus pueris 15 anos, quando fazíamos aula na mesma escola de música e, numa das apresentações das bandas, tocamos eu, mais dois amigos e um de nossos professores, as músicas “Hey Bulldog” dos Beatles, “Photograph” do Ringo Starr e “Your Song” do Elton John.

Naquela noite, depois que subiu ao palco três japinhas (eu no vocal e piano, o “japinha 2” na guitarra, o “japinha 3” na bateria e meu professor no contrabaixo), o pai dos “Ms” ficou encantado pelas versões, pela técnica e pela presença de palco que, ao contrário do que se imagina de japoneses, eu pelo menos como vocalista, fiz questão de reverter a imagem. Logo que desci, veio aquele senhor altamente empolgado nos parabenizar, entusiasmado e, assim, me apresentou ao sei filho, o M2.

A amizade se estabeleceu por dois anos. Junto com seus amigos, formamos uma banda, ensaiamos muito e passamos a nos apresentar em alguns bares e baladas. Eu dividia o vocal com o M2 e hoje, talvez eu dimensionasse com muito mais clareza o certo “status” que era animar a moçada, meninos e meninas vindo paquerar os caras da “Rádio V8”.

Montamos um estúdio para bandas e os anseios empreendedores fizeram a empresa virar um selo hoje. Para quem não sabe, selo é a empresa que constrói toda a identidade de músicos e bandas, da produção em estúdio à divulgação. Me encontrei com os irmãos hoje e, como eu havia “premunido” há nove anos atrás, o M1 (mais velho) viraria um puta técnico de som, eficiente e criativo para controlar a mesa e produzir a melhor mixagem para as bandas e o M2, o caçula hoje com 26 anos, o cara da administração, dos projetos, das vendas. Dito e feito.

Me desliguei da sociedade em 2011. Naquela época, o estúdio para bandas já tinha virado uma produtora de áudio, para atender o mercado de publicidade. Dividíamos a mesma casa na Lapa, em São Paulo e, com algumas crises de ego passageiras, fruto da imaturidade de todas as três partes, resolvi deixar o negócio e continuar com a minha primeira empresa. Nos anos seguintes, estabelecemos algumas parcerias. Idas e vindas. E hoje voltei a encontrá-los para celebrar o nascimento do selo e falar de novos negócios.

Almocei com o M2, o menino que se tornou meu amigo com 15 anos. Foi aí que, entre uma conversa e outra, ele me disse:

– Lembro que você sempre dizia pra gente: “temos que aprender a comer pelas bordas”. Olha onde a gente está chegando?

Foi um tesão ouvir de forma singela aquele reconhecimento. Me remeteu a diversos momentos que olhava para aqueles dois garotos e dizia: “gente, vocês precisam aprender a comer pelas bordas. Não nascemos em berço de ouro, com o privilégio de um ‘paitrocínio’ para decolar mais facilmente” – a época já tinha a minha primeira empresa há 4 ou 5 cinco anos.

E foi nesse contexto que me dei conta:

– M2, quantos anos você tem hoje?

– 26 já.

– Sério?! Jurava que você tinha 21 ainda! Quanto tempo tem a empresa?

– Nove anos!

– Cacete… nove anos… quase uma década já.

Olhar para trás e ver que mutuamente acreditamos um no outro, mesmo com alguns momentos de desentendimentos (diga-se de passagem, somos dois arianos) e ver que acreditei na potencialidade daqueles meninos, se materializa parte do lastro da minha vida, daquilo que faz sentido para mim. Ele tinha apenas 17 anos quando começamos!

Claro que eles sabem que eu sou gay e eu revelei nos primeiros anos do estúdio. Claro que há anos eles já voam com as próprias asas, cujos rumos são definidos exclusivamente por eles. Mas ter revelado hoje, depois de 9 anos, que ideias-chave ficaram estabelecidas na memória do M2 para chegarem a onde chegaram, me deixa espiritualmente um pouco mais satisfeito. É esse tipo de energia que me alimenta.

Entramos no estúdio antes de ir embora e ouvi ainda assim:

– Nove anos… e pensar que naquela época, pra mim, você já era “O” Flávio.

Tal afirmação já não me enche de melindres ou caprichos pois eu mesmo reconheço claramente esse “O” e estou bem com isso. Mas eu entendi o tom de agradecimento. Pensei baixinho comigo:

– Eu que agradeço.

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